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Duas guerras

7 June 2026 at 12:04

Sou suspeito, já que é – quase – sempre um assunto que me interessa, a nova série do canal História, “A Segunda Guerra Mundial com Tom Hanks”, com o grande planos da voz do actor, que acumula funções com a de co-produtor, e que trata como já devem ter percebido da Segunda Guerra Mundial.

Dito isto, desta singela forma, assim como quem não quer a coisa, podemos perguntar: precisa, o Mundo, de mais uma série documental sobre a Segunda Guerra Mundial? Eu responderia que talvez não, tantas são as séries que já nos foram oferecidas olhando o conflito sobre variados ângulos, geralmente na perspectiva dos vencedores. Com imagens a preto e branco, coloridas a posteriori, entrevistas a personalidades, antigos militares, pessoas comuns (populares para a imprensa tuga), são horas e horas de opiniões e factos, sobre o maior conflito da história da humanidade. De todo o material que tenho visto, o grosso da coluna navega, de uma forma geral no mar dos factos que já são conhecidos, e uma vez por outra traz à lidação imagens ainda não editadas e, nalguns casos, uma por outra com mais sangue e violência, que é o resultado do pé ante pé, que procura tactear o que é aceitável passar-se para o grande público. “A Segunda Guerra Mundial com Tom Hanks”, não foge à regra, não embarcando em versões revisionistas da História. Tenho a ideia que, desde o contributo dos historiadores mais consagrados, tudo o que lá se vê, já se aceitava nos idos de setenta, oitenta. O que tem vindo de novo são mais pormenores que outra coisa, mesmo depois da abertura de muitos ficheiros do mundo de leste, depois da queda do muro. Sem dúvida que o trunfo aqui me parece a voz de Hanks, que faz a diferença, nas narrações. Nada que me lembre mais as versões dos filmes para a criançada em versão portuguesa – que me perdoe o sindicato dos actores de teatro e cinema português nada ultrapassa o original. O restante é muito linear, mas está bem defendido pelo tratamento das imagens (muitas delas já conhecidas) e pelas declarações dos estudiosos que me parecem inatacáveis, simples e sem grandes leituras políticas. Claro que, para quem está interessado em discussões e segundas intenções (qualidades como quaisquer outras), não precisa de esforçar a vista: não está no sítio certo.

O jornalismo tuga anda pela hora da morte: perguntas chatas a políticos só em meses bissextos e no dia trinta de Fevereiro. Passos Coelho, um dos políticos que joga todos os trunfos na cegueira que lhes relatei na linha anterior, farta-se de fazer de S. Sebastião (acompanhado por aquele que não ousamos dizer o nome), sempre a ditar frases obscuras que, de certeza o divertem, quando olha para as caras de parvo da malta que o acompanha, por amor ou interesse. Uma coisa é uma coisa, outras, outra, mas o denominador comum das suas declarações é: “quero chamara a atenção para as reformas que os políticos não querem fazer”. E nem um empecilho daqueles jornalistas lhe pergunta: “Ora diga-me lá, só para nos dar um exemplo, quais são essas reformas de que fala?”. Talvez que se os tugas soubessem, lhe deixassem de perguntar, que hão-de ser tão boas, que podia ser que nunca mais lhe olhassem para a cara.

Três breves questões

31 May 2026 at 12:03

A sério, que tive que puxar pela cabeça para me lembrar o que fazia recordar a publicidade da FNAC, em que uma Alexandra Lencastre (percebi de quem se tratava, só à terceira visualização) lembrava que era tarde e o melhor seria não mandar mensagens no telemóvel, mas meter na cama Fernando Pessoa (o princípio será, um escritor de cada vez) obviamente em livro, parodia ao “Na cama com…” (anos noventa na SIC, vinte e sete episódios), como reparei depois. Não sei qual foi a ideia de dar a tudo aquilo um ar decadente, mas se não era para parecer, falharam em toda a linha. A publicidade parece-me muito desajustada, mas talvez fosse o que procuravam. Penso, no entanto, que falhar em toda a linha, pode funcionar ao contrário, na lógica do quanto pior, melhor.

Os observatórios de tudo e mais alguma coisa descobriram que, em Portugal, uma em cada sete crianças pobres passa fome. E eu que pensava que existiam famílias pobres e não crianças pobres, ou também existirão famílias ricas em que as crianças são pobres e ainda (o que tem que ser tem muita força), famílias pobres em que as crianças são ricas? Esta ideia de separar as crianças das famílias (para no fundo dar os mesmos resultados), terá sido ideia de quem? Provavelmente daqueles institutos que ganham à peça. Ou, falando em crianças pobres a malta toma mais atenção? Não sei, mas a menos que me elucidem não vejo a relevância das conclusões do estudo.

Lateralmente, só porque o li numa entrevista num jornal nacional, outros problemas e outros dados, vindos de outro observatório ou instituto, tudo muito psicológico e sociológico, que passaram na televisão, mas também na imprensa escrita: a questão do assédio no trabalho. Os números que avançaram eram poderosos, tudo em desfavor dos nossos patrões e de muitas das chefias intermédias, dentro da empresa. Para uma das autoras, entrevistada no “Público”, a questão do assédio era grave, mas já existia há muito tempo, só os assediados não tinham percebido. Eu compreendo o ponto de vista; esse tipo de relação de trabalho em que uns pressionam os outros de uma forma pouco lícita só agora parece ser nomeada. Mas penso haver aqui um pouco de política a mais.

Os tempos mudam e a natureza das coisas também. Não se pode comparar épocas sem perceber que eramos muito diferentes há sessenta anos. Talvez se pudesse pensar que uma criatura que não entende estar a ser assediada é porque, provavelmente não o está a ser, porque esse será, talvez o cerne do problema, Além de que não se pode ler uma sociedade de há setenta anos segundo os princípios de agora. Mas isso sou eu a assediar os meus quatro leitores.

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