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9 de maio de 1940, um adolescente suspira pela guerra, ela chegou | Por Mário Beja Santos

5 June 2026 at 18:20

O que há verdadeiramente singular nesta novela? Temos um adolescente à janela, o pensamento desliza à solta, atropelam-se desejos, a par de uma grande sensação de tédio, depois vemo-lo inserido no ambiente familiar, há uma atmosfera de tensão que percorre o país, a Alemanha fizera capitular a Polónia numa guerra-relâmpago, partilhara os despojos do país com a URSS, iria inevitavelmente virar-se para oeste, a França e a Grã-Bretanha tinham declarado guerra. A cabeça do adolescente gira em todas as direções, reflete sobre a guerra e a distribuição que a acompanha: “Tenho mil pensamentos. Talvez eu não seja normal. Imagine-se que havia um bombardeamento, que neste momento apareciam aviões alemães a sobrevoar a cidade. Uma bomba, nesta enfadonha rua de merda, seria mesmo fantástica. Prédios a arder, uma boa dúzia deles todos em renque. Imagine-se que esta rua estava em chamas, incluindo a nossa casa, que perdíamos tudo.”

E continua radical, a falar em abrigos subterâneos, em valas comuns, em profundação de cadáveres, que as bombas caiam por toda a parte. Assim se começa a desenhar uma potente água-forte, uma notável peça literária sobre a arrogância da juventude, o desejo de aventura, a perda da inocência, o chocante a assustador encontro com os bombardeamentos, a tal guerra chegara àquele país de bonomia e do gosto do bom viver, naquele exato momento ia mudar, por vezes de modo radical, a sociedade, a civilização e a cultura, mas nada se sabia ainda naquele início da invasão alemã. Cai, Bomba! por Gerrit Kouwenaar, Publicações Dom Quixote 2026.

Regressamos à novela quando Karel chega das compras que fizera a pedido da mãe, instala-se no quarto. O adolescente está dominado por pensamentos fulminantes, um tanto caóticos, sabe, entretanto, que os tios vêm jantar, chamam-se Robert e Lies, os pais chamam-se Cora e Philip, parece estarmos numa atmosfera de bonomia, o tio Robert só fala em felicidade, no fim do jantar o tio pede-lhe para ir no dia seguinte transmitir uma mensagem a alguém, o tio deu-lhe um papelinho enrolado e uma nota de dez florins.

Gerrit Kouwenaar (1923-2014). Foto DR

Karel sente que há problemas graves entre o pai e a mãe, um conflito que ele não entende, mas que o constrange. É neste ambiente que o irmão lhe vem anunciar que começou a guerra, o ataque alemão. Cá fora ainda tudo parece normal. Aquele rapaz de 17 anos questiona-se como vai ser a guerra, há pessoas que estão descansadas, acreditam que daqui a pouco vão aparecer os ingleses. O pai de Karel dá a saber que os alemães estão a cem quilómetros da cidade, há que contê-los; nas ruas, os automóveis continuam a circular como sempre, as lojas estão abertas, correm notícias que tanques e tropas motorizadas francesas e inglesas atravessaram a fronteira belga. Karel sai de casa e vai olhar a água da ponte, sempre com o seu espírito renitente e contraditório pensa que devia chover, que o tempo devia estar frio e sombrio. Nisto, dois aviões voavam por cima da cidade, Karel viu dois pontinhos a cair. Seguir-se-ão estrondos, casas esventradas, a guerra dava sinal de vida.

Então Karel foi cumprir o pedido do tio Robert, levou uma mensagem à amante dele, é recebido pela filha, acolhimento amistoso, elas perguntam-lhe se os ingleses já chegaram, ele não sabe, mas decerto hão de vir. Karel é confrontado com uma atmosfera de uma inquestionável normalidade, elas revelam serem judias, põem a hipótese de terem de fugir, ainda confiam com a chegada das tropas britânicas para suster as alemãs. A filha sentou-se ao piano e tocou uma melodia lenta e sincopada. A mãe não tem resposta para a carta do tio Robert.

No dia seguinte Karel sai de bicicleta, pedala a uma velocidade moderada pelas ruas sem automóveis, onde as pessoas passeavam em família, entediadas, aquele ataque alemão trouxera um contratempo nos lazeres habituais. Volta a bater à porta da casa onde estivera na véspera, a filha, de nome Ria, convida Karel a passear, pede-lhe um beijo, a serenidade continua a reinar naquela casa, mas a mãe comunica que vão apanhar o barco das quatro horas. Ria mostra-se apaixonada por ele. Karel parte confuso, é o despertar sensual.

O ambiente da cidade modificou-se, os cinemas estavam todos fechados. Nisto aparece o pai, vem assustado por nada saber do filho, regressam a casa. Chegou a hora da roda do destino inserir a tragédia, houve bombardeamento, morreu o tio Robert, a tia está hospitalizada, Karel vai visitá-la. Assalta-o uma grande vontade de partir. Lança-se à estrada, há áreas inundadas, faz parte do plano holandês de travar os alemães. Alguém informa Karel que a Holanda se rendeu e dá-lhe boleia na bicicleta. E dá-se um encontro com os alemães. Ria e a mãe tinham fugido, ele está transido por ter desejado que caíssem bombas, tem 17 anos, não sabe para onde ir, a vida parece ter perdido sentido, é este estado de espírito, com as lágrimas a rebentarem-lhe dos olhos que um dos soldados alemães lhe pergunta: “Meu caro, então o que é que aconteceu?”

No posfácio, o escritor Wiel Kusters comenta a novela de Kouwenaar, encontra características comuns entre Kouwenaar e Karel, apesar da guerra não ter sido completamente inesperada significou uma rutura total, toda aquela atmosfera que vemos antes da invasão alemã ficará completamente alterada, aquele jovem de 17 anos é submetido a um quadro afetivo com Ria que o desperta para uma vida sentimental que ele desconhecia. Houve base histórica para os acontecimentos que ele descreve na novela, em 11 de maio as bombas alemãs arrasaram catorze prédios num ponto de Amesterdão, um bombardeiro alemão que fora atingido por artilharia antiaérea continua a voar e largou mais duas bombas. Cai, Bomba! Contém reminescências nítidas deste episódio fatal. O que há de devastador nesta descrição de um destino impiedoso é vermos um adolescente a sentir que tomou o comboio da História e que nos conquistou o coração.

Saudemos uma obra-prima, veio tarde, mas ainda bem que veio.

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Arrumadores versus parquímetros: entre a informalidade e o Estado de direito | Por Nélia Alfarrobinha

5 June 2026 at 11:40

O debate entre arrumadores de automóveis e sistemas de parquímetros não se limita a uma escolha entre conveniência e organização urbana. 

Ele envolve também um ponto essencial que muitas vezes é ignorado, o enquadramento legal da atividade, a forma como o Estado define o uso do espaço público e as respostas que a sociedade encontra, formal ou informalmente, para lidar com as pressões da vida urbana.

Os arrumadores surgem frequentemente como uma solução informal para um problema real, a escassez de estacionamento e a crescente pressão sobre o espaço urbano. 

Em muitos casos, esta atividade reflete igualmente fenómenos de exclusão social, precariedade económica e dificuldades de integração no mercado de trabalho formal. 

Em troca de ajuda na orientação de viaturas, solicitam contribuições monetárias. 

Para alguns condutores, esta prática é tolerada e até valorizada, para outros, representa uma presença incómoda, associada a um sentimento de pressão difícil de ignorar.

Do ponto de vista sociológico, a persistência deste fenómeno revela a coexistência de duas formas distintas de regulação do espaço urbano, uma formal, exercida pelo Estado e pelas autarquias, e outra informal, construída através de práticas sociais que se consolidam pela repetição e pela tolerância coletiva. 

A existência de arrumadores não resulta apenas de uma necessidade de estacionamento, mas também das fragilidades sociais e económicas que levam determinados grupos a procurar formas alternativas de subsistência.

Do ponto de vista legal, contudo, a situação não é neutra. 

Em Portugal, não existe uma lei que autorize a atividade de “arrumador” como profissão regulada. 

Pelo contrário, o enquadramento jurídico resulta da aplicação de normas gerais. 

Quando a atuação ultrapassa a simples ajuda voluntária e entra no domínio da intimidação ou da exigência implícita de pagamento, pode configurar coação (artigo 154.º do Código Penal), sobretudo se houver pressão psicológica ou condicionamento do estacionamento.

Além disso, em muitos casos, a atuação dos arrumadores entra em conflito com regulamentos municipais sobre ocupação do espaço público. 

As câmaras municipais podem proibir ou restringir comportamentos que interfiram com a circulação, o estacionamento ou a utilização livre da via pública. 

Nestas situações, a intervenção pode ser tratada como contraordenação, aplicada por polícia municipal, PSP ou GNR, dependendo da jurisdição.

Existe ainda uma dimensão frequentemente referida pelos automobilistas, a sensação de terem de pagar duas vezes pelo mesmo ato de estacionar. 

Depois de efetuarem o pagamento obrigatório no parquímetro, muitos condutores sentem-se pressionados a entregar uma quantia adicional ao arrumador presente no local. 

Embora essa contribuição seja, em teoria, voluntária, a realidade é que uma parte significativa dos cidadãos receia que a recusa possa originar conflitos, danos na viatura ou outras formas de retaliação. 

Independentemente de tais receios corresponderem ou não a situações concretas, a sua existência produz um sentimento de insegurança que afeta a perceção de liberdade e tranquilidade no uso do espaço público.

Ou seja, ainda que não exista uma “lei dos arrumadores” no sentido clássico, existe um conjunto de instrumentos legais que permite às autoridades agir quando a atividade deixa de ser espontânea e passa a interferir com a liberdade dos condutores ou com a ordem urbana.

Em contraste, os parquímetros representam a formalização completa da gestão do estacionamento. 

São um instrumento do Estado ou das autarquias para regular o uso de um bem escasso, o espaço público, através de regras claras, tarifas definidas e fiscalização institucional. 

Ao contrário da informalidade dos arrumadores, o sistema de parquímetros baseia-se na transparência, previsibilidade e aplicação uniforme da regra.

Contudo, também aqui a realidade não é isenta de críticas. 

Para muitos cidadãos, o estacionamento pago é visto como uma forma de exclusão económica dos centros urbanos. 

Pequenos comerciantes argumentam que a cobrança afeta a dinâmica local. 

Ainda assim, do ponto de vista jurídico, trata-se de um modelo legitimado pelo poder local, enquadrado em regulamentos municipais e políticas de ordenamento do território.

A comparação entre os dois sistemas revela uma tensão central das sociedades contemporâneas, de um lado, práticas informais que emergem das necessidades económicas e sociais de determinados grupos, mas que permanecem juridicamente frágeis, do outro, mecanismos formais, legalmente estruturados, que procuram garantir igualdade de tratamento e previsibilidade, embora nem sempre obtenham plena aceitação social.

O problema não é apenas de mobilidade ou de gestão do estacionamento. 

É também uma questão de confiança nas instituições, de perceção de segurança e de legitimidade na utilização do espaço público. 

Quando um cidadão cumpre a obrigação legal de pagar um parquímetro, espera que esse ato seja suficiente para exercer o seu direito de estacionar. 

Sempre que surge a perceção de que existe um pagamento informal adicional ou um risco associado à sua recusa, instala-se uma tensão entre a autoridade formal do Estado e mecanismos paralelos de regulação do espaço urbano.

No fundo, a questão “arrumadores versus parquímetros” acaba por ser uma questão de Estado de direito. 

A sociedade pode e deve procurar respostas para os problemas de exclusão social que estão na origem de muitos fenómenos de informalidade. 

Contudo, a gestão do espaço público não pode assentar na ambiguidade nem na dependência de regras implícitas. 

Num Estado de direito, os cidadãos devem saber quem regula o espaço urbano, com que regras e sob que garantias.

A verdadeira discussão não é, por isso, entre arrumadores e parquímetros. 

É entre a prevalência de mecanismos informais assentes na tolerância e na pressão social, e a afirmação de um modelo de organização urbana baseado na legalidade, na transparência e na igualdade de direitos. 

Quando o espaço público deixa de ser regulado exclusivamente pelas instituições legítimas, não está apenas em causa o estacionamento, está em causa a própria autoridade da lei e a confiança dos cidadãos no funcionamento do Estado.

Leia também: Olhão e o direito à tranquilidade: A insegurança que já não pode ser ignorada | Por Nélia Alfarrobinha

Espiritualidade em Crónica: Conheça os 3 signos do Zodíaco com maior sucesso para junho | Por João Correia Tarólogo

5 June 2026 at 09:54

Começo por desejar a todos vós, estimados/as leitores/as, um mês repleto de paz, saúde, luz e bênçãos divinas.

Que os nossos caminhos sejam eles sempre iluminados pela Fé, pela Esperança e pelo Amor, mesmo diante dos maiores desafios da vida.

Cada novo mês, assim como cada novo dia representa um novo ciclo, uma nova oportunidade de crescimento e evolução espiritual, transformação interior e renovação da alma.

JOÃO CORREIA
Médium, tarólogo, orientador mediúnico, popularmente conhecido pelo “Santo do Algarve”
Cada novo mês, assim como cada novo dia representa um novo ciclo, uma nova oportunidade de crescimento e evolução espiritual, transformação interior e renovação da alma

Assim como as estações mudam e o tempo segue o seu curso, como as marés sobem e descem, assim como o Sol e a Lua nos brindam com a sua energia todos os dias, também os astros desenham para cada mês mensagens diferentes, energias próprias e sinais importantes para a nossa caminhada terrena/espiritual.

Nada acontece por acaso.

Os movimentos do Universo, os signos, os números e as vibrações espirituais ajudam-nos a compreender melhor os caminhos da vida, as emoções do espírito e os desafios que Deus Pai coloca diante de nós para a evolução do nosso espírito.

Há meses de colheita, meses de aprendizagem, meses de silêncio e meses de renascimento. E é precisamente através dessa dança invisível dos Céus que poderemos encontrar respostas, orientação e esperança.

Este mês de junho é regido pelo número 6, o número 6 tem por  simbologia espiritual a Responsabilidade e a Justiça.

Neste mês de junho, os 3 signos que apresentam maior sucesso para os seus nativos, segundo o meu método, são:

Em 1.º lugar: Escorpião 

Escorpião é o signo do zodíaco que apresenta maior sucesso para o mês de Junho, tendo sobre si as duas cartas com maior força do tarot, o Às de Ouros e o Às de Copas, representando estas cartas a Alergia, a Riqueza e o Sucesso, assim tem estes Nativos sobre si todos os caminhos abertos, tanto a nível financeiro como no plano sentimental, poderá sem dúvida ser um mês de êxitos extraordinários para estes nativos de Escorpião.

Em 2.º lugar: Caranguejo 

Caranguejo bastante privilegiado neste mês de Junho, tendo sobre si a carta do Progresso em todas as áreas da vida, acompanhando ainda estes nativos as cartas que representam o Crescimento e a Benção na área financeira, no plano sentimental a Carta que representa a Recompensa, podendo esta “Recompensa” representar a porta ao Amor que se abre em vossas vidas, em suma é um mês de progressos em todas as áreas da vossa existência.

Em 3.º lugar: Gémeos 

É o terceiro signo do zodíaco que apresenta maior sucesso, tendo no seu caminho as seguintes cartas: o Contrato e o Laço no plano financeiro e a carta que representa a Vitória no plano sentimental, o que a conjugação de tais cartas faz com que estes Nativos possam vir a ter um mês de recomeços com Vitórias em todas as áreas da Vida.

Um Santo e Abençoado mês de junho são os meus votos, desejando que todos os nossos pensamentos e ações sejam sempre pautados pela responsabilidade de escolhas justas e misericordiosas, pois é a vibração do Amor que nos faz evoluir.

Sem nunca esquecer que é o Amor o que nos Salva.

Do Algarve para o Mundo, um Irmão na Fé.

Que os Céus vos Abençoem.

Foto DR

Leia também: Espiritualidade em Crónica: Conheça os 3 signos do Zodíaco com maior sucesso para maio | Por João Correia Tarólogo

Cidades alertam: o próximo orçamento da UE deve proteger o Fundo Social da Europa | Por João Palmeiro

5 June 2026 at 08:02

À medida que as negociações sobre o próximo orçamento de sete anos da União Europeia continuam, estão a ser feitas escolhas importantes sobre como as prioridades sociais serão financiadas e governadas nos próximos anos.

Propostas para simplificar a arquitetura de financiamento da UE poderiam alterar significativamente a forma como a coesão e as políticas sociais são implementadas. Estas decisões irão moldar a forma como a Europa apoia as pessoas no mercado de trabalho, reduz a desigualdade e fortalece a confiança no projeto europeu.

As cidades sabem por longa experiência o que funciona. E também sabem o que está em risco.

Numa recente discussão Eurocities com representantes das instituições e administrações municipais da UE, uma mensagem ficou clara: qualquer reforma do financiamento da UE deve preservar a força, visibilidade e foco social do Fundo Social Europeu (FSE), e deve tratar as cidades como verdadeiras parceiras na conceção e entrega de soluções.

“O Fundo Social Europeu funciona porque as cidades estão diretamente envolvidas”, disse André Sobczak, Secretário-Geral da Eurocities. “Enfraquecer esse papel arriscaria minar o seu impacto.”

O Fundo Social Europeu promove resultados reais onde as pessoas vivem

Ao longo de décadas, o Fundo Social Europeu teve um impacto visível e duradouro em cidades por toda a Europa. Apoia as pessoas no mercado de trabalho, ajuda-as a adquirir novas competências e alcança os mais distantes das oportunidades.

Como sublinhou Gabriele Bischoff, Deputado do Parlamento Europeu, “O FSE tem um impacto visível nas cidades da UE, desde a inclusão no mercado de trabalho e desenvolvimento de competências, até aos projetos housingfirst, emprego juvenil e apoio a grupos vulneráveis.” Estes resultados são bem conhecidos localmente, mesmo que “a nível da UE, por vezes nos esqueçamos dos fundos sociais.”

As consequências de um financiamento social mais fraco são claras. Na Alemanha, cerca de um terço dos projetos atuais não existiriam sem o apoio do ESF. Em Espanha e Itália, esse número sobe para cerca de metade. Ao mesmo tempo, as desigualdades estão a aumentar e a escassez de mão-de-obra está a aumentar. “Queremos um verdadeiro ESF, com fundos reais para as pessoas”, disse Bischoff. “E não queremos grupos sociais a competir entre si.”

Esta evidência confirma o que as cidades experienciam todos os dias: o investimento social gera resultados concretos, e a sua ausência seria rapidamente sentida pelos residentes.

A simplificação tem de funcionar no terreno, não apenas no papel

As cidades acolhem, de forma geral, esforços para reduzir a complexidade e o encargo administrativo. A simplificação pode ajudar o financiamento a chegar às pessoas mais rapidamente e permitir que as autoridades locais e parceiros se concentrem nos resultados em vez dos procedimentos.

No entanto, muitos participantes alertaram que a simplificação não deve vir à custa da clareza, acessibilidade ou propósito social.

“A simplificação pode ser positiva se reduzir o peso administrativo e ajudar o financiamento a chegar mais rapidamente às pessoas”, disse Sobczak. “Mas políticas sociais eficazes dependem do envolvimento significativo das cidades no seu desenho e execução. Um orçamento dedicado ao Fundo Social Europeu e uma destinação clara para a inclusão social e a pobreza infantil são essenciais para garantir que o apoio chegue a quem mais precisa.”

Do lado da Comissão Europeia, Ruth Paserman, Diretora de Fundos: Programação e Implementação (DG EMPL), destacou os desafios do atual orçamento da UE, conhecido como Quadro Financeiro Plurianual (FMF). “Temos dificuldade em identificar as fronteiras entre fundos. Mesmo os administradores e beneficiários nem sempre sabem onde se candidatar”, explicou. A intenção por detrás da reforma é criar mais sinergias e flexibilidade, explicou, e trabalhar em diálogo com os Estados-membros.

As cidades concordam com a necessidade de coerência, mas também veem riscos. Como disse Michaela Kauer, chefe do Gabinete em Bruxelas da Cidade de Viena, “Simplificação, sim, mas para quem? Talvez seja mais simples para a Comissão ou para os Estados-membros, mas não necessariamente para as cidades.”

Quando os objetivos se tornam difusos e a designação é removida, as cidades receiam que as prioridades sociais possam tornar-se mais difíceis de defender. Hans Verdonk, Representante da UE na Cidade de Roterdão, destacou como o tamanho dos envelopes de financiamento nacional afeta diretamente a capacidade das cidades de responder às necessidades reais. “Os Países Baixos têm um envelope relativamente pequeno”, explicou o representante da cidade, “o que significa que temos de tomar decisões difíceis.”

Embora o foco nas metas seja compreendido, Roterdão alertou que “intervenções direcionadas podem muitas vezes resultar em percentagens, e não em responder às necessidades reais.” Prazos apertados de implementação complicam ainda mais a entrega a nível local, reduzindo o espaço para investimento social estratégico e de longo prazo.

A simplificação deve, em última análise, ser avaliada por um critério: ajuda as pessoas e os lugares a alcançar melhores resultados sociais?

A parceria não pode ser reduzida à consulta

Uma preocupação central levantada pelas cidades é a tendência crescente para a centralização através de planos nacionais de financiamento. Embora a flexibilidade para os Estados-membros tenha o seu lugar, as cidades alertaram que isso não deve vir à custa do envolvimento local.

“Do lado do Parlamento Europeu, sabemos que a centralização não é o ideal”, disse Gabriella Gerzsenyi, deputada no Parlamento Europeu. “As cidades sabem melhor o que é necessário localmente, e estão numa posição melhor para decidir.”

As cidades são onde as políticas sociais são implementadas. Compreendem os mercados de trabalho locais, as alterações demográficas e os desafios sociais. No entanto, vários participantes destacaram que a parceria é frequentemente tratada como um requisito formal em vez de um processo genuíno.

Marit Maij, deputada do Parlamento Europeu e relatora na Comissão do Emprego e Assuntos Sociais, foi clara, “O Parlamento Europeu considera que os Planos de Parceria Regional Nacional vão longe demais no que diz respeito à flexibilidade e centralização.” As cidades, sublinhou, “são onde as pessoas estão, onde as coisas acontecem nas ruas e onde a vida social é melhorada”.

Para as cidades, parceria deve significar um envolvimento significativo no desenho dos programas, não apenas na sua implementação. Sem isto, o financiamento corre o risco de ficar desalinhado com as realidades locais.

Os representantes da cidade sublinharam que não são apenas implementadores de decisões tomadas noutros locais, mas parceiros essenciais na definição de políticas sociais eficazes.Zagreb apelou à criação de um capítulo dedicado para as cidades nos programas de financiamento da UE, permitindo-lhes co-desenhar políticas que reflitam as realidades locais. Como sublinhou Luka Juroš, Ministro da Cidade para a Educação, Desporto e Juventude, “se a UE quer promover uma transição verde e digital ao mesmo tempo que responde à escassez de mão-de-obra e à mudança demográfica, as cidades precisam de ser co condutoras deste processo.”

Um Fundo Social Europeu dedicado continua a ser importante

Uma mensagem recorrente ao longo da discussão foi a necessidade de preservar um FSE forte e claramente definido, com um orçamento dedicado.

O FSE não é um fundo de infraestruturas. Aborda desafios sociais complexos que exigem continuidade, confiança e investimento a longo prazo. Como vários oradores sublinharam, apoia prioridades que vão ao cerne dos compromissos sociais da UE, incluindo o emprego juvenil, o bem-estar infantil, a inclusão social e o combate à falta de habitação.

“A UE não é apenas um mercado, mas uma comunidade”, disse Gerzsenyi. “Um Fundo Social Europeu forte é indispensável.”

Remover a atribuição de verbas especiais arrisca enfraquecer os objetivos sociais e aumentar a competição entre grupos vulneráveis. As cidades defenderam a restauração das salvaguardas para a inclusão social e a pobreza infantil, para garantir que os recursos chegam aos mais necessitados.

Miguel Fernández Díez-Picazo, adido para os assuntos sociais na Representação Permanente de Espanha junto à União Europeia, alertou que as reformas também poderão reduzir a visibilidade do FSE, o que, por sua vez, afeta a confiança pública. “As avaliações mostraram que o ESF oferece uma boa relação qualidade-preço”, afirmou. “É essencial para a implementação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais.”

Anne Andersson, Diretora-Geral do Escritório da UE da Região de Estocolmo, sublinhou o papel único do FSE no apoio à ação social local. “O FSE é o contributo mais importante para os projetos sociais”, afirmou a cidade.

Sublinhou que as autoridades locais devem estar envolvidas não só na implementação, mas também na definição do quadro regulatório. “As cidades são as primeiras a sentir a mudança social e os desafios sociais”, explicou Andersson, argumentando que a flexibilidade a longo prazo e a colaboração mais forte são essenciais à medida que os desafios se tornam mais complexos. “O setor social precisa de um estatuto específico”, acrescentou, alertando que, sem este reconhecimento, as prioridades sociais correm o risco de se diluir num quadro de financiamento mais generalizado.

Lições das cidades, o que acontece quando a parceria falha

Representantes da cidade partilharam exemplos concretos do que acontece quando os arranjos de governação falham.

Na Hungria, Budapeste relatou que não tinham sido lançadas chamadas do FSE há vários anos, com as autoridades nacionais a bloquearem pagamentos. “Isto resultou numa grande perda de fundos”, explicou Benedek Javor, Chefe da Representação de Budapeste junto da UE, “e mostra claramente os desafios que as cidades enfrentam sem salvaguardas adequadas.”

Em Espanha, apesar de um sistema altamente descentralizado, as cidades destacaram dificuldades na alocação de fundos e o risco de parcialidade política nos planos nacionais. Noutros locais, as cidades alertaram que os envelopes de financiamento mais pequenos exigem difíceis trade-offs, muitas vezes à custa do investimento social a longo prazo.

Por toda a Europa, a mensagem era a mesma: quando os sistemas se tornam excessivamente centralizados ou pouco claros, as cidades – e os seus habitantes – sentem primeiro o impacto.

O que as cidades estão a pedir no próximo orçamento da UE

As cidades não apelam ao status quo. Reconhecem a necessidade de modernizar o orçamento da UE e de melhorar a coordenação entre fundos. Mas a reforma deve basear-se no que já funciona.

Com base na experiência partilhada, as cidades apelam a:

  • Um Fundo Social Europeu forte e dedicado, com objetivos sociais claros
  • Parceria obrigatória e exequível com as cidades em todas as fases
  • Um papel formal das cidades na co-elaboração de políticas sociais
  • Flexibilidade a longo prazo que apoia a inovação sem diluir o propósito
  • Salvaguardas claras para proteger o investimento social e os grupos vulneráveis

Como sublinhou Christophe Lafoux, Diretor de Inclusão e Emprego na Lyon Metropole, a proximidade é uma garantia de eficiência. O acesso direto ao financiamento permite às cidades inovar, responder rapidamente e proporcionar melhores resultados para as pessoas.

O próximo orçamento da UE é uma oportunidade para reforçar a dimensão social da União. Confiar nas cidades como parceiras e dar-lhes as ferramentas para concretizar será essencial para tornar essa ambição realidade.

Edição e adaptação de João Palmeiro com Lucía Garrido Eurocities.

JOÃO PALMEIRO

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O magnífico Dr. A.

4 June 2026 at 17:30

– E eu tenho por esta lei muito carinho…

Assim rezou o palestrante. Para o magnífico Dr. A., esse decreto com que coabitava todos os dias, como se fosse cão, gato ou filho, era muito lá de casa. Poucas vezes ouvimos alguém confessar estes afectos subterrâneos. São verberadas pelo catecismo e pelos amigos mais moralistas as paixões que têm por alvos mudos objectos: dinheiro, móveis, roupas, até empregos. E, neste país, para o bem e para o mal, gostamos mais de contornar legislação do que de sublinhá-la. Ali estava o magnífico Dr. A. para contrariar o carácter nacional.

Esmagado sob o peso da própria gravidade, entrara na sala, secundado por um adjunto e uma secretária. O adjunto sentou-se e ficou responsável por passar os slides da apresentação. Era o “melhor técnico” com que o Dr. já tinha trabalhado.  A secretária, o seu “braço direito”, era alguém em quem o Dr. confiava cegamente. Competentíssima, proba, foi passando atrás das cadeiras para ir registando tudo. De bico selado, não ousou fazer o mínimo ruído a tirar fotografias. Mesmo tendo aquele aspecto protuberante e nervoso, A. quase murmurava. Quando lhe pediram que falasse mais alto, denunciou logo a má acústica do sítio. Se pudessem, franziriam o sobrolho os arcos das abóbadas brancas.

Abriu as hostilidades cuspindo o seu currículo extenso. Conhecia este, conhecia aquele, tinha muito a dever a fulano que chegara a director, era uma voz indómita à mesa dos ministros. Para queimar tempo, pediu à audiência que se apresentasse. À medida que das vozes trémulas iam escapando o nome e a formação, o magnífico Dr. A. ia arrolando vítimas para a sua peça. Que não se encolhesse o antigo inspector das Finanças: toda a gente desconfiava desses coca-bichinhos! Também ele conhecia e apreciava uma inspectora. Partilhavam, aliás, o leito matrimonial. E a rapariga que tinha acabado de entrar no primeiro emprego que tivesse paciência, levantasse a mão quando não percebesse alguma coisa. Dali a três ou quatro anos, já dominaria aquilo de trás para a frente. Se conseguisse entender alguma coisa, entretanto. Que se resignasse o tipo que tinha abandonado a instituição em que o Dr. pontificava. Tinha cometido um erro, deslizado numa traição. Acima de tudo, era preciso ter muita humildade. Dobrar o pescoço, fazer recuar o nariz até despontar o focinho. Muita humildade, apontaram?

Depois veio o vídeo, feito por inteligência artificial, que explicava a história da instituição a que o Dr. pertencia. Tivemos de engolir o chorrilho de banalidades, o dinamismo das palavras repetidas, o discurso redondinho. As colunas não funcionavam? Que se levantassem os ouvintes e se acocorassem à volta do ecrã para ouvir a voz soprada do Além. Lá fomos, vergados, beber da sapiência do cérebro etéreo.  

A comunicação prosseguiu sem sobressaltos. O Dr. salientou quanto se tinha sacrificado, ao longo de tantos e tantos anos, em prol do bem público. Confessou ter recusado rendosos cargos para servir a comunidade. Tinham-lhe agitado franjas de ouro e de prata junto às pupilas. E ele resistira.  O cidadão comum saberia o significado desta abnegação? Podia-se lá esperar solidariedade do povo! Mas a ingratidão não o amargava, as dificuldades não o demoviam. O seu magnífico nariz pairava acima de qualquer monturo.

Se alguém começava a falar com o colega do lado, interrompia o discurso.

– Não querem partilhar com os restantes? Pode interessar a outros colegas.

Qualquer murmuração se poderia transformar em insolência. Havia que prevenir. Por mais que tentasse passar o testemunho àquelas cabeças ocas, mil acidentes perturbavam o seu caminho. Um infeliz tentou lentamente desembrulhar um rebuçado. Uma apoplexia espreitou atrás de uma das orelhas do Dr. 

– Só tu é que não reparaste que está toda a gente a olhar para ti!

Como se nada fosse, o dedo do adjunto continuou a premir o botão da seta.  A secretária dançava ao compasso dos cliques, na nossa sombra.

A. voltou à lição, sentado contra uma das mesas, de costas para o lado que menos lhe interessava. Desfiava frases feitas, lia o que os seus subordinados tinham despejado na apresentação. Lançava, contra o tipo traidor, perguntas sobre decretos e programas. Vinham à baila as dificuldades enfrentadas pelo Estado e saltava para a garupa do inspector. Lembrava-se, a espaços, que tinha sido investido da nobre missão de pregar aos peixinhos e aludia à doce inexperiência da juventude, que a rapariga tão bem encarnava.  

O discurso foi-se enrolando e desfazendo. Gradualmente, foi sobrando pouco para ler e dizer. Quando, enfim, deu por terminada a sessão, a vozearia instalou-se. Era como se tivessem tirado a rolha da garrafa de espumante. Pressentindo que a tensão se dissipava, as línguas voltaram ao ataque.

Mas eis que, sem aviso, o dedo inquisidor de um ouvinte se ergueu acima do emaranhado de timbres. Havia uma pergunta para o Dr.!

– Força!

A palma aberta estalou contra a mesa. O silêncio desceu como um milhafre sobre a presa inquieta. Todos os olhos se arregalaram. As bocas contorceram-se em esgares aflitos. O homem dera mesmo uma pancada no tampo? Bastara um gesto, um gesto apenas, para que o tempo suspendesse o curso e engatasse a marcha-atrás. Subitamente, cada um dos ouvintes regressou aos terrores da infância, à solidão da secretária em frente do quadro preto. A. aproximou-se do perguntador, não dando muita importância ao espanto da audiência. A secretária e o adjunto entreolharam-se. Só eles saberiam quantos acessos de tirania lhe sacudiam o corpo todos os dias.

Finda a função, esperou que todos saíssem. Acompanhado pelos dois súbditos, abandonou a sala. Deve ter sorrido, satisfeito. O seu propósito tinha sido cumprido. Mais um passo fora dado para diminuir a ignorância universal.

Sul Informação
Caricatura de Odilon Barrot de Honoré Daumier (1851)

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Estamos a envelhecer, mas continuamos a não saber ouvir os mais velhos | Por Rita Seara

4 June 2026 at 07:30

Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. Este é um dado amplamente conhecido e repetido sempre que se discute sustentabilidade da Segurança Social, pressão sobre os cuidados de saúde ou respostas sociais para a população sénior.

Mas há uma dimensão deste envelhecimento coletivo que continua praticamente ausente do debate público: a invisibilidade narrativa das pessoas mais velhas.

Falamos de envelhecimento em números. Falamos de dependência, de pensões, de cuidados, de lares, de esperança média de vida. Mas raramente falamos das pessoas enquanto detentoras de memória, experiência e identidade coletiva.

De forma quase inconsciente, fomos empurrando os mais velhos para um lugar social onde são vistos sobretudo pelas suas necessidades e cada vez menos pelo valor da sua história.

E isso devia preocupar-nos.

Numa sociedade obcecada com velocidade, produtividade e novidade, ouvir exige tempo. Fazer perguntas exige presença. Escutar verdadeiramente implica reconhecer valor naquilo que a outra pessoa tem para dizer. Talvez por isso este seja um exercício cada vez mais raro.

O problema é que aquilo que se perde não é apenas individual ou familiar. É também coletivo.

Cada pessoa idosa carrega consigo um património imaterial feito de memórias, contextos, vivências e perspetivas sobre o mundo que não existem em mais lado nenhum. Quando essas histórias desaparecem sem serem escutadas, perde-se muito mais do que recordações privadas. Perde-se contexto histórico, identidade cultural e compreensão intergeracional.

Num país que viveu ditadura, emigração massiva, transformações sociais profundas, mudanças económicas e revoluções culturais em poucas décadas, não preservar a memória viva das pessoas é desperdiçar uma parte importante da nossa própria história.

Há também aqui uma contradição curiosa.

Nunca documentámos tanto a nossa vida como hoje. Fotografamos tudo, filmamos tudo, guardamos tudo. E, no entanto, talvez nunca tenhamos sido tão frágeis na preservação daquilo que realmente importa: as histórias, os significados, os testemunhos humanos.

Guardamos imagens, mas não necessariamente memória.

Talvez porque confundimos registo com preservação.

Mas preservar não é apenas acumular ficheiros digitais. Preservar é ouvir. É contextualizar. É reconhecer valor antes que seja tarde.

Este não é apenas um tema emocional ou familiar. É um tema social.

Num país envelhecido, continuar a ignorar a voz dos mais velhos é também uma forma silenciosa de exclusão.

E talvez esteja na altura de começarmos a falar sobre isso.

Leia também: Estamos a perder histórias de vida e quase ninguém está a falar sobre isso | Por Rita Seara

Doença Hepática Esteatótica: o “fígado gordo” que não deve ser ignorado

Assinalado a 11 de junho, o Global Fatty Liver Day pretende sensibilizar a população para uma condição silenciosa, mas cada vez mais frequente: a doença hepática esteatótica.

A designação “Doença Hepática Esteatótica” engloba diferentes formas de doença hepática associadas à gordura acumulada no fígado. Entre elas, a doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica (MASLD), previamente conhecida como fígado gordo não alcoólico, que reflete melhor a forte ligação entre esta condição e alterações metabólicas como obesidade, diabetes tipo 2, síndroma metabólica e hipertensão arterial.

A MASLD é a doença hepática crónica mais comum no mundo. Estima-se que cerca de um em cada quatro adultos no mundo tenha algum grau de fígado gordo (esteatose), sendo que muitos desconhecem totalmente o problema. Em Portugal, tal como noutros países europeus, o aumento do sedentarismo, da obesidade, da diabetes e dos hábitos alimentares desequilibrados tem contribuído para o crescimento do número de casos.

Os fatores de risco mais comuns para MASLD incluem excesso de peso, obesidade abdominal, diabetes tipo 2, resistência à insulina, colesterol e triglicéridos elevados, hipertensão arterial e sedentarismo. A predisposição genética e alguns hábitos alimentares, como uma dieta rica em açúcares, gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados também contribuem para o desenvolvimento da doença.

Apesar de na maioria das vezes não provocar sintomas nas fases iniciais, esta doença pode evoluir para situações graves, como inflamação hepática, fibrose, cirrose e até cancro do fígado. O diagnóstico precoce, através de exames de imagem e análises específicas, bem como o acompanhamento médico, são fundamentais, sobretudo na presença de fatores de risco, permitindo intervir antes que os danos hepáticos se tornem irreversíveis.

A adoção de um estilo de vida saudável continua a ser a estratégia mais eficaz para travar a progressão da doença e, em muitos casos, reverter os danos iniciais. A perda de peso, a prática regular de exercício físico e uma alimentação equilibrada têm demonstrado benefícios significativos.

O Global Fatty Liver Day surge, assim, como uma oportunidade para reforçar a literacia em saúde e alertar para a importância do diagnóstico precoce. Apesar de frequentemente negligenciada, a Doença Hepática Esteatótica é hoje um importante problema de saúde pública, com impacto crescente a nível mundial.

* Gastrenterologista na ULS Santa Maria e Hospital Lusíadas Lisboa, vice-presidente da assembleia-geral da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF)

O 25 de Abril também é ecológico

2 June 2026 at 17:00

No passado mês de Abril, considerado o mês da liberdade em Portugal, o conceito de democracia tem um significado ainda mais importante. Um país que viveu em ditadura sabe o que é não poder decidir e viver com medo e na sombra de um líder autoritário que dita as normas e as formas de vida. Mas não só em Abril se deve falar de democracia.

Mas porque é que uma organização não-governamental de conservação marinha está a falar de democracia?

Porque, a 25 de abril de 1974, Portugal ganhou a sua liberdade, e com isso, a abertura do espaço ao diálogo e associativismo, valores cruciais para o trabalho de uma organização não governamental que procura promover mudanças positivas.

A democracia implica liberdade, justiça, soberania popular e respeito pelos direitos fundamentais, o que inclui um oceano (e ambiente) limpo e saudável. Porque, sim, um meio ambiente limpo é um direito humano e, como tal, deve ser protegido. A democracia não é apenas um valor político, mas também ecológico e moral. 

A democracia foi ganha em Portugal depois de anos de luta. Mas a liberdade trouxe consigo responsabilidade. Uma responsabilidade civil que permite a expressão, tanto individual como coletiva, mas também o direito à exigência de melhores condições de vida, incluindo na qualidade ambiental e acesso a um ambiente saudável. Isto tem permitido, e até promovido, o surgimento de movimentos sociais, culturais e ambientais que visam proteger esses valores. O clamor de vozes que talvez nunca tenham sido ouvidas antes. As vozes da natureza, do mar, das comunidades piscatórias, das mulheres dentro dessas comunidades, entre tantas outras que, quiçá na escuridão de uma ditadura, nunca teriam ganho o valor que hoje acrescentam.

Geralmente, pensamos no processo de tomada de decisão, a nível governamental ou municipal, como algo distante e por vezes opaco. Mas, na verdade, o que lá se concretiza começa pelo que nós, o povo, fazemos, exigimos e votamos.

A responsabilidade inerente à democracia exige que o povo se mantenha informado e tome decisões conscientes. Em quem alguém vota não deveria ser uma decisão aleatória, muito menos assente na popularidade ou numa mera “preferência superficial”. O mérito e o alinhamento dos valores entre quem vota e quem se candidata deve ser o centro da questão. A participação em fóruns e instâncias de aprendizagem, sensibilização e partilha de informação é fundamental para votar de forma consciente e informada.

Contudo, a democracia também pode ser fragilizada por dentro. Movimentos políticos que colocam o crescimento económico acima da proteção ambiental têm ganho popularidade em vários países, incluindo na Europa, escolhidos precisamente através das urnas. Paradoxalmente, parte dessa ascensão alimenta-se de um ecossistema de informação digital fragmentado, onde algoritmos amplificam o sensacionalismo em detrimento do rigor – e onde a desinformação circula mais depressa do que os factos.

Ainda mais preocupante é a falta de interesse político em questões ambientais, devido ao crescente interesse em narrativas populistas e com base no ódio, que criam uma falsa necessidade de investimento em armas e defesa militar. Entretanto, o que realmente nos dá vida, um ambiente e oceano saudáveis, carece de recursos e apoio financeiro para a sua proteção.

A tripla crise ambiental das alterações climáticas, da poluição e da perda acelerada da biodiversidade tem de ser enfrentada de todos os ângulos possíveis. De cima para baixo e de baixo para cima. Na nossa vizinhança, bairro, município, localidade, no Algarve, no Alentejo, na Grande Lisboa e no país inteiro.

Participar, pronunciar-se e exigir transparência, com a liberdade que Abril conquistou, permite-nos influenciar prioridades políticas e contestar decisões que colocam interesses económicos acima do bem comum. A crise climática expõe que nem todas as vozes têm o mesmo peso – e é precisamente aí que a democracia tem de ser mais do que um valor declarado: tem de ser praticada. Sem ela, a participação é silenciada. Sem participação, a ação climática perde legitimidade, eficácia e alma.

Reforçar a democracia é uma condição indispensável para proteger o ambiente e o oceano e, com eles, o futuro.

NOTA: Este é o quinto artigo da “Coluna de Água”, um projeto da Sciaena – Associação de Ciências Marinhas e Cooperação e que publicará, durante um ano, 12 artigos, relacionados com justiça ambiental, direitos humanos, igualdade de género, participação democrática e literacia do oceano.

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Mucosite: um efeito secundário frequente no tratamento do cancro que exige atenção e prevenção

1 June 2026 at 17:30

Os tratamentos utilizados no combate ao cancro, como a quimioterapia, a imunoterapia e a radioterapia, sobretudo quando aplicados na região da cabeça e pescoço, podem provocar vários efeitos secundários. Um dos mais frequentes e debilitantes é a mucosite, uma inflamação da mucosa da boca e da garganta que pode afetar os lábios, as gengivas e outras estruturas da cavidade oral.

A mucosite é considerada um dos efeitos secundários com maior impacto na qualidade de vida das pessoas em tratamento oncológico.

Nem todos os medicamentos utilizados no tratamento do cancro provocam mucosite, mas trata-se de um sintoma relativamente comum, que exige vigilância, prevenção e intervenção precoce.

Geralmente, o doente apresenta irritação da mucosa e úlceras semelhantes a aftas, que podem causar dor intensa ao mastigar, engolir ou mesmo ao beber líquidos.

A dor e o desconforto dificultam a alimentação e a fala, afetando não só o bem-estar físico, como o emocional do doente.

Apesar de existirem tratamentos para a mucosite, a prevenção continua a ser uma das estratégias mais eficazes. Manter uma boa higiene oral é fundamental, com escovagem dos dentes após as refeições e antes de dormir, utilizando uma escova de cerdas macias e uma pasta de dentes adequada para dentes sensíveis.

O uso de elixires sem álcool para bochechar após as refeições ajuda a manter a boca limpa, enquanto a hidratação dos lábios e da mucosa oral é essencial. Evitar o tabaco é igualmente recomendado, pois o fumo agrava a irritação da mucosa e atrasa a cicatrização.

Quando a mucosite já está presente, a alimentação deve ser adaptada para reduzir o desconforto e garantir uma nutrição adequada. Alimentos cremosos e fáceis de mastigar e engolir, como sopas, purés, batidos, fruta cozida, gelatinas, arroz e massa bem cozidos, bem como carne e peixe desfiados ou triturados, são opções a considerar.

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Os alimentos devem ser ingeridos à temperatura ambiente, evitando temperaturas muito quentes ou muito frias, e as refeições devem ser fracionadas ao longo do dia, com pequenas quantidades ingeridas várias vezes. A ingestão de água, entre 1,5 e 2 litros por dia, é fundamental, podendo ser consumida em pequenos goles durante as refeições para facilitar a deglutição. Em alguns casos, e se o tratamento permitir, a aplicação de frio na mucosa, como gelo ou gelados, pode aliviar a dor.

Por outro lado, devem ser evitados alimentos secos ou ásperos, como torradas, tostas, frutos secos e bolachas, bem como alimentos salgados, ácidos, cítricos ou muito condimentados. Bebidas alcoólicas, gaseificadas e com cafeína, como café e chá preto, também podem agravar a irritação da mucosa e devem ser reduzidas ou evitadas.

Nos últimos anos, o uso de produtos naturais na prevenção e no tratamento da mucosite tem sido alvo de investigação científica. O mel tem demonstrado resultados promissores, com evidência de redução da dor e da gravidade das lesões. Outros produtos naturais, como camomila, própolis, cúrcuma e aloe vera, apresentam algumas evidências de eficácia, mas ainda necessitam de mais estudos antes de serem integrados de forma sistemática na prática clínica.

É fundamental que os doentes informem a sua equipa de saúde ao primeiro sinal de mucosite oral. Para além das medidas de higiene, alimentação e cuidados gerais, pode ser necessária medicação específica para aliviar os sintomas e prevenir complicações.

A deteção precoce e o acompanhamento adequado permitem reduzir o impacto da mucosite, melhorar a qualidade de vida e garantir a continuidade dos tratamentos oncológicos com maior segurança e conforto.

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Solidão, envelhecimento e saúde: o problema que muitas análises não mostram

31 May 2026 at 17:00

Há pessoas que vão envelhecendo sem fazer grande ruído. Continuam a abrir a janela de manhã, a cumprir pequenas rotinas, a ir à farmácia, a responder “vai-se andando” quando alguém pergunta como estão. À superfície, parece que tudo se mantém funcional. A tensão arterial pode até estar controlada, a diabetes mais ou menos vigiada, a medicação organizada numa caixa semanal em cima da mesa.

E, no entanto, por detrás dessa aparência de estabilidade, instala-se por vezes outra forma de fragilidade, mais difícil de medir e mais fácil de ignorar: a solidão.

Não falo apenas de viver sozinho. Há quem viva sozinho e se sinta inteiro, ligado, acompanhado pela família, pelos vizinhos, por um grupo, por uma rotina com sentido. E há quem esteja rodeado de gente e passe os dias numa espécie de ausência relacional difícil de explicar.

A solidão, nessa forma mais funda, não é a falta de pessoas à volta. É a falta de presença com significado. É não ter com quem partilhar o dia, a preocupação, a memória, a pequena conquista, o medo banal que só parece menor quando é dito a alguém.

Durante muito tempo, esta realidade foi tratada quase como um assunto de foro íntimo, mais próximo da tristeza do que da saúde. Como se fosse apenas um desconforto emocional, uma consequência quase inevitável da idade, da viuvez, da reforma ou da saída dos filhos de casa. Mas essa leitura é curta.

A solidão prolongada desgasta. Não aparece numa análise de rotina, não se ausculta com um estetoscópio, não surge com a nitidez de uma fratura ou de uma infeção, mas vai deixando marca. No humor, no sono, na energia, na motivação para sair, na vontade de cozinhar, na adesão à medicação, na forma como se tolera a dor, na rapidez com que o mundo começa a encolher.

É precisamente isso que a torna tão difícil de enfrentar. A medicina está habituada a procurar aquilo que se mede bem. Valores, imagens, sinais, alterações objetivas. E isso é indispensável. Mas envelhecer não é apenas atravessar uma sucessão de parâmetros clínicos. É também perder e reconstruir vínculos, adaptar-se a limitações, reorganizar o sentido dos dias. Quando essa dimensão falha, o impacto não se limita à esfera emocional. O corpo sente-o. A mente sente-o. A autonomia sente-o.

Muitos idosos não dizem “estou sozinho”. Dizem que andam mais cansados. Que dormem pior. Que não lhes apetece sair. Que a comida já não sabe ao mesmo. Que têm menos força. Que se esquecem mais. Que os dias são todos parecidos. Às vezes, o sofrimento chega à consulta disfarçado de sintoma vago. E nem sempre o sistema tem tempo, disponibilidade ou sensibilidade para ler o que está por trás. O que parecia ser apenas cansaço pode ser desânimo. O que parecia falta de apetite pode ser vazio. O que parecia desleixo pode ser desistência lenta.

Num país que envelhece, isto não devia ser uma nota de rodapé. Devia estar muito mais no centro da conversa. Falamos, e bem, de demência, de fragilidade, de dependência, de polimedicação, de listas de espera, de cuidados continuados. Mas falamos menos sobre a erosão silenciosa da vida relacional. Menos da velhice passada entre quatro paredes. Menos da perda de lugar social. Menos do efeito cumulativo de dias inteiros sem conversa verdadeira, sem toque, sem convite, sem escuta. Como se isso fosse triste, sim, mas secundário. Não é.

Há uma tendência perigosa de naturalizar a solidão no envelhecimento. Como se fosse expectável. Como se, a partir de certa idade, a vida tivesse inevitavelmente de se tornar mais estreita, mais silenciosa, mais ausente. Essa normalização é profundamente injusta. Porque envelhecer não devia significar desaparecer aos poucos do campo de atenção dos outros. Não devia significar tornar-se um corpo clinicamente seguido, mas socialmente esquecido.

A saúde, quando pensada a sério, é mais do que o controlo de doenças. É também vínculo, participação, reconhecimento, continuidade humana. Um idoso que tem com quem falar, a quem telefonar, com quem almoçar, a quem fazer falta, não tem apenas mais companhia. Tem mais proteção. Mais estrutura. Mais motivo para se cuidar. Mais razão para sair da cama e continuar a ocupar espaço no mundo. Às vezes, é nesse plano invisível que começa a diferença entre aguentar e viver.

Talvez, por isso, a resposta não possa ficar toda do lado da medicina, embora a medicina tenha a obrigação de ver melhor este problema. A resposta começa nas famílias, mas não acaba nelas. Passa pelos vizinhos, pelas juntas, pelas autarquias, pelas associações locais, pelos centros de saúde, pelas igrejas, pelas farmácias, pelos transportes, pelos espaços públicos, pelas redes informais que ainda vão resistindo apesar de tudo. Passa, no fundo, por decidir se queremos ser uma sociedade que prolonga a vida apenas em anos ou também em presença, dignidade e pertença.

A solidão não tem cor num relatório laboratorial. Não sobe nem desce numa folha de resultados. Mas adoece. E talvez uma sociedade se revele menos pela sofisticação dos exames que consegue fazer e mais pela capacidade de não deixar ninguém envelhecer como se já tivesse saído, em silêncio, do lado de dentro da vida.

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Três mortes que nos enlutam

31 May 2026 at 18:04

No curto espaço de uns dias três falecimentos de quem serviu Faro e o Algarve de uma forma exemplar, dedicada e inestimável, vieram estremecer o nosso íntimo.

Às suas sempre lembradas memórias prestamos o mais vivo dos sentimentos de gratidão por tudo o que deram em suas honradas vidas pela comunidade em que estamos insertos.

Na sua Alcoutim faleceu o histórico dirigente do PCP (Partido Comunista Português), Carlos Brito, que desde bem novo fez parte desta formação partidária, dando-lhe, enquanto seu militante e dirigente (sairia por acordo consigo mesmo) toda a inteligência, vocação e trabalho, de que era inegável possuidor. Bem cedo foi eleito para a Assembleia Constituinte, pois era a quando do 25 de Abril de 1974 e, claro na clandestinidade seu delegado em Portuga. Após o funeral da Igreja da Misericórdia, em Alcoutim, onde os restos mortais de Carlos Brito estiveram em constante vilegiatura vieram as mesmas para o Crematório de Faro, como que num adeus à capitalidade sulina, cidade que muito amava.

Depois foi a morte de José Costa, o recém eleito presidente para segundo mandato de uma das mais históricas agremiações farenses, o Clube de Futebol «Os Bonjoanenses», com um notável contributo para a cultura, o desporto amador e o recreio de Faro. Filial dos azuis de Lisboa, o C. F. Os Belenenses, sediado no popular Bairro do Bom João o saudoso José Costa era, há várias década, dirigente de «Os Bonjoanenses», a que imprimiu um inusitado dinamismo e incremento.

«Morreu o homem». Parafraseando o que foi dito a quando da morte de El-Rei D. João II, o Príncipe Perfeito, pudemos usá-lo a propósito do adeus do Dr. José Vitorino, destacada figura da vida pública e política do Algarve e do País. Natural da Conceição de Faro, onde residia, e por motivo de progressiva doença, se afastara de qualquer actividade, o saudoso amigo, com quem tivemos muitas discordâncias, que nunca afectaram a nossa amizade, fez o ensino liceal em Faro, após o que alcançou o título de Engenheiro Técnico Agrário (Escola de Évora) e licenciou-se em Ciências Económicas e Financeiras, vindo a exercer funções em Lisboa (Seguros) e no Algarve (António Neves Pires). Foi um dos fundadores do PPD (Partido Popular Democrático), depois PSD (Partido Social – Democrata), o que valeu o «apedrejamento» com o saudoso Dr. Cristóvão Norte num comício realizado no Salão Luís Parque, a que se seguiu a destruição da sede na Rua Lethes, daquela formação partidária. Foi sucessivamente eleito deputado, função interrompida pelo desempenho do cargo de Governador Civil e de Presidente da Câmara Municipal de Faro, entidade que o distinguiu com a «Medalha de Mérito – Grau Ouro». Criou diversas associações, entre as quais a CEAL e a ALGFUTURO. Uma lembrança que nunca se esquece, um dos mais ilustres farenses e algarvios, cuja memória perdurará pelos tempos fora, a o do amigo, porque verdadeiramente o era, o hoje sempre recordado dr. José Vitorino.

Conto

31 May 2026 at 16:06

Na tarde de quarta-feira, dia vinte e quatro de novembro de dois mil e dez, o outono mostrava-se generoso ao ensolarar sem máculas o céu de Baía dos Lobos. No pátio do prédio, balões multicolores enchidos a hélio, a Dora Exploradora de sorriso desenhado na toalha, nos copos e nos guardanapos, doces, brigadeiros e salgadinhos feitos com capricho por Guete e Lucinha durante toda a manhã, refrigerantes, pinhatas suspensas e confetes tentavam ludibriar a dura realidade dos dias comuns.

Os olhinhos brilhantes de Luana postos no imaginário do número cinco insuflado esvoaçando sobre si, aqueciam o peito da mãe a ponto de lhe derreter o coração de cera. Um cinco dourado que balançava ao ritmo leve da brisa, preso à mesa do bolo por um fio de nylon que fingia não estar lá – um cinco dourado que, por instantes de transe involuntário, transportou Lúcia até mil novecentos e oitenta e nove, revisitando-se nas ruas de Dançolândia com a idade que a filha agora completava, de mãozinhas presas à pipa pelos mesmos fios invisíveis com que naquele preciso momento amarrava os balões da festa. O amor despertado por Luana era a máscara de oxigénio que lhe permitia sobreviver ao vácuo de afinidades a que fora submetida ao longo da vida, pela ausência do pai que nunca existiu e da mãe que lhe falecera no auge da infância.

Benzeu-se como prova de gratidão ao destino – por ser mãe – e regressou a si para receber os amigos recém-chegados.

A pequena Beatriz vinha alegre pela mão de Verónica, colega de Lúcia e Guete na Hamburgueria, e redobrou o contentamento ao ver a aniversariante. Juntas correram pelo pátio exibindo coreografias de piruetas meticulosamente ensaiadas, ostentando a cumplicidade que as tornava inseparáveis.

O pátio foi ocupado pelos parcos colegas da hamburgueria que tinham conseguido folga nessa tarde e alguns amigos da igreja de domingo – parte deles com filhos de idades próximas à da pequena Luana.

A possibilidade de fugir ao real e habitar a fantasia, ocupar o lugar de princesa num reino protegido de todos os males, deixava-a tão feliz. Tomara um sorriso assim permanecesse cativo em todos os rostos da infância, repelindo em definitivo os crimes contra ela cometidos. Tomara se privilegiasse essa ternura como regra desprovida de exceções.

Umas crianças jogavam à bola, outras rebentavam pinhatas, outras ainda improvisavam no Karaoke ou desapareciam e apareciam no esconde-esconde quando se ouviu o cantar estridente dos pneus do carro de Miguel.

Luana, ao reconhecer aquele som, trepou instintivamente para o colo de Lúcia, enquanto meninos e meninas corriam assustados para abraçar as pernas dos pais e das mães, na intenção de se protegerem da atrocidade que lhes boicotava a brincadeira.

Com que então, Gritava a ponto lhe saltarem as veias pelo pescoço, A minha filha faz anos e ninguém me convida para a festa, não me digas que a cerveja não chega para todos, Lúcia.

Miguel, você sabe muito bem que esse final de semana a menina estará com você e vocês terão oportunidade de comemorar também, vai embora, estou te pedindo, por favor, não estrague mais um dia da vida da sua filha, ela não merece, vai embora daqui, Miguel.

Indiferente, virou-se para Luana e continuou, Este fim de semana o pai vai-te preparar a melhor surpresa da tua vida, porque tu sabes bem que o pai te ama e a mãe não presta, não sabes, minha filha, o pai vem-te buscar no sábado e vamos à Disney, queres ir à Disney com o papá, queres.

Guete, que já assistira de perto a violências anteriores de Miguel, não conteve a fúria, pegou no banco de cantos pontiagudos à sua frente e lançou-o contra a cabeça dele, fazendo-o recuar perante a evidência do perigo.

Incapaz de pensar nas consequências do impulso, depois de lhe furar a testa com a quina enferrujada, ainda o seguiu até ao carro, Vai embora, seu ogro, seu sem vergonha, seu nojento de merda, você não é homem não é nada, seu demónio, covarde que só sabe crescer em cima de criança, some daqui ou eu te mato na frente de todo o mundo, eu vou para o xilindró mas te garanto que você não machuca mais esta menina.

Tremendo-se por inteiro – suado, sangrado e de pupilas dilatadas -, já refundido dentro do carro, disse por fim, Prepara-te que é hoje que a polícia te bate à porta, ou te afastas da minha filha ou tens os dias contados pelos dedos de uma mão.

E arrancou, deixando para trás um rasto de terror, desproteção e injustiça, que se enraízaria irreversivelmente no mundo interior daquela criança. Uma ferida incicatrizável e para sempre exposta na epiderme dos seus afetos.

(próximo capítulo: edição 11 de junho)

Depois do silêncio

31 May 2026 at 14:04

Há quarenta anos, talvez um pouco mais, aquela avenida era ainda uma estrada de terra batida. O pó levantava-se devagar atrás dos carros raros, as vozes quase que se conheciam pelo nome e o silêncio não era ausência: era paisagem. Havia ruído, claro, mas um ruído humano, proporcional às horas e às necessidades. O mundo ainda não tinha aprendido a temer o vazio, ou a tomar consciência da presença deste.

Muitos anos depois veio a pandemia. E com ela, um silêncio estranho, quase clínico, assustado. As cidades ficaram suspensas e à deriva. Pela primeira vez em décadas, muita gente ouviu o som da própria respiração dentro de casa. Houve quem descobrisse o desconforto de estar consigo mesmo.

Outros encontraram nele uma espécie de revelação. Mas o silêncio, quando se prolonga, torna-se também um espelho, e nem todos suportam olhar demasiado tempo para dentro.

Talvez por isso o tempo atual da pós-pandemia tenha regressado com esta violência sonora. Como se a sociedade inteira tivesse decidido compensar o silêncio imposto, a falta de movimentos e o tempo perdido através do excesso. A avenida, outrora espaçosa até no silêncio, transformou-se numa montra permanente de presença. E de presença ruidosa que também se faz ver. Não pode haver pausa. Não pode haver quietude. O silêncio passou a ser confundido com abandono, fracasso ou invisibilidade.

As motos são talvez o símbolo mais evidente desta nova condição. Muitas surgem já alteradas de propósito, preparadas para romper o ar como uma declaração de existência. Não basta passar: é preciso ser ouvido. Há ali qualquer coisa de profundamente social e psicológica. Muitos dos que agora aceleram avenida acima talvez tenham passado décadas sem grande reconhecimento, sem estatuto, sem palco. O ruído oferece-lhes identidade instantânea. Durante alguns segundos, todos olham. Todos sabem que estão ali.

E qualquer crítica ao excesso sonoro é passível de ser recebida não como um pedido de convivência, mas como ataque pessoal. Porque, no fundo, não se está apenas a questionar uma mota; está-se a questionar uma afirmação de existência. Num tempo em que tantos vivem emocionalmente precarizados, qualquer tentativa de limite é interpretada como humilhação ou ameaça – a lembrar os limites da época pandémica? Daí as retaliações subtis, os ressentimentos silenciosos, as pequenas agressividades do quotidiano.

Ao mesmo tempo, regressaram as marcas ostensivas, os símbolos rápidos de prosperidade, as aparências de riqueza. Também elas fazem barulho, ainda que sem som. O consumo tornou-se linguagem emocional. Usa-se o objeto para produzir impacto, como se cada pessoa carregasse uma necessidade urgente de provar que venceu alguma coisa – mesmo que nem saiba exatamente o quê. O ruído já não é apenas acústico; é visual, social, performativo.

E voltaram também as filas. Curiosamente, as filas dos anos 80 regressam agora não por escassez material, mas por excesso de circulação humana? Filas para consumir, para fotografar, para participar, para não ficar de fora. A experiência contemporânea parece marcada por um medo profundo de desaparecer do movimento coletivo.

As obras espalhadas pelas cidades ocidentais encaixam perfeitamente neste quadro. Constroem-se prédios, remodelam-se espaços, perfuram-se ruas, como se a civilização tivesse horror à imobilidade. O martelo pneumático tornou-se banda sonora permanente. Tal como a música imposta em cafés, lojas, ginásios, esplanadas e elevadores. Hoje, quase nenhum espaço público aceita o silêncio como possibilidade legítima. O som ambiente tornou-se uma anestesia coletiva.

E depois há a velocidade. A fala acelerada, quase em verborreia. As opiniões prontas. A necessidade de responder imediatamente a tudo. Todos parecem especialistas instantâneos de todas as matérias.

Como se parar para pensar fosse já um sinal de fraqueza intelectual. A pausa, importante momento de ponderação, desapareceu do raciocínio e da conversa.

Talvez porque a pandemia tenha mostrado algo insuportável para o nosso tempo: que, quando tudo abranda, emerge aquilo que fomos adiando sentir, pensar, ver. E assim, parece que o corpo social reagiu como um sistema nervoso hiperativado. Um enorme organismo coletivo incapaz de regressar à quietude sem ansiedade.

No fundo, esta avenida já não é apenas uma avenida. É um retrato do nosso tempo: uma civilização exausta do silêncio, aterrorizada pela introspeção e viciada em estímulos constantes para não ter de escutar o que permanece por resolver dentro de si.

Três breves questões

31 May 2026 at 12:03

A sério, que tive que puxar pela cabeça para me lembrar o que fazia recordar a publicidade da FNAC, em que uma Alexandra Lencastre (percebi de quem se tratava, só à terceira visualização) lembrava que era tarde e o melhor seria não mandar mensagens no telemóvel, mas meter na cama Fernando Pessoa (o princípio será, um escritor de cada vez) obviamente em livro, parodia ao “Na cama com…” (anos noventa na SIC, vinte e sete episódios), como reparei depois. Não sei qual foi a ideia de dar a tudo aquilo um ar decadente, mas se não era para parecer, falharam em toda a linha. A publicidade parece-me muito desajustada, mas talvez fosse o que procuravam. Penso, no entanto, que falhar em toda a linha, pode funcionar ao contrário, na lógica do quanto pior, melhor.

Os observatórios de tudo e mais alguma coisa descobriram que, em Portugal, uma em cada sete crianças pobres passa fome. E eu que pensava que existiam famílias pobres e não crianças pobres, ou também existirão famílias ricas em que as crianças são pobres e ainda (o que tem que ser tem muita força), famílias pobres em que as crianças são ricas? Esta ideia de separar as crianças das famílias (para no fundo dar os mesmos resultados), terá sido ideia de quem? Provavelmente daqueles institutos que ganham à peça. Ou, falando em crianças pobres a malta toma mais atenção? Não sei, mas a menos que me elucidem não vejo a relevância das conclusões do estudo.

Lateralmente, só porque o li numa entrevista num jornal nacional, outros problemas e outros dados, vindos de outro observatório ou instituto, tudo muito psicológico e sociológico, que passaram na televisão, mas também na imprensa escrita: a questão do assédio no trabalho. Os números que avançaram eram poderosos, tudo em desfavor dos nossos patrões e de muitas das chefias intermédias, dentro da empresa. Para uma das autoras, entrevistada no “Público”, a questão do assédio era grave, mas já existia há muito tempo, só os assediados não tinham percebido. Eu compreendo o ponto de vista; esse tipo de relação de trabalho em que uns pressionam os outros de uma forma pouco lícita só agora parece ser nomeada. Mas penso haver aqui um pouco de política a mais.

Os tempos mudam e a natureza das coisas também. Não se pode comparar épocas sem perceber que eramos muito diferentes há sessenta anos. Talvez se pudesse pensar que uma criatura que não entende estar a ser assediada é porque, provavelmente não o está a ser, porque esse será, talvez o cerne do problema, Além de que não se pode ler uma sociedade de há setenta anos segundo os princípios de agora. Mas isso sou eu a assediar os meus quatro leitores.

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