Tinha como Manuel Miguel o seu nome oficial, como pude constatar, vezes múltiplas através da leitura de documentos oficiais – Certidão de nascimento, bilhete de identificação, etc. emitidos pelos serviços próprios. Nasceu em Loulé, sendo arreigadamente bairrista, deslocando-se várias vezes à sua terra natal, em algumas das quais o acompanhei – Batalha de Flores, Mãe Soberana e outras festividades louletanas e sendo um dedicado fã da Banda Artistas de Minerva, que ora completa os 150 anos de existência, assinalada efeméride que justifica as nossas mais efusivas felicitações. Nunca soubemos das razões que trouxeram este arreigado louletano até Faro, nem das motivações da alcunha «Papo Seco», porque era conhecido cidade em fora.
Seria pela forma clássica como sempre se apresentava? Ainda o vi a usar «polainites»…
Durante longas décadas fomos vizinhos e amigos. O sr. «Manuel Papo Seco» morou sempre no nº15 da Rua Infante D. Henrique e eu nos n.ºs 13 e 11 daquela artéria também conhecida por Rua Direita ou Rua da Carreira. Éramos «fronteiriços» do Grande Hotel, imponente imóvel construído ainda no século XVIII, a quando da «Era dos Cumanos» para unidade de saúde (tratamento da sífilis) e vindo posteriormente a ser unidade hoteleira de luxo (nela se instalou o malogrado presidente Sidónio Pais – «o presidente rei» e foi também centro de alojamento liceal. Nos tempos a que este escrito remonta (anos 40, 50 e 60 do século passado era o «Grande Hotel», hoje uma residência de apartamentos de luxo e que ocupa uma vasta área nas Ruas Infante D. Henrique, Dr. Teófilo Braga e da Viola, de armazéns de mercearia e frutos secos, bem como a sede dos Serviços de Abono de Família (hoje Segurança Social) e residência de ilustres famílias farenses – os Inglês O Ramos, os Tavares Belo (com destaque para o Maestro) e os Matos Parreiras (cujo líder além de Chefe da Delegação Aduaneira era um dos mais influente líderes do então partido único, a União Nacional. O vizinho e amigo Manuel Papo Seco era uma espécie de mordomo do Grande Hotel, ocupando um pequeno espaço com oficina de sapateiro. Era casado com a «vizinha Joana», benévola senhora que exercia o mister de «pespontadeira», uma actividade com reduzida ou quase nula expressão na cidade. Como não tiveram filhos adoptaram uma menina, a «Manelinha», que quando chegou a idade devida casou e foi morar para a Grande Lisboa, onde hoje, avó embevecida vive. Um trio de bons vizinhos, grandes amigos e gente que marcou a Faro dos tempos idos…
Mesmo quem não é católico praticante, mas se interessa pelos problemas sociais e políticos dos tempos em que se vive, facilmente toma conhecimento da sábia consciência com que a Igreja Católica, velha de muitos séculos, lida com as gerações em cada época.
E se deu azo a períodos de grande asfixia das populações, isso ocorre sempre que os padres, seja de que religião for, acedem ao Poder.
Fora desses períodos, a figura dos Papas escolhidos teve sempre a ver com a realidade de cada tempo.
No conturbado século XIX – nós achamos que este nosso século é especialmente conflituoso, mas também o século XIX o foi – ganhou relevância o Papa Leão XIII, quando publicou, em 1891, a sua Rerum Novarum. É forçoso ler aquele documento para quem quiser entender o que se passou daí em diante em termos politico-ideológicos.
Naquela Carta Aberta, Leão XIII condena, no mesmo grau, o marxismo-leninismo simplesmente chamado socialismo, uma utopia que, na prática, conduzia à perda da individualidade dos trabalhadores, e o capitalismo liberal, que, com a revolução industrial, era avassalador e, por outros meios, conduzia os trabalhadores a idêntica submissão.
Escreveu então: “recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria e especular com a inteligência são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas”; mas também: “…os socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida...”
Ninguém se convença que foi por acaso que, a seguir a um Papa como foi Francisco, a Igreja escolheu um outro Papa que retoma o nome de Leão – talvez as contradições e acções lesivas da dignidade humana e de uns povos contra outros exija este Papa.
E a encíclica Magnifica Humanitas, que saiu no dia 15 de Maio, merece ser lida por quem se interessa pelos problemas que afectam o nosso mundo, o caos que campeia em muitas regiões assoladas pela guerra e a falta de consciência que a maioria dos governantes revela face aos problemas da biodiversidade ameaçada pelas alterações climáticas.
!35 anos após a Rerum Novarum, publicada quando se assumia que uma profunda mudança iria ocorrer no mundo com o comunismo e o liberalismo capitalista, uma nova e profunda transformação já iniciada deixa antever que vai afectar todos os povos do planeta de forma desigual.
“Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais evidente o quão rápida e profundamente a digitalização, a inteligência artificial e a robótica estão a transformar o nosso mundo” – diz-se na abertura da Enciclica.
Outrora, eram os Estados quem assumia a orientação da vida dos povos, agora, como denuncia Leão XIV, são actores privados, transnacionais, dotados de capacidades superiores às de muitos Governos, pelo mundo fora.
A ideia de um desenvolvimento sustentável pelo qual muitos de nós lutam e sem êxito, também é sinalizado nesta encíclica: “A ideia de um desenvolvimento humano integral, encontra hoje um decisivo critério de avaliação na ecologia integral…”.
Não se pode atribuir ao algoritmo e à IA a definição das nossas vidas, e o documento papal aborda de forma contundente para muitos poderes instituídos, questões como a democracia, a busca pela liberdade, o desemprego como mal muito grave, a dignificação do trabalho, e a guerra que impõe a obrigatoriedade de lutar pela paz.
É um documento não demasiado extenso que merece ser lido por todos, com a certeza de que certos energúmenos, como Putin ou Trump ou Netanyahu, para citar apenas alguns dos mais icónicos. Não vão gostar. E só isso já é uma consolação.
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No setembro passado, ao ingressar no Mestrado em História da Arte e Património, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, deparei-me com uma ausência que já me parecia evidente desde a licenciatura: a inexistência de um núcleo estudantil dedicado aos alunos de História da Arte. Faltava um espaço de representação e dinamização, capaz de aproximar estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento, mas também docentes, investigadores e profissionais da área. Depois de ouvir vários professores, que reconheceram a importância desta criação, decidi avançar, apesar do receio inicial de que a ideia pudesse ficar apenas no entusiasmo de uma pessoa.
Foi assim que nasceu o NEHAP (Núcleo de Estudantes de História da Arte e Património). Concebi o nome, os primeiros objetivos e a identidade do projeto, divulgando-o depois junto dos estudantes através dos grupos de turma e de um processo de entrevistas que permitiu reunir uma equipa motivada e diversa. Aquilo que começou como uma inquietação individual tornou-se uma construção coletiva, assente numa convicção simples: a universidade não se esgota nas aulas, nos exames ou nos trabalhos escritos; deve ser também um espaço de comunidade, debate, produção científica, contacto profissional e crescimento pessoal.
Agora, quando o primeiro ano da minha presidência se aproxima do fim, sinto a necessidade de deixar uma reflexão dirigida aos meus colegas do ensino superior: estas estruturas são vitais. Ao longo deste mandato, o NEHAP procurou demonstrar que um núcleo estudantil pode ter um impacto concreto na vida dos estudantes. Organizamos formações dedicadas à escrita científica e à produção investigativa, promovemos conversas com profissionais das respetivas áreas, criamos momentos de esclarecimento sobre percursos académicos e profissionais, e realizámos várias visitas de estudo, desde a Assembleia da República ao Museu de Arte Contemporânea.
Estas atividades não foram apenas eventos isolados. Foram oportunidades de contacto, descoberta e crescimento. Permitiram abrir portas a espaços que muitos estudantes talvez nunca tivessem pensado visitar, aproximaram os alunos de realidades profissionais diversas e criaram experiências de trabalho real, capazes de enriquecer o currículo, desenvolver competências e preparar melhor o futuro.
Foi também neste processo que compreendi uma das grandes lições do associativismo estudantil: um núcleo não serve apenas para organizar atividades. Serve para criar possibilidades. Pode ajudar um estudante a descobrir uma área que desconhecia, a ganhar confiança para participar, a contactar com profissionais, a construir currículo ou simplesmente a sentir que pertence a uma comunidade.
Os núcleos estudantis têm uma importância que, por vezes, é subestimada. No entanto, são estruturas capazes de influenciar percursos, aproximar pessoas, criar pontes entre estudantes e professores, e complementar aquilo que a instituição nem sempre consegue oferecer de forma imediata. Não substituem a universidade, mas tornam-na mais viva, mais participada e mais próxima dos seus estudantes.
Por isso, deixo um apelo: participem nos núcleos estudantis das vossas faculdades. E, se eles não existirem, criem-nos. Criem-nos em nome dos estudantes do vosso curso, da vossa área e da vossa comunidade académica. Porque, no fim, quando alguém se aproxima depois de uma atividade para agradecer, quando um estudante diz que aquele evento lhe abriu uma nova perspetiva, ou quando percebemos que uma iniciativa teve impacto real na vida de alguém, todo o trabalho invisível passa a fazer sentido.
No meu caso, são precisamente esses agradecimentos simples, mas profundamente significativos, que me fazem continuar. O associativismo estudantil exige tempo, responsabilidade, paciência e resiliência.
Mas também ensina algo que nenhuma unidade curricular consegue ensinar da mesma forma: que a universidade não é apenas um lugar onde se aprende. É também um lugar que podemos ajudar a construir.
…De seu nome completo Bruno Miguel Borges Fernandes, hoje com 31 anos, destro de pé preferencial, a atuar no Manchester United como médio centro e segundo avançado, desde que chegou em janeiro de 2020 por 55M€+ 25M€ em objetivos. A atuar com o número 8, sendo capitão de equipa há 3 épocas e com contrato até 30 de Junho de 2027, com opção por mais um ano.
Depois de ter sido considerado o jogador do ano na Premier League, estabeleceu novo recorde de passes para golo (assistências) numa só época na competição e nos 3068 minutos de utilização, em 35 jogos realizados. Foram 21 os últimos passes para golo, a ‘explicar’ a arte que lhe é tão característica e que lhe permitiu ultrapassar o recorde que estava na posse do francês Thierry Henry (Arsenal, época 2002/03) e do holandês Kevin de Bruyne (M.City, 2019/2020).
É realmente impressionante o trajeto deste formidável jogador, talvez que a justificar, de todo, a designação de se constituir num manual de ‘fazer, estar e ser’. Recordar que saíu de Portugal com 17 anos para Itália, sem saber falar italiano e sem qualquer rede a ampará-lo. Jogou no Novara, tinha 18 anos. Mais tarde, na Udinesse, onde aprendeu tática, marcação, sacrifício, começa a emergir como talento bruto, a justificar ser lapidado, na medida em que talento sem disciplina ‘só’ dará… promessa.
A atuar no Sporting – 2027/2020 -, começa a assumir a responsabilidade de marcar livres, penáltis, a ser capitão. Condição para juntar a arte e o exemplo de deixar de jogar só para si e passar a jogar mais para o coletivo.
Depois, a sua ‘casa’ atual, onde ao talento juntou (outra) mentalidade e (nova) presença, ‘explicando’ que excelência, significa ser consistente, aliada à atitude e ao impacto nos outros. De sublinhar que, enquanto miúdo e no Novara, marcou 4 golos, e agora, no firmamento do estrelato, enquanto capitão de uma equipa – sita em Old Trafford – já regista na sua conta pessoal 107 golos.
Far-se-á justiça, se e enquanto com: ”rosto, voz e coração”, considerarmos que Bruno Fernandes nunca terá sido ‘menino prodígio’, do jeito de Figo ou Ronaldo, foi-se construíndo jogo a jogo, época após época, a dar provas de que o ‘palco’, dos egocêntricos, não tem sido o seu ADN, antes ‘no terreno’ e com ‘chão’ e ‘voz’ autorizada de verdadeiro ídolo, porque ensina… sendo!
Mérito que se enaltece, a fornecer um extraordinário exemplo de como sabendo fazer, estar e ser se consegue sulcar os ‘mares’, nem sempre bonançosos, com o compromisso de uma ‘rota’, enquanto navegadores com bússola, que nos leve a ‘porto seguro’, porque: “Do talento à excelência”! Uma vez mais, as tais ‘coisas’ da ‘coisa desportiva’… e não só!
*Embaixador para a Ética no Desporto, uma vez, Embaixador para sempre
Sou suspeito, já que é – quase – sempre um assunto que me interessa, a nova série do canal História, “A Segunda Guerra Mundial com Tom Hanks”, com o grande planos da voz do actor, que acumula funções com a de co-produtor, e que trata como já devem ter percebido da Segunda Guerra Mundial.
Dito isto, desta singela forma, assim como quem não quer a coisa, podemos perguntar: precisa, o Mundo, de mais uma série documental sobre a Segunda Guerra Mundial? Eu responderia que talvez não, tantas são as séries que já nos foram oferecidas olhando o conflito sobre variados ângulos, geralmente na perspectiva dos vencedores. Com imagens a preto e branco, coloridas a posteriori, entrevistas a personalidades, antigos militares, pessoas comuns (populares para a imprensa tuga), são horas e horas de opiniões e factos, sobre o maior conflito da história da humanidade. De todo o material que tenho visto, o grosso da coluna navega, de uma forma geral no mar dos factos que já são conhecidos, e uma vez por outra traz à lidação imagens ainda não editadas e, nalguns casos, uma por outra com mais sangue e violência, que é o resultado do pé ante pé, que procura tactear o que é aceitável passar-se para o grande público. “A Segunda Guerra Mundial com Tom Hanks”, não foge à regra, não embarcando em versões revisionistas da História. Tenho a ideia que, desde o contributo dos historiadores mais consagrados, tudo o que lá se vê, já se aceitava nos idos de setenta, oitenta. O que tem vindo de novo são mais pormenores que outra coisa, mesmo depois da abertura de muitos ficheiros do mundo de leste, depois da queda do muro. Sem dúvida que o trunfo aqui me parece a voz de Hanks, que faz a diferença, nas narrações. Nada que me lembre mais as versões dos filmes para a criançada em versão portuguesa – que me perdoe o sindicato dos actores de teatro e cinema português nada ultrapassa o original. O restante é muito linear, mas está bem defendido pelo tratamento das imagens (muitas delas já conhecidas) e pelas declarações dos estudiosos que me parecem inatacáveis, simples e sem grandes leituras políticas. Claro que, para quem está interessado em discussões e segundas intenções (qualidades como quaisquer outras), não precisa de esforçar a vista: não está no sítio certo.
O jornalismo tuga anda pela hora da morte: perguntas chatas a políticos só em meses bissextos e no dia trinta de Fevereiro. Passos Coelho, um dos políticos que joga todos os trunfos na cegueira que lhes relatei na linha anterior, farta-se de fazer de S. Sebastião (acompanhado por aquele que não ousamos dizer o nome), sempre a ditar frases obscuras que, de certeza o divertem, quando olha para as caras de parvo da malta que o acompanha, por amor ou interesse. Uma coisa é uma coisa, outras, outra, mas o denominador comum das suas declarações é: “quero chamara a atenção para as reformas que os políticos não querem fazer”. E nem um empecilho daqueles jornalistas lhe pergunta: “Ora diga-me lá, só para nos dar um exemplo, quais são essas reformas de que fala?”. Talvez que se os tugas soubessem, lhe deixassem de perguntar, que hão-de ser tão boas, que podia ser que nunca mais lhe olhassem para a cara.
Assinalado a 11 de junho, o Global Fatty Liver Day pretende sensibilizar a população para uma condição silenciosa, mas cada vez mais frequente: a doença hepática esteatótica.
A designação “Doença Hepática Esteatótica” engloba diferentes formas de doença hepática associadas à gordura acumulada no fígado. Entre elas, a doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica (MASLD), previamente conhecida como fígado gordo não alcoólico, que reflete melhor a forte ligação entre esta condição e alterações metabólicas como obesidade, diabetes tipo 2, síndroma metabólica e hipertensão arterial.
A MASLD é a doença hepática crónica mais comum no mundo. Estima-se que cerca de um em cada quatro adultos no mundo tenha algum grau de fígado gordo (esteatose), sendo que muitos desconhecem totalmente o problema. Em Portugal, tal como noutros países europeus, o aumento do sedentarismo, da obesidade, da diabetes e dos hábitos alimentares desequilibrados tem contribuído para o crescimento do número de casos.
Os fatores de risco mais comuns para MASLD incluem excesso de peso, obesidade abdominal, diabetes tipo 2, resistência à insulina, colesterol e triglicéridos elevados, hipertensão arterial e sedentarismo. A predisposição genética e alguns hábitos alimentares, como uma dieta rica em açúcares, gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados também contribuem para o desenvolvimento da doença.
Apesar de na maioria das vezes não provocar sintomas nas fases iniciais, esta doença pode evoluir para situações graves, como inflamação hepática, fibrose, cirrose e até cancro do fígado. O diagnóstico precoce, através de exames de imagem e análises específicas, bem como o acompanhamento médico, são fundamentais, sobretudo na presença de fatores de risco, permitindo intervir antes que os danos hepáticos se tornem irreversíveis.
A adoção de um estilo de vida saudável continua a ser a estratégia mais eficaz para travar a progressão da doença e, em muitos casos, reverter os danos iniciais. A perda de peso, a prática regular de exercício físico e uma alimentação equilibrada têm demonstrado benefícios significativos.
O Global Fatty Liver Day surge, assim, como uma oportunidade para reforçar a literacia em saúde e alertar para a importância do diagnóstico precoce. Apesar de frequentemente negligenciada, a Doença Hepática Esteatótica é hoje um importante problema de saúde pública, com impacto crescente a nível mundial.
Do meu grande sentido de desorientação já dei conta em diversas crónicas – é verdade que esta e outras características menos abonatórias, as pessoas normalmente escondem, disfarçam. Afinal, como constatei com as reacções a algumas dessas crónicas, não estou sozinha no reino dos desorientados.
Há muitos e muitas mais, discretos. Afinal, a desorientação é algo do foro privado e ninguém tem de a conhecer, excepto quando afecta terceiros. Mas adiante, pois não é esse o tema destas breves linhas.
Elas referem-se sobretudo à minha primeira ida ao Festival Literário Fólio, em Óbidos. Tinha visitado a vila apenas uma vez, quando, numa espécie de viagem de finalistas, terminado o 11.º ano, fiz com alguns colegas e professores, uma volta ao país, que durou uma semana e nos levou de São Brás de Alportel a Viana do Castelo, com acampamento em diversos parques de campismo do país. Da paragem em Óbidos, ficou-me uma enorme náusea e um banco onde me sentei, sem forças, enquanto todos os outros foram visitar a vila.
Desta vez, estreei-me também num alojamento local. Uma aventura de códigos, passwords, palavras mágicas que deviam abrir portais, uma espécie de abre-te sésamo, só que o sésamo nem sempre abria. Senti que era uma mistura de peddy paper com caça ao tesouro. Sim, o primeiro passo era descobrir a rua onde ficava o alojamento. Tinha arranjado o mapa no posto de turismo e pedi à jovem que me entregou o tal código que a localizasse no mapa. Só que ela insistia em QR codes, apps… Sou sincera, apps ainda vá. QR codes é algo que me faz alergia, desperta-me certos instintos desconhecidos, selvagens, “viscerais» -para usar uma palavra moderna, sonante, daquelas que aparecem em todo o lado, pois tudo é «visceral», até a alma, fazendo parecer que andamos com fígados, intestinos, presos ao pescoço. Essencialmente, porque para tudo é preciso o amaldiçoado QR code. Lá está o quadrado cheio de pontos manhosos, constantemente a rir-se de quem não nasceu na tal «era digital»… O facto é que o meu mapa em papel provocou na jovem o mesmo efeito que em mim os QR codes. Segundo ela, o mapa estava todo mal feito. Não batia nada certo. Tudo fora do sítio, desde a Câmara à farmácia. Imaginei um imenso «mapa esquivo» (título de um belíssimo livro de poesia de Fernanda Dias, escritora e pintora que viveu em Macau muitos anos, vive em Faro e que ainda poucos por aqui, infelizmente conhecem), com edifícios e monumentos em trânsito, a mudarem de lugar para ficarem mais perto ou longe uns dos outros e assim constarem no «retrato», ou melhor, no mapa. No fim, ficou cada uma na sua, ela com o seu precioso QR e eu com o mapa em papel, disposta a descobrir para onde tinham «abalado» os edifícios, nomeadamente aquele onde eu ficaria alojada. Das atribulações da aventura não vale a pena dar conta, mas foram vários códigos marcados em sítios inadequados, que não funcionaram. No entanto, não notei nada esquivo, o mapa pareceu-me bastante fiel. E o melhor: encontrei um belo e fixo ponto de referência. Sim, fixo, porque uma vez considerei como referência um pastor-alemão deitado, que quando me fez mais falta, decidiu dormir noutro sítio… Desta vez foi uma buganvília esplendorosa, a derramar cor sobre um muro caiado.
Orientou-me os passos e os regressos após as sessões. Ao ver as suas flores acenarem-me, desejei que ali permanecesse sempre, a deleitar, a apontar caminhos (a gente orientada, desorientada, humana…), que nunca nenhum malfadado código lhe ofuscasse a beleza, a poesia, a vida.
Mais do que a recuperação de um edifício, a reabilitação das ruínas do Castelo de Alcantarilha representou uma oportunidade para devolver à vila um papel cultural ativo, ligando património, arte e participação pública.
O Castelo de Alcantarilha foi edificado durante o período de ocupação muçulmana com o objetivo principal de defesa das povoações costeiras.
A partir do século XVII, entrou numa fase de declínio e degradação estrutural. No século XX, teve múltiplas funções e ocupações, e, nos últimos 25 anos, esteve fechado, sem utilização pública ou privada.
Promovido e executado pelo executivo camarário de Silves, as ruínas do Castelo de Alcantarilha sofreram um processo de reabilitação profunda para se transformar no atual Centro de Exposições de Alcantarilha (CEA).
Foi inaugurado no dia 3 de setembro de 2023, pela então presidente da Câmara Municipal de Silves, Dra. Rosa Palma.
É um equipamento cultural de média dimensão, destinado à promoção e divulgação de arte contemporânea nas suas diferentes expressões e manifestações: pintura, escultura, fotografia, desenho, etc.
Alcantarilha é uma vila milenar que, após a Revolução do 25 de Abril e com as transformações económicas associadas ao crescimento do turismo, foi perdendo progressivamente a importância económica e o protagonismo cultural de outros tempos.
Hoje, tenta recuperar esse dinamismo humano, social, cultural e económico.
Várias associações culturais privadas laicas, como a Aldepa (Associação de Defesa do Património Cultural e Natural de Alcantarilha), e outras de cariz religioso, como a Irmandade do Nosso Senhor Jesus dos Passos de Alcantarilha, têm promovido, nos últimos anos, várias iniciativas e eventos que visam promover e divulgar Alcantarilha, com base no seu património e passado cultural, religioso, artístico, arqueológico e arquitetónico.
A inauguração e a atividade do CEA vêm integrar-se neste processo de renovação de Alcantarilha, assumindo a Câmara Municipal de Silves uma maior responsabilidade para dar à vila uma nova vida.
Coleção de Arte Contemporânea Privada Luís Negrão e Família
A Coleção de Arte Contemporânea Privada Luís Negrão e Família (CLNF) é uma coleção dedicada à arte contemporânea portuguesa, reunindo obras de arte de vários artistas de reconhecido percurso, que refletem diferentes tendências e movimentos artísticos e percorre várias décadas de criação artística.
A coleção tem sido apresentada ao público em vários espaços expositivos do país, particularmente em Alcantarilha, no Centro de Exposições de Alcantarilha.
A programação da sua atividade costuma explorar temas variados, promovendo o diálogo entre obras, estilos e contextos, o que enriquece a experiência do público e estimula a reflexão sobre a arte contemporânea.
À semelhança de outras coleções privadas de arte, a CLNF tem, na sua matriz de origem, o compromisso cívico e o dever ético de partilha pública da coleção.
Independente da posse, pública ou privada, as obras de arte fazem parte do património cultural de um povo e o usufruto e apreciação por todos deve ser estimulado e apoiado.
A CLNF apresentou, no ano de 2023, e pela primeira vez, um conjunto de obras de arte em duas exposições distintas, no Centro de Arte e Espetáculos da Figueira da Foz e no Edifício Chiado de Coimbra.
Ainda no ano de 2023, a convite da Sra. Presidente da Câmara Municipal de Silves, Dra. Rosa Palma, organiza uma exposição de arte para a inauguração do CEA, no dia 3 de setembro, dia do município. Foi apresentada a exposição “Quebra-Costas”, com curadoria de Hugo Dinis. Recordando um espaço público célebre de Coimbra, o quebra-costas, a mostra reuniu 29 obras de arte, numa viagem visual eclética percorrendo várias décadas de arte contemporânea portuguesa.
A colaboração entre a CLNF e a Câmara Municipal de Silves desenvolveu-se nos anos seguintes.
Em 2024 e integrada nas comemorações municipais da celebração dos 50 anos da Revolução do 25 de Abril, apresentou a exposição “Eduardo Gageiro”, organizada por Hugo Dinis, e que reuniu um conjunto de 14 fotografias históricas sobre a Revolução do 25 de Abril, da autoria de Eduardo Gageiro.
Ainda em 2025, é apresentada a exposição “Homenagem”, com 16 obras do artista autodidata alcantarilhense Inácio José de Oliveira Mendonça, reforçando o sentimento da arte local e memória cultural.
Outras iniciativas baseadas estão programadas para os anos de 2026 e 2027, com a ambição de consolidar uma programação cultural regular e qualificada.
As coleções privadas de arte contemporânea desempenham hoje um papel cultural relevante e cada vez mais importante no país e têm colaborado ativamente com instituições culturais públicas (museus regionais, municipais e nacionais) e privadas (Fundação Gulbenkian e Fundação de Serralves, por ex.) para apresentar as obras de arte que têm sob a sua responsabilidade.
Estes três anos, 2023-2026, de colaboração entre a Câmara Municipal de Silves e a Coleção de Arte Contemporânea Privada Luís Negrão e Família, são um bom exemplo como entidades públicas e o colecionismo privado podem colaborar para a afirmação cultural de uma região, e neste caso, do concelho de Silves.
O Futuro
O Algarve, ainda enfrentando desafios comuns às regiões periféricas – como público reduzido e financiamento limitado -, tem apresentado, nos últimos anos, uma experiência cultural cada vez mais inovadora e diversificada, com múltiplas iniciativas que promovem diálogo, experimentação e produção artística.
Através de novos equipamentos culturais (como o CEA, por ex.), e programações culturais dinâmicas e atualizadas, o Algarve tem procurado ganhar o seu lugar no movimento cultural mais geral do país e da arte contemporânea em particular.
Mas, apesar do esforço das entidades públicas e privadas, e de movimentos culturais recentes e importantes, o Algarve ainda carece de instituições de grande escala, como museus ou centros de arte contemporânea com programação contínua e com acervo próprio (ou em situação de comodato).
O CEA tem vindo a afirmar-se como polo importante de difusão de arte contemporânea regional, promovendo exposições com programas educativos, e projetando num futuro próximo, residências artísticas e colaboração com artistas nacionais. O seu impacto e relevância baseia-se na diversificação da programação, no acesso aberto ao público com entrada livre (ampliando a circulação cultural), e promovendo artistas locais ou ligados à região, criando vínculos entre identidade cultural e práticas contemporâneas.
O futuro cultural do Algarve não se construirá apenas nos grandes centros urbanos, mas também em lugares como Alcantarilha, onde património, iniciativa pública, colecionismo privado e participação comunitária podem definir uma nova forma de centralidade.
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Depois das manifestações de 2023, onde exigiam a recuperação do tempo de serviço congelado, os professores e educadores voltam a ocupar as ruas. No passado dia 16 de maio fomos perto de 25 mil professores e educadores, que do Caís do Sodré aos Restauradores reivindicámos, entre outras coisas, uma justa negociação do Estatuto da Carreira Docente (ECD).
Esta negociação está a decorrer, apesar de já durar há nove meses, ainda vai nos primeiros pontos da discussão, mas há indícios de onde o governo e o ministério querem chegar.
Até agora o que se tem visto por parte do ministério é o não acolhimento das principais propostas da FENPROF, a falta de envio de documentos de apoio à negociação com a devida antecedência e a insistência em discutir variações de semântica que no fundo ocultam a diferença entre, por exemplo, o que é o concurso nacional de professores atualmente e um procedimento concursal ou o que é um corpo especial e uma carreira especial nos meandros da Administração Pública.
Os professores e educadores sabem bem que os jogos de palavras não lhes trazem estabilidade, respeito, condições dignas de trabalho e valorização salarial.
Nesta fase, o governo tem a oportunidade de, com a revisão do ECD, valorizar a carreira para atrair novos professores e resolver o grave problema de alunos sem aulas, no entanto faz exatamente o contrário, criando a ilusão de que está a resolver o problema.
No final da manifestação de dia 16, foram definidas linhas de orientação das próximas ações de luta e foi ainda aprovada uma moção, aqui os professores e educadores afirmaram com determinação a sua disponibilidade para defender a carreira e exigir a valorização da profissão e para defender a Escola Pública.
No dia 3 de junho tivemos a GREVE GERAL onde a maioria dos trabalhadores, mais uma vez, demonstrou a sua rejeição ao pacote laboral, que representa um retrocesso de direitos.
Os professores e educadores não saem à rua por capricho. Fazem-no porque sentem diariamente o desgaste de uma carreira marcada pela desvalorização, pela sobrecarga burocrática e pela falta de condições.
Quem diria que tanto séculos depois o seu pensamento voltaria a dar volta ao mundo.
A visita de Trump à China pode não ter consequências significativas imediatas mas, como o mundo já entendeu, serviu para finalmente acabar com o perigo para a humanidade do domínio de um único sistema e poder dono e senhor de tudo.
Claro que Trump em si é uma figura menor e triste de toda esta história. O capitalismo neo liberal conduziria a isto mais cedo ou mais tarde. A concentração do capital inexorável em meia dúzia de potentados, como não poucos previram, não impediu a competição pelos lucros como a I.A. demonstrou claramente.
Porém, ao contrário de outros que ainda acreditam num ressurgimento do neo-liberalismo anglo-saxónico em que uma ilusória liberdade serviu como bandeira para intoxicar o mundo a partir de Hollywood p.ex. como valor ocidental e em que as armas sempre serviram como sustentáculo, o capitalismo chinês tem um cariz ditatorial única e última etapa possível para o seu processo evolucionista. E, por outro lado, poder ganhar com os mesmos trunfos jogando melhor.
E assim, graças a uma simples frase de TUCIDIDES, o mundo mudou mais uma vez como sempre é imperioso que aconteça.
E hoje passamos a ter dois donos do mundo… e não um só!
Um passo histórico sem dúvida para quem ainda não percebeu!
“O Hospital de Faro recusou admitir nas Urgências uma grávida em trabalho de parto porque esta não tinha ligado antes para a linha SNS 24. O INEM que assistiu a grávida à porta da urgência, insistiu que a mulher fosse admitida mas o hospital ordenou o transporte para Portimão, a 70 quilómetros” noticia a Comunicação Social, escrita e televisiva, que acrescenta “A Unidade Local de Saúde do Algarve garante ter sido uma decisão acertada: a grávida era saudável, a gravidez de termo e acompanhada“ e também é noticiado que a Ministra da Saúde, quando questionada, respondeu que serão pedidas explicações ao Hospital.
O habitual sururu do costume como se o facto verificado seja alheio à metodologia que o Ministério instituiu.
Não dispensam estas notícias algumas reflexões, começando pela matéria exposta, passando pela sua congruência e a importância muito mais relevante da causa deste estado de coisas.
Quanto à matéria exposta não fica claro se a utente não é admitida por ter cometido “o pecado“ de não ter telefonado para a linha SNS 24, embora o seja na notícia afirmado, ou se por não haver mais do que um obstetra de serviço e em prevenção, como afirma a ULS, logo se o Bloco de Partos estaria funcional, e também a ULS explicitar condições clinicas constantes no processo clínico a que só teria tido acesso depois de a parturiente ser admitida, o que na mesma noticia é afirmado não ter acontecido.
Poder-se-á concluir de certeza, é ser um episódio que em primeiro lugar atinge uma mãe quase a dar à luz e em segundo lugar a regulamentação que origina estes equívocos.
Reflitamos no que seria determinado a uma gestante de termo que morasse na Rua Leão Penedo, a mesma do Hospital de Faro, e telefonasse para a linha Saúde 24 ou para o INEM. Se o Bloco de Partos, de Faro, estivesse encerrado, seria igualmente encaminhada para o Hospital de Portimão.
Nenhuma diferença na resposta do sistema organizado ao telefonar para o INEM á porta da urgência ou do outro lado da rua, salvo a componente emoção.
Daqui a a questão que não se pode perder de vista:
Serviços insuficientes para a população que lhes está consignada.
Se se pode e tender que a falta de recursos humanos disponíveis para assegurarem o funcionamento das maternidades necessárias (programadas pelos ratios populacionais abrangidos e não pelos recursos humanos disponíveis), possam obrigar a metodologias transitórias de regionalização da prestação ou o recurso a contactos telefónicos prévios, apesar de indesejados, já não se entenderá porque surge esta dificuldade especialmente na especialidade de Obstetrícia.
Pelo menos é a especialidade cuja falta de recursos tem determinado o encerramento pontual ou definitivo dos respetivos serviços de urgência, as maternidades.
Ratios excelentes de médicos obstetras e pediatras nas equipas médicas, mas desligados da realidade do País? Ausência de equipas funcionais e multidisciplinares? Não sabemos.
Será assim indispensável identificar o que leva a este estado de coisas até porque se no ano passado os privados conseguiram aumentar para 16.317 os partos realizados num acréscimo de mais de 8% em relação ao ano anterior, com certeza não tiveram falta de obstetras.
Dualidade de critérios quanto à exigência numérica de médicos nas equipas funcionais, no público e no privado? Também não sabemos.
Só sabemos ser indispensável identificar as causas profundas desta situação tão dificil da assistência materno-infantil, que irá muito para além das vindas a público com soluções só aparentes, maternidades regionais, telefonemas prévios, ou incentivos pecuniários ilegais(!).
Ilegais como explicitamente expressa o comunicado do Conselho de Ministros de 7 de Maio, que reza que um dos diplomas aprovados ”prevê a atribuição de um incentivo remuneratório progressivo para o trabalho prestado além dos limites legais anuais”
Reduzir a solução da carência de médicos obstetras, ou outros, exclusivamente à atribuição de incentivos pecuniários remunerando trabalho extraordinário além do considerado conveniente ao eficiente desempenho, não será o caminho para a normalização do SNS, pelo menos do SNS universal e tendencialmente gratuito ainda estabelecido, já que não foi qualquer outro eleitoralmente sufragado.
Urge serem encaradas soluções competentes que, na sua abrangência, realmente modifiquem este estado de coisas.
A geração dos millennials, aqueles que nasceram entre o principio dos anos 80 e a chegada aos anos 2000, encontra-se numa posição única e, muitas vezes, desafiadora. Eles são os intermediários entre dois mundos: o tradicional, marcado por valores e realidades pré-digitais, e o digital, onde a informação flui a uma velocidade vertiginosa. Este fenómeno, acrescido ao facto de ser a “geração sandwich” atual, carrega consigo uma série de responsabilidades e pressões que podem impactar profundamente o seu bem-estar psicológico.
Dupla Exposição: O Conflito de Gerações
Na Antropologia, o conceito de “transição cultural” é fundamental para entender como as sociedades evoluem e se adaptam. Os millennials são, de certa forma, os arautos desta transição, vivendo num espaço onde as expectativas dos pais em relação ao sucesso e à estabilidade financeira se confrontam com a realidade incerta do mundo digital. Enquanto os seus pais, maioritariamente da geração X ou Baby Boomers, valorizam a segurança no emprego e a vida familiar convencional, os millennials são frequentemente empurrados para o empreendedorismo, a flexibilidade e a inovação. Esta discrepância gera um dilema: como equilibrar as expectativas familiares com as novas oportunidades e desafios que a era digital proporciona?
ANNA KOSMIDER LEAL Antropóloga
A sobrecarga de informações é outra pressão significativa. Com acesso a um mundo de dados e opiniões a um clique de distância, os millennials enfrentam uma avalanche de perspectivas que podem ser confusas e contraditórias. Isso gera um estado de paralisia decisional, onde a dificuldade em escolher um caminho se torna um fardo emocional. A constante comparação com os outros, amplificada pelas redes sociais, pode levar a sentimentos de inadequação e ansiedade, criando um ciclo vicioso que afeta a saúde mental.
Sabedoria de Duas Realidades
Apesar dos desafios, a geração millennials também possui um rico capital cultural. Crescendo em dois mundos, eles desenvolvem uma perspetiva única que combina a sabedoria das tradições com a inovação da era digital. Esta habilidade de transitar entre diferentes realidades permite que os millennials sejam mais adaptáveis e resilientes, características valiosas num mundo em constante mudança. Eles aprendem a navegar em ambientes complexos, conciliando o que aprenderam com os seus pais, com as novas práticas e tecnologias que emergem.
Além disso, a experiência de ser a “geração sanduíche” pode também fortalecer laços familiares. Os millennials encontram-se, frequentemente, a cuidar não apenas dos seus filhos, mas também dos seus pais, criando uma dinâmica de apoio mútuo que pode ser enriquecedora. Este papel de mediador entre gerações pode fomentar um diálogo intergeracional que enriquece ambos os lados, promovendo uma compreensão mais profunda das necessidades e desafios de cada grupo.
Consequências Psicológicas e a Necessidade de Apoio
Entretanto, a pressão persistente pode levar a consequências psicológicas significativas. O burnout, a ansiedade e a depressão são problemas que afetam muitos millennials, resultantes da tensão constante entre as expectativas familiares e as realidades do mundo moderno. É crucial que haja uma maior compreensão e apoio, tanto a nível familiar como comunitário, para que esta geração possa encontrar um equilíbrio saudável.
Os millennials têm uma oportunidade única de moldar o futuro, aproveitando a riqueza das suas experiências. Ao aprenderem a integrar as lições do passado com as inovações do presente, podem construir um caminho que não só honra as tradições, mas também acolhe a mudança. A chave está em reconhecer que, mesmo sob pressão, a sabedoria de duas realidades pode ser uma força poderosa para a criação de um futuro mais inclusivo e sustentável.
Em última análise, os millennials devem ser vistos não apenas como a “geração sanduíche” e intermediaria do analógico para o digital, mas também como os arquitetos de uma nova era, onde a convergência de mundos pode gerar um inimaginável potencial.
O que há verdadeiramente singular nesta novela? Temos um adolescente à janela, o pensamento desliza à solta, atropelam-se desejos, a par de uma grande sensação de tédio, depois vemo-lo inserido no ambiente familiar, há uma atmosfera de tensão que percorre o país, a Alemanha fizera capitular a Polónia numa guerra-relâmpago, partilhara os despojos do país com a URSS, iria inevitavelmente virar-se para oeste, a França e a Grã-Bretanha tinham declarado guerra. A cabeça do adolescente gira em todas as direções, reflete sobre a guerra e a distribuição que a acompanha: “Tenho mil pensamentos. Talvez eu não seja normal. Imagine-se que havia um bombardeamento, que neste momento apareciam aviões alemães a sobrevoar a cidade. Uma bomba, nesta enfadonha rua de merda, seria mesmo fantástica. Prédios a arder, uma boa dúzia deles todos em renque. Imagine-se que esta rua estava em chamas, incluindo a nossa casa, que perdíamos tudo.”
E continua radical, a falar em abrigos subterâneos, em valas comuns, em profundação de cadáveres, que as bombas caiam por toda a parte. Assim se começa a desenhar uma potente água-forte, uma notável peça literária sobre a arrogância da juventude, o desejo de aventura, a perda da inocência, o chocante a assustador encontro com os bombardeamentos, a tal guerra chegara àquele país de bonomia e do gosto do bom viver, naquele exato momento ia mudar, por vezes de modo radical, a sociedade, a civilização e a cultura, mas nada se sabia ainda naquele início da invasão alemã. Cai, Bomba! por Gerrit Kouwenaar, Publicações Dom Quixote 2026.
Regressamos à novela quando Karel chega das compras que fizera a pedido da mãe, instala-se no quarto. O adolescente está dominado por pensamentos fulminantes, um tanto caóticos, sabe, entretanto, que os tios vêm jantar, chamam-se Robert e Lies, os pais chamam-se Cora e Philip, parece estarmos numa atmosfera de bonomia, o tio Robert só fala em felicidade, no fim do jantar o tio pede-lhe para ir no dia seguinte transmitir uma mensagem a alguém, o tio deu-lhe um papelinho enrolado e uma nota de dez florins.
Gerrit Kouwenaar (1923-2014). Foto DR
Karel sente que há problemas graves entre o pai e a mãe, um conflito que ele não entende, mas que o constrange. É neste ambiente que o irmão lhe vem anunciar que começou a guerra, o ataque alemão. Cá fora ainda tudo parece normal. Aquele rapaz de 17 anos questiona-se como vai ser a guerra, há pessoas que estão descansadas, acreditam que daqui a pouco vão aparecer os ingleses. O pai de Karel dá a saber que os alemães estão a cem quilómetros da cidade, há que contê-los; nas ruas, os automóveis continuam a circular como sempre, as lojas estão abertas, correm notícias que tanques e tropas motorizadas francesas e inglesas atravessaram a fronteira belga. Karel sai de casa e vai olhar a água da ponte, sempre com o seu espírito renitente e contraditório pensa que devia chover, que o tempo devia estar frio e sombrio. Nisto, dois aviões voavam por cima da cidade, Karel viu dois pontinhos a cair. Seguir-se-ão estrondos, casas esventradas, a guerra dava sinal de vida.
Então Karel foi cumprir o pedido do tio Robert, levou uma mensagem à amante dele, é recebido pela filha, acolhimento amistoso, elas perguntam-lhe se os ingleses já chegaram, ele não sabe, mas decerto hão de vir. Karel é confrontado com uma atmosfera de uma inquestionável normalidade, elas revelam serem judias, põem a hipótese de terem de fugir, ainda confiam com a chegada das tropas britânicas para suster as alemãs. A filha sentou-se ao piano e tocou uma melodia lenta e sincopada. A mãe não tem resposta para a carta do tio Robert.
No dia seguinte Karel sai de bicicleta, pedala a uma velocidade moderada pelas ruas sem automóveis, onde as pessoas passeavam em família, entediadas, aquele ataque alemão trouxera um contratempo nos lazeres habituais. Volta a bater à porta da casa onde estivera na véspera, a filha, de nome Ria, convida Karel a passear, pede-lhe um beijo, a serenidade continua a reinar naquela casa, mas a mãe comunica que vão apanhar o barco das quatro horas. Ria mostra-se apaixonada por ele. Karel parte confuso, é o despertar sensual.
O ambiente da cidade modificou-se, os cinemas estavam todos fechados. Nisto aparece o pai, vem assustado por nada saber do filho, regressam a casa. Chegou a hora da roda do destino inserir a tragédia, houve bombardeamento, morreu o tio Robert, a tia está hospitalizada, Karel vai visitá-la. Assalta-o uma grande vontade de partir. Lança-se à estrada, há áreas inundadas, faz parte do plano holandês de travar os alemães. Alguém informa Karel que a Holanda se rendeu e dá-lhe boleia na bicicleta. E dá-se um encontro com os alemães. Ria e a mãe tinham fugido, ele está transido por ter desejado que caíssem bombas, tem 17 anos, não sabe para onde ir, a vida parece ter perdido sentido, é este estado de espírito, com as lágrimas a rebentarem-lhe dos olhos que um dos soldados alemães lhe pergunta: “Meu caro, então o que é que aconteceu?”
No posfácio, o escritor Wiel Kusters comenta a novela de Kouwenaar, encontra características comuns entre Kouwenaar e Karel, apesar da guerra não ter sido completamente inesperada significou uma rutura total, toda aquela atmosfera que vemos antes da invasão alemã ficará completamente alterada, aquele jovem de 17 anos é submetido a um quadro afetivo com Ria que o desperta para uma vida sentimental que ele desconhecia. Houve base histórica para os acontecimentos que ele descreve na novela, em 11 de maio as bombas alemãs arrasaram catorze prédios num ponto de Amesterdão, um bombardeiro alemão que fora atingido por artilharia antiaérea continua a voar e largou mais duas bombas. Cai, Bomba! Contém reminescências nítidas deste episódio fatal. O que há de devastador nesta descrição de um destino impiedoso é vermos um adolescente a sentir que tomou o comboio da História e que nos conquistou o coração.
Saudemos uma obra-prima, veio tarde, mas ainda bem que veio.
O debate entre arrumadores de automóveis e sistemas de parquímetros não se limita a uma escolha entre conveniência e organização urbana.
Ele envolve também um ponto essencial que muitas vezes é ignorado, o enquadramento legal da atividade, a forma como o Estado define o uso do espaço público e as respostas que a sociedade encontra, formal ou informalmente, para lidar com as pressões da vida urbana.
Os arrumadores surgem frequentemente como uma solução informal para um problema real, a escassez de estacionamento e a crescente pressão sobre o espaço urbano.
Em muitos casos, esta atividade reflete igualmente fenómenos de exclusão social, precariedade económica e dificuldades de integração no mercado de trabalho formal.
Em troca de ajuda na orientação de viaturas, solicitam contribuições monetárias.
Para alguns condutores, esta prática é tolerada e até valorizada, para outros, representa uma presença incómoda, associada a um sentimento de pressão difícil de ignorar.
Do ponto de vista sociológico, a persistência deste fenómeno revela a coexistência de duas formas distintas de regulação do espaço urbano, uma formal, exercida pelo Estado e pelas autarquias, e outra informal, construída através de práticas sociais que se consolidam pela repetição e pela tolerância coletiva.
A existência de arrumadores não resulta apenas de uma necessidade de estacionamento, mas também das fragilidades sociais e económicas que levam determinados grupos a procurar formas alternativas de subsistência.
Do ponto de vista legal, contudo, a situação não é neutra.
Em Portugal, não existe uma lei que autorize a atividade de “arrumador” como profissão regulada.
Pelo contrário, o enquadramento jurídico resulta da aplicação de normas gerais.
Quando a atuação ultrapassa a simples ajuda voluntária e entra no domínio da intimidação ou da exigência implícita de pagamento, pode configurar coação (artigo 154.º do Código Penal), sobretudo se houver pressão psicológica ou condicionamento do estacionamento.
Além disso, em muitos casos, a atuação dos arrumadores entra em conflito com regulamentos municipais sobre ocupação do espaço público.
As câmaras municipais podem proibir ou restringir comportamentos que interfiram com a circulação, o estacionamento ou a utilização livre da via pública.
Nestas situações, a intervenção pode ser tratada como contraordenação, aplicada por polícia municipal, PSP ou GNR, dependendo da jurisdição.
Existe ainda uma dimensão frequentemente referida pelos automobilistas, a sensação de terem de pagar duas vezes pelo mesmo ato de estacionar.
Depois de efetuarem o pagamento obrigatório no parquímetro, muitos condutores sentem-se pressionados a entregar uma quantia adicional ao arrumador presente no local.
Embora essa contribuição seja, em teoria, voluntária, a realidade é que uma parte significativa dos cidadãos receia que a recusa possa originar conflitos, danos na viatura ou outras formas de retaliação.
Independentemente de tais receios corresponderem ou não a situações concretas, a sua existência produz um sentimento de insegurança que afeta a perceção de liberdade e tranquilidade no uso do espaço público.
Ou seja, ainda que não exista uma “lei dos arrumadores” no sentido clássico, existe um conjunto de instrumentos legais que permite às autoridades agir quando a atividade deixa de ser espontânea e passa a interferir com a liberdade dos condutores ou com a ordem urbana.
Em contraste, os parquímetros representam a formalização completa da gestão do estacionamento.
São um instrumento do Estado ou das autarquias para regular o uso de um bem escasso, o espaço público, através de regras claras, tarifas definidas e fiscalização institucional.
Ao contrário da informalidade dos arrumadores, o sistema de parquímetros baseia-se na transparência, previsibilidade e aplicação uniforme da regra.
Contudo, também aqui a realidade não é isenta de críticas.
Para muitos cidadãos, o estacionamento pago é visto como uma forma de exclusão económica dos centros urbanos.
Pequenos comerciantes argumentam que a cobrança afeta a dinâmica local.
Ainda assim, do ponto de vista jurídico, trata-se de um modelo legitimado pelo poder local, enquadrado em regulamentos municipais e políticas de ordenamento do território.
A comparação entre os dois sistemas revela uma tensão central das sociedades contemporâneas, de um lado, práticas informais que emergem das necessidades económicas e sociais de determinados grupos, mas que permanecem juridicamente frágeis, do outro, mecanismos formais, legalmente estruturados, que procuram garantir igualdade de tratamento e previsibilidade, embora nem sempre obtenham plena aceitação social.
O problema não é apenas de mobilidade ou de gestão do estacionamento.
É também uma questão de confiança nas instituições, de perceção de segurança e de legitimidade na utilização do espaço público.
Quando um cidadão cumpre a obrigação legal de pagar um parquímetro, espera que esse ato seja suficiente para exercer o seu direito de estacionar.
Sempre que surge a perceção de que existe um pagamento informal adicional ou um risco associado à sua recusa, instala-se uma tensão entre a autoridade formal do Estado e mecanismos paralelos de regulação do espaço urbano.
No fundo, a questão “arrumadores versus parquímetros” acaba por ser uma questão de Estado de direito.
A sociedade pode e deve procurar respostas para os problemas de exclusão social que estão na origem de muitos fenómenos de informalidade.
Contudo, a gestão do espaço público não pode assentar na ambiguidade nem na dependência de regras implícitas.
Num Estado de direito, os cidadãos devem saber quem regula o espaço urbano, com que regras e sob que garantias.
A verdadeira discussão não é, por isso, entre arrumadores e parquímetros.
É entre a prevalência de mecanismos informais assentes na tolerância e na pressão social, e a afirmação de um modelo de organização urbana baseado na legalidade, na transparência e na igualdade de direitos.
Quando o espaço público deixa de ser regulado exclusivamente pelas instituições legítimas, não está apenas em causa o estacionamento, está em causa a própria autoridade da lei e a confiança dos cidadãos no funcionamento do Estado.
Começo por desejar a todos vós, estimados/as leitores/as, um mês repleto de paz, saúde, luz e bênçãos divinas.
Que os nossos caminhos sejam eles sempre iluminados pela Fé, pela Esperança e pelo Amor, mesmo diante dos maiores desafios da vida.
Cada novo mês, assim como cada novo dia representa um novo ciclo, uma nova oportunidade de crescimento e evolução espiritual, transformação interior e renovação da alma.
JOÃO CORREIA Médium, tarólogo, orientador mediúnico, popularmente conhecido pelo “Santo do Algarve”
Cada novo mês, assim como cada novo dia representa um novo ciclo, uma nova oportunidade de crescimento e evolução espiritual, transformação interior e renovação da alma
Assim como as estações mudam e o tempo segue o seu curso, como as marés sobem e descem, assim como o Sol e a Lua nos brindam com a sua energia todos os dias, também os astros desenham para cada mês mensagens diferentes, energias próprias e sinais importantes para a nossa caminhada terrena/espiritual.
Nada acontece por acaso.
Os movimentos do Universo, os signos, os números e as vibrações espirituais ajudam-nos a compreender melhor os caminhos da vida, as emoções do espírito e os desafios que Deus Pai coloca diante de nós para a evolução do nosso espírito.
Há meses de colheita, meses de aprendizagem, meses de silêncio e meses de renascimento. E é precisamente através dessa dança invisível dos Céus que poderemos encontrar respostas, orientação e esperança.
Este mês de junho é regido pelo número 6, o número 6 tem por simbologia espiritual a Responsabilidade e a Justiça.
Neste mês de junho, os 3 signos que apresentam maior sucesso para os seus nativos, segundo o meu método, são:
Em 1.º lugar: Escorpião
Escorpião é o signo do zodíaco que apresenta maior sucesso para o mês de Junho, tendo sobre si as duas cartas com maior força do tarot, o Às de Ouros e o Às de Copas, representando estas cartas a Alergia, a Riqueza e o Sucesso, assim tem estes Nativos sobre si todos os caminhos abertos, tanto a nível financeiro como no plano sentimental, poderá sem dúvida ser um mês de êxitos extraordinários para estes nativos de Escorpião.
Em 2.º lugar: Caranguejo
Caranguejo bastante privilegiado neste mês de Junho, tendo sobre si a carta do Progresso em todas as áreas da vida, acompanhando ainda estes nativos as cartas que representam o Crescimento e a Benção na área financeira, no plano sentimental a Carta que representa a Recompensa, podendo esta “Recompensa” representar a porta ao Amor que se abre em vossas vidas, em suma é um mês de progressos em todas as áreas da vossa existência.
Em 3.º lugar: Gémeos
É o terceiro signo do zodíaco que apresenta maior sucesso, tendo no seu caminho as seguintes cartas: o Contrato e o Laço no plano financeiro e a carta que representa a Vitória no plano sentimental, o que a conjugação de tais cartas faz com que estes Nativos possam vir a ter um mês de recomeços com Vitórias em todas as áreas da Vida.
Um Santo e Abençoado mês de junho são os meus votos, desejando que todos os nossos pensamentos e ações sejam sempre pautados pela responsabilidade de escolhas justas e misericordiosas, pois é a vibração do Amor que nos faz evoluir.
À medida que as negociações sobre o próximo orçamento de sete anos da União Europeia continuam, estão a ser feitas escolhas importantes sobre como as prioridades sociais serão financiadas e governadas nos próximos anos.
Propostas para simplificar a arquitetura de financiamento da UE poderiam alterar significativamente a forma como a coesão e as políticas sociais são implementadas. Estas decisões irão moldar a forma como a Europa apoia as pessoas no mercado de trabalho, reduz a desigualdade e fortalece a confiança no projeto europeu.
As cidades sabem por longa experiência o que funciona. E também sabem o que está em risco.
Numa recente discussão Eurocities com representantes das instituições e administrações municipais da UE, uma mensagem ficou clara: qualquer reforma do financiamento da UE deve preservar a força, visibilidade e foco social do Fundo Social Europeu (FSE), e deve tratar as cidades como verdadeiras parceiras na conceção e entrega de soluções.
“O Fundo Social Europeu funciona porque as cidades estão diretamente envolvidas”, disse André Sobczak, Secretário-Geral da Eurocities. “Enfraquecer esse papel arriscaria minar o seu impacto.”
O Fundo Social Europeu promove resultados reais onde as pessoas vivem
Ao longo de décadas, o Fundo Social Europeu teve um impacto visível e duradouro em cidades por toda a Europa. Apoia as pessoas no mercado de trabalho, ajuda-as a adquirir novas competências e alcança os mais distantes das oportunidades.
Como sublinhou Gabriele Bischoff, Deputado do Parlamento Europeu, “O FSE tem um impacto visível nas cidades da UE, desde a inclusão no mercado de trabalho e desenvolvimento de competências, até aos projetos housingfirst, emprego juvenil e apoio a grupos vulneráveis.” Estes resultados são bem conhecidos localmente, mesmo que “a nível da UE, por vezes nos esqueçamos dos fundos sociais.”
As consequências de um financiamento social mais fraco são claras. Na Alemanha, cerca de um terço dos projetos atuais não existiriam sem o apoio do ESF. Em Espanha e Itália, esse número sobe para cerca de metade. Ao mesmo tempo, as desigualdades estão a aumentar e a escassez de mão-de-obra está a aumentar. “Queremos um verdadeiro ESF, com fundos reais para as pessoas”, disse Bischoff. “E não queremos grupos sociais a competir entre si.”
Esta evidência confirma o que as cidades experienciam todos os dias: o investimento social gera resultados concretos, e a sua ausência seria rapidamente sentida pelos residentes.
A simplificação tem de funcionar no terreno, não apenas no papel
As cidades acolhem, de forma geral, esforços para reduzir a complexidade e o encargo administrativo. A simplificação pode ajudar o financiamento a chegar às pessoas mais rapidamente e permitir que as autoridades locais e parceiros se concentrem nos resultados em vez dos procedimentos.
No entanto, muitos participantes alertaram que a simplificação não deve vir à custa da clareza, acessibilidade ou propósito social.
“A simplificação pode ser positiva se reduzir o peso administrativo e ajudar o financiamento a chegar mais rapidamente às pessoas”, disse Sobczak. “Mas políticas sociais eficazes dependem do envolvimento significativo das cidades no seu desenho e execução. Um orçamento dedicado ao Fundo Social Europeu e uma destinação clara para a inclusão social e a pobreza infantil são essenciais para garantir que o apoio chegue a quem mais precisa.”
Do lado da Comissão Europeia, Ruth Paserman, Diretora de Fundos: Programação e Implementação (DG EMPL), destacou os desafios do atual orçamento da UE, conhecido como Quadro Financeiro Plurianual (FMF). “Temos dificuldade em identificar as fronteiras entre fundos. Mesmo os administradores e beneficiários nem sempre sabem onde se candidatar”, explicou. A intenção por detrás da reforma é criar mais sinergias e flexibilidade, explicou, e trabalhar em diálogo com os Estados-membros.
As cidades concordam com a necessidade de coerência, mas também veem riscos. Como disse Michaela Kauer, chefe do Gabinete em Bruxelas da Cidade de Viena, “Simplificação, sim, mas para quem? Talvez seja mais simples para a Comissão ou para os Estados-membros, mas não necessariamente para as cidades.”
Quando os objetivos se tornam difusos e a designação é removida, as cidades receiam que as prioridades sociais possam tornar-se mais difíceis de defender. Hans Verdonk, Representante da UE na Cidade de Roterdão, destacou como o tamanho dos envelopes de financiamento nacional afeta diretamente a capacidade das cidades de responder às necessidades reais. “Os Países Baixos têm um envelope relativamente pequeno”, explicou o representante da cidade, “o que significa que temos de tomar decisões difíceis.”
Embora o foco nas metas seja compreendido, Roterdão alertou que “intervenções direcionadas podem muitas vezes resultar em percentagens, e não em responder às necessidades reais.” Prazos apertados de implementação complicam ainda mais a entrega a nível local, reduzindo o espaço para investimento social estratégico e de longo prazo.
A simplificação deve, em última análise, ser avaliada por um critério: ajuda as pessoas e os lugares a alcançar melhores resultados sociais?
A parceria não pode ser reduzida à consulta
Uma preocupação central levantada pelas cidades é a tendência crescente para a centralização através de planos nacionais de financiamento. Embora a flexibilidade para os Estados-membros tenha o seu lugar, as cidades alertaram que isso não deve vir à custa do envolvimento local.
“Do lado do Parlamento Europeu, sabemos que a centralização não é o ideal”, disse Gabriella Gerzsenyi, deputada no Parlamento Europeu. “As cidades sabem melhor o que é necessário localmente, e estão numa posição melhor para decidir.”
As cidades são onde as políticas sociais são implementadas. Compreendem os mercados de trabalho locais, as alterações demográficas e os desafios sociais. No entanto, vários participantes destacaram que a parceria é frequentemente tratada como um requisito formal em vez de um processo genuíno.
Marit Maij, deputada do Parlamento Europeu e relatora na Comissão do Emprego e Assuntos Sociais, foi clara, “O Parlamento Europeu considera que os Planos de Parceria Regional Nacional vão longe demais no que diz respeito à flexibilidade e centralização.” As cidades, sublinhou, “são onde as pessoas estão, onde as coisas acontecem nas ruas e onde a vida social é melhorada”.
Para as cidades, parceria deve significar um envolvimento significativo no desenho dos programas, não apenas na sua implementação. Sem isto, o financiamento corre o risco de ficar desalinhado com as realidades locais.
Os representantes da cidade sublinharam que não são apenas implementadores de decisões tomadas noutros locais, mas parceiros essenciais na definição de políticas sociais eficazes.Zagreb apelou à criação de um capítulo dedicado para as cidades nos programas de financiamento da UE, permitindo-lhes co-desenhar políticas que reflitam as realidades locais. Como sublinhou Luka Juroš, Ministro da Cidade para a Educação, Desporto e Juventude, “se a UE quer promover uma transição verde e digital ao mesmo tempo que responde à escassez de mão-de-obra e à mudança demográfica, as cidades precisam de ser co condutoras deste processo.”
Um Fundo Social Europeu dedicado continua a ser importante
Uma mensagem recorrente ao longo da discussão foi a necessidade de preservar um FSE forte e claramente definido, com um orçamento dedicado.
O FSE não é um fundo de infraestruturas. Aborda desafios sociais complexos que exigem continuidade, confiança e investimento a longo prazo. Como vários oradores sublinharam, apoia prioridades que vão ao cerne dos compromissos sociais da UE, incluindo o emprego juvenil, o bem-estar infantil, a inclusão social e o combate à falta de habitação.
“A UE não é apenas um mercado, mas uma comunidade”, disse Gerzsenyi. “Um Fundo Social Europeu forte é indispensável.”
Remover a atribuição de verbas especiais arrisca enfraquecer os objetivos sociais e aumentar a competição entre grupos vulneráveis. As cidades defenderam a restauração das salvaguardas para a inclusão social e a pobreza infantil, para garantir que os recursos chegam aos mais necessitados.
Miguel Fernández Díez-Picazo, adido para os assuntos sociais na Representação Permanente de Espanha junto à União Europeia, alertou que as reformas também poderão reduzir a visibilidade do FSE, o que, por sua vez, afeta a confiança pública. “As avaliações mostraram que o ESF oferece uma boa relação qualidade-preço”, afirmou. “É essencial para a implementação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais.”
Anne Andersson, Diretora-Geral do Escritório da UE da Região de Estocolmo, sublinhou o papel único do FSE no apoio à ação social local. “O FSE é o contributo mais importante para os projetos sociais”, afirmou a cidade.
Sublinhou que as autoridades locais devem estar envolvidas não só na implementação, mas também na definição do quadro regulatório. “As cidades são as primeiras a sentir a mudança social e os desafios sociais”, explicou Andersson, argumentando que a flexibilidade a longo prazo e a colaboração mais forte são essenciais à medida que os desafios se tornam mais complexos. “O setor social precisa de um estatuto específico”, acrescentou, alertando que, sem este reconhecimento, as prioridades sociais correm o risco de se diluir num quadro de financiamento mais generalizado.
Lições das cidades, o que acontece quando a parceria falha
Representantes da cidade partilharam exemplos concretos do que acontece quando os arranjos de governação falham.
Na Hungria, Budapeste relatou que não tinham sido lançadas chamadas do FSE há vários anos, com as autoridades nacionais a bloquearem pagamentos. “Isto resultou numa grande perda de fundos”, explicou Benedek Javor, Chefe da Representação de Budapeste junto da UE, “e mostra claramente os desafios que as cidades enfrentam sem salvaguardas adequadas.”
Em Espanha, apesar de um sistema altamente descentralizado, as cidades destacaram dificuldades na alocação de fundos e o risco de parcialidade política nos planos nacionais. Noutros locais, as cidades alertaram que os envelopes de financiamento mais pequenos exigem difíceis trade-offs, muitas vezes à custa do investimento social a longo prazo.
Por toda a Europa, a mensagem era a mesma: quando os sistemas se tornam excessivamente centralizados ou pouco claros, as cidades – e os seus habitantes – sentem primeiro o impacto.
O que as cidades estão a pedir no próximo orçamento da UE
As cidades não apelam ao status quo. Reconhecem a necessidade de modernizar o orçamento da UE e de melhorar a coordenação entre fundos. Mas a reforma deve basear-se no que já funciona.
Com base na experiência partilhada, as cidades apelam a:
Um Fundo Social Europeu forte e dedicado, com objetivos sociais claros
Parceria obrigatória e exequível com as cidades em todas as fases
Um papel formal das cidades na co-elaboração de políticas sociais
Flexibilidade a longo prazo que apoia a inovação sem diluir o propósito
Salvaguardas claras para proteger o investimento social e os grupos vulneráveis
Como sublinhou Christophe Lafoux, Diretor de Inclusão e Emprego na Lyon Metropole, a proximidade é uma garantia de eficiência. O acesso direto ao financiamento permite às cidades inovar, responder rapidamente e proporcionar melhores resultados para as pessoas.
O próximo orçamento da UE é uma oportunidade para reforçar a dimensão social da União. Confiar nas cidades como parceiras e dar-lhes as ferramentas para concretizar será essencial para tornar essa ambição realidade.
Edição e adaptação de João Palmeiro com Lucía Garrido Eurocities.
Assim rezou o palestrante. Para o magnífico Dr. A., esse decreto com que coabitava todos os dias, como se fosse cão, gato ou filho, era muito lá de casa. Poucas vezes ouvimos alguém confessar estes afectos subterrâneos. São verberadas pelo catecismo e pelos amigos mais moralistas as paixões que têm por alvos mudos objectos: dinheiro, móveis, roupas, até empregos. E, neste país, para o bem e para o mal, gostamos mais de contornar legislação do que de sublinhá-la. Ali estava o magnífico Dr. A. para contrariar o carácter nacional.
Esmagado sob o peso da própria gravidade, entrara na sala, secundado por um adjunto e uma secretária. O adjunto sentou-se e ficou responsável por passar os slides da apresentação. Era o “melhor técnico” com que o Dr. já tinha trabalhado. A secretária, o seu “braço direito”, era alguém em quem o Dr. confiava cegamente. Competentíssima, proba, foi passando atrás das cadeiras para ir registando tudo. De bico selado, não ousou fazer o mínimo ruído a tirar fotografias. Mesmo tendo aquele aspecto protuberante e nervoso, A. quase murmurava. Quando lhe pediram que falasse mais alto, denunciou logo a má acústica do sítio. Se pudessem, franziriam o sobrolho os arcos das abóbadas brancas.
Abriu as hostilidades cuspindo o seu currículo extenso. Conhecia este, conhecia aquele, tinha muito a dever a fulano que chegara a director, era uma voz indómita à mesa dos ministros. Para queimar tempo, pediu à audiência que se apresentasse. À medida que das vozes trémulas iam escapando o nome e a formação, o magnífico Dr. A. ia arrolando vítimas para a sua peça. Que não se encolhesse o antigo inspector das Finanças: toda a gente desconfiava desses coca-bichinhos! Também ele conhecia e apreciava uma inspectora. Partilhavam, aliás, o leito matrimonial. E a rapariga que tinha acabado de entrar no primeiro emprego que tivesse paciência, levantasse a mão quando não percebesse alguma coisa. Dali a três ou quatro anos, já dominaria aquilo de trás para a frente. Se conseguisse entender alguma coisa, entretanto. Que se resignasse o tipo que tinha abandonado a instituição em que o Dr. pontificava. Tinha cometido um erro, deslizado numa traição. Acima de tudo, era preciso ter muita humildade. Dobrar o pescoço, fazer recuar o nariz até despontar o focinho. Muita humildade, apontaram?
Depois veio o vídeo, feito por inteligência artificial, que explicava a história da instituição a que o Dr. pertencia. Tivemos de engolir o chorrilho de banalidades, o dinamismo das palavras repetidas, o discurso redondinho. As colunas não funcionavam? Que se levantassem os ouvintes e se acocorassem à volta do ecrã para ouvir a voz soprada do Além. Lá fomos, vergados, beber da sapiência do cérebro etéreo.
A comunicação prosseguiu sem sobressaltos. O Dr. salientou quanto se tinha sacrificado, ao longo de tantos e tantos anos, em prol do bem público. Confessou ter recusado rendosos cargos para servir a comunidade. Tinham-lhe agitado franjas de ouro e de prata junto às pupilas. E ele resistira. O cidadão comum saberia o significado desta abnegação? Podia-se lá esperar solidariedade do povo! Mas a ingratidão não o amargava, as dificuldades não o demoviam. O seu magnífico nariz pairava acima de qualquer monturo.
Se alguém começava a falar com o colega do lado, interrompia o discurso.
– Não querem partilhar com os restantes? Pode interessar a outros colegas.
Qualquer murmuração se poderia transformar em insolência. Havia que prevenir. Por mais que tentasse passar o testemunho àquelas cabeças ocas, mil acidentes perturbavam o seu caminho. Um infeliz tentou lentamente desembrulhar um rebuçado. Uma apoplexia espreitou atrás de uma das orelhas do Dr.
– Só tu é que não reparaste que está toda a gente a olhar para ti!
Como se nada fosse, o dedo do adjunto continuou a premir o botão da seta. A secretária dançava ao compasso dos cliques, na nossa sombra.
A. voltou à lição, sentado contra uma das mesas, de costas para o lado que menos lhe interessava. Desfiava frases feitas, lia o que os seus subordinados tinham despejado na apresentação. Lançava, contra o tipo traidor, perguntas sobre decretos e programas. Vinham à baila as dificuldades enfrentadas pelo Estado e saltava para a garupa do inspector. Lembrava-se, a espaços, que tinha sido investido da nobre missão de pregar aos peixinhos e aludia à doce inexperiência da juventude, que a rapariga tão bem encarnava.
O discurso foi-se enrolando e desfazendo. Gradualmente, foi sobrando pouco para ler e dizer. Quando, enfim, deu por terminada a sessão, a vozearia instalou-se. Era como se tivessem tirado a rolha da garrafa de espumante. Pressentindo que a tensão se dissipava, as línguas voltaram ao ataque.
Mas eis que, sem aviso, o dedo inquisidor de um ouvinte se ergueu acima do emaranhado de timbres. Havia uma pergunta para o Dr.!
– Força!
A palma aberta estalou contra a mesa. O silêncio desceu como um milhafre sobre a presa inquieta. Todos os olhos se arregalaram. As bocas contorceram-se em esgares aflitos. O homem dera mesmo uma pancada no tampo? Bastara um gesto, um gesto apenas, para que o tempo suspendesse o curso e engatasse a marcha-atrás. Subitamente, cada um dos ouvintes regressou aos terrores da infância, à solidão da secretária em frente do quadro preto. A. aproximou-se do perguntador, não dando muita importância ao espanto da audiência. A secretária e o adjunto entreolharam-se. Só eles saberiam quantos acessos de tirania lhe sacudiam o corpo todos os dias.
Finda a função, esperou que todos saíssem. Acompanhado pelos dois súbditos, abandonou a sala. Deve ter sorrido, satisfeito. O seu propósito tinha sido cumprido. Mais um passo fora dado para diminuir a ignorância universal.
Caricatura de Odilon Barrot de Honoré Daumier (1851)
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Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. Este é um dado amplamente conhecido e repetido sempre que se discute sustentabilidade da Segurança Social, pressão sobre os cuidados de saúde ou respostas sociais para a população sénior.
Mas há uma dimensão deste envelhecimento coletivo que continua praticamente ausente do debate público: a invisibilidade narrativa das pessoas mais velhas.
Falamos de envelhecimento em números. Falamos de dependência, de pensões, de cuidados, de lares, de esperança média de vida. Mas raramente falamos das pessoas enquanto detentoras de memória, experiência e identidade coletiva.
De forma quase inconsciente, fomos empurrando os mais velhos para um lugar social onde são vistos sobretudo pelas suas necessidades e cada vez menos pelo valor da sua história.
E isso devia preocupar-nos.
Numa sociedade obcecada com velocidade, produtividade e novidade, ouvir exige tempo. Fazer perguntas exige presença. Escutar verdadeiramente implica reconhecer valor naquilo que a outra pessoa tem para dizer. Talvez por isso este seja um exercício cada vez mais raro.
O problema é que aquilo que se perde não é apenas individual ou familiar. É também coletivo.
Cada pessoa idosa carrega consigo um património imaterial feito de memórias, contextos, vivências e perspetivas sobre o mundo que não existem em mais lado nenhum. Quando essas histórias desaparecem sem serem escutadas, perde-se muito mais do que recordações privadas. Perde-se contexto histórico, identidade cultural e compreensão intergeracional.
Num país que viveu ditadura, emigração massiva, transformações sociais profundas, mudanças económicas e revoluções culturais em poucas décadas, não preservar a memória viva das pessoas é desperdiçar uma parte importante da nossa própria história.
Há também aqui uma contradição curiosa.
Nunca documentámos tanto a nossa vida como hoje. Fotografamos tudo, filmamos tudo, guardamos tudo. E, no entanto, talvez nunca tenhamos sido tão frágeis na preservação daquilo que realmente importa: as histórias, os significados, os testemunhos humanos.
Guardamos imagens, mas não necessariamente memória.
Talvez porque confundimos registo com preservação.
Mas preservar não é apenas acumular ficheiros digitais. Preservar é ouvir. É contextualizar. É reconhecer valor antes que seja tarde.
Este não é apenas um tema emocional ou familiar. É um tema social.
Num país envelhecido, continuar a ignorar a voz dos mais velhos é também uma forma silenciosa de exclusão.
E talvez esteja na altura de começarmos a falar sobre isso.
Assinalado a 11 de junho, o Global Fatty Liver Day pretende sensibilizar a população para uma condição silenciosa, mas cada vez mais frequente: a doença hepática esteatótica.
A designação “Doença Hepática Esteatótica” engloba diferentes formas de doença hepática associadas à gordura acumulada no fígado. Entre elas, a doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica (MASLD), previamente conhecida como fígado gordo não alcoólico, que reflete melhor a forte ligação entre esta condição e alterações metabólicas como obesidade, diabetes tipo 2, síndroma metabólica e hipertensão arterial.
A MASLD é a doença hepática crónica mais comum no mundo. Estima-se que cerca de um em cada quatro adultos no mundo tenha algum grau de fígado gordo (esteatose), sendo que muitos desconhecem totalmente o problema. Em Portugal, tal como noutros países europeus, o aumento do sedentarismo, da obesidade, da diabetes e dos hábitos alimentares desequilibrados tem contribuído para o crescimento do número de casos.
Os fatores de risco mais comuns para MASLD incluem excesso de peso, obesidade abdominal, diabetes tipo 2, resistência à insulina, colesterol e triglicéridos elevados, hipertensão arterial e sedentarismo. A predisposição genética e alguns hábitos alimentares, como uma dieta rica em açúcares, gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados também contribuem para o desenvolvimento da doença.
Apesar de na maioria das vezes não provocar sintomas nas fases iniciais, esta doença pode evoluir para situações graves, como inflamação hepática, fibrose, cirrose e até cancro do fígado. O diagnóstico precoce, através de exames de imagem e análises específicas, bem como o acompanhamento médico, são fundamentais, sobretudo na presença de fatores de risco, permitindo intervir antes que os danos hepáticos se tornem irreversíveis.
A adoção de um estilo de vida saudável continua a ser a estratégia mais eficaz para travar a progressão da doença e, em muitos casos, reverter os danos iniciais. A perda de peso, a prática regular de exercício físico e uma alimentação equilibrada têm demonstrado benefícios significativos.
O Global Fatty Liver Day surge, assim, como uma oportunidade para reforçar a literacia em saúde e alertar para a importância do diagnóstico precoce. Apesar de frequentemente negligenciada, a Doença Hepática Esteatótica é hoje um importante problema de saúde pública, com impacto crescente a nível mundial.
* Gastrenterologista na ULS Santa Maria e Hospital Lusíadas Lisboa, vice-presidente da assembleia-geral da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF)
No passado mês de Abril, considerado o mês da liberdade em Portugal, o conceito de democracia tem um significado ainda mais importante. Um país que viveu em ditadura sabe o que é não poder decidir e viver com medo e na sombra de um líder autoritário que dita as normas e as formas de vida. Mas não só em Abril se deve falar de democracia.
Mas porque é que uma organização não-governamental de conservação marinha está a falar de democracia?
Porque, a 25 de abril de 1974, Portugal ganhou a sua liberdade, e com isso, a abertura do espaço ao diálogo e associativismo, valores cruciais para o trabalho de uma organização não governamental que procura promover mudanças positivas.
A democracia implica liberdade, justiça, soberania popular e respeito pelos direitos fundamentais, o que inclui um oceano (e ambiente) limpo e saudável. Porque, sim, um meio ambiente limpo é um direito humano e, como tal, deve ser protegido. A democracia não é apenas um valor político, mas também ecológico e moral.
A democracia foi ganha em Portugal depois de anos de luta. Mas a liberdade trouxe consigo responsabilidade. Uma responsabilidade civil que permite a expressão, tanto individual como coletiva, mas também o direito à exigência de melhores condições de vida, incluindo na qualidade ambiental e acesso a um ambiente saudável. Isto tem permitido, e até promovido, o surgimento de movimentos sociais, culturais e ambientais que visam proteger esses valores. O clamor de vozes que talvez nunca tenham sido ouvidas antes. As vozes da natureza, do mar, das comunidades piscatórias, das mulheres dentro dessas comunidades, entre tantas outras que, quiçá na escuridão de uma ditadura, nunca teriam ganho o valor que hoje acrescentam.
Geralmente, pensamos no processo de tomada de decisão, a nível governamental ou municipal, como algo distante e por vezes opaco. Mas, na verdade, o que lá se concretiza começa pelo que nós, o povo, fazemos, exigimos e votamos.
A responsabilidade inerente à democracia exige que o povo se mantenha informado e tome decisões conscientes. Em quem alguém vota não deveria ser uma decisão aleatória, muito menos assente na popularidade ou numa mera “preferência superficial”. O mérito e o alinhamento dos valores entre quem vota e quem se candidata deve ser o centro da questão. A participação em fóruns e instâncias de aprendizagem, sensibilização e partilha de informação é fundamental para votar de forma consciente e informada.
Contudo, a democracia também pode ser fragilizada por dentro. Movimentos políticos que colocam o crescimento económico acima da proteção ambiental têm ganho popularidade em vários países, incluindo na Europa, escolhidos precisamente através das urnas. Paradoxalmente, parte dessa ascensão alimenta-se de um ecossistema de informação digital fragmentado, onde algoritmos amplificam o sensacionalismo em detrimento do rigor – e onde a desinformação circula mais depressa do que os factos.
Ainda mais preocupante é a falta de interesse político em questões ambientais, devido ao crescente interesse em narrativas populistas e com base no ódio, que criam uma falsa necessidade de investimento em armas e defesa militar. Entretanto, o que realmente nos dá vida, um ambiente e oceano saudáveis, carece de recursos e apoio financeiro para a sua proteção.
A tripla crise ambiental das alterações climáticas, da poluição e da perda acelerada da biodiversidade tem de ser enfrentada de todos os ângulos possíveis. De cima para baixo e de baixo para cima. Na nossa vizinhança, bairro, município, localidade, no Algarve, no Alentejo, na Grande Lisboa e no país inteiro.
Participar, pronunciar-se e exigir transparência, com a liberdade que Abril conquistou, permite-nos influenciar prioridades políticas e contestar decisões que colocam interesses económicos acima do bem comum. A crise climática expõe que nem todas as vozes têm o mesmo peso – e é precisamente aí que a democracia tem de ser mais do que um valor declarado: tem de ser praticada. Sem ela, a participação é silenciada. Sem participação, a ação climática perde legitimidade, eficácia e alma.
Reforçar a democracia é uma condição indispensável para proteger o ambiente e o oceano e, com eles, o futuro.
NOTA: Este é o quinto artigo da “Coluna de Água”, um projeto da Sciaena – Associação de Ciências Marinhas e Cooperação e que publicará, durante um ano, 12 artigos, relacionados com justiça ambiental, direitos humanos, igualdade de género, participação democrática e literacia do oceano.
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