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O país onde a esperança custa um euro – e a solidão custa ainda mais | Por Luís Ganhão

8 June 2026 at 16:41

Há imagens que dizem mais sobre Portugal do que qualquer relatório estatístico.

Uma delas repete-se diariamente em papelarias e quiosques de norte a sul do país: um idoso, de mãos trémulas, a contar moedas para comprar uma raspadinha. Outra, mais silenciosa, mas igualmente reveladora: uma pessoa idosa, sozinha em casa, a ligar para um programa televisivo de participação paga que promete prémios imediatos, enquanto calcula se a pensão chega até ao fim do mês.

Estas imagens não são exceções curiosas. São sinais de um país onde a esperança foi convertida em negócio — e onde essa transformação recai com especial intensidade sobre quem tem menos recursos, menos proteção e menos alternativas.

LUÍS GANHÃO
Jurista
Para muitos idosos, jogos como o Euromilhões ou as raspadinhas, bem como concursos televisivos baseados em chamadas pagas, tornam-se rotina

Não se trata apenas de entretenimento. Para muitos idosos, jogos como o Euromilhões ou as raspadinhas, bem como concursos televisivos baseados em chamadas pagas, tornam-se rotina. Não apenas pela promessa remota de ganho, mas porque preenchem um vazio mais imediato: o da solidão, da repetição dos dias e da ausência de contacto humano regular.

A raspadinha não é um simples jogo. É um mecanismo de antecipação emocional cuidadosamente explorado. Um instante de expectativa vendido a quem, muitas vezes, já perdeu quase tudo o resto em termos de expectativa social.

E é aqui que o problema deixa de ser individual.

Portugal mantém níveis persistentes de pobreza entre a população idosa. Muitas pensões não chegam para responder ao custo real de vida. Neste contexto, a promessa de uma mudança súbita de destino deixa de ser fantasia inocente e passa a funcionar como substituto simbólico de uma mobilidade social inexistente.

Não há necessidade de engano explícito para que haja exploração. Basta a existência de um desequilíbrio estrutural: produtos concebidos para maximizar repetição, estímulo e adesão, colocados num mercado onde uma parte significativa dos consumidores vive com margens económicas mínimas.

As raspadinhas estão omnipresentes, normalizadas, integradas no quotidiano. Os concursos televisivos alimentam-se de urgência emocional, linguagem de vitória fácil e promessa permanente de recompensa imediata. Tudo isto é legal, tudo isto é publicamente visível — e precisamente por isso a sua eficácia é tão relevante.

O que está em causa não é a liberdade individual de jogar ou participar. O que está em causa é a forma como essa liberdade é sistematicamente capturada num contexto de vulnerabilidade. Quando pequenas perdas sucessivas têm impacto real no orçamento mensal, o jogo deixa de ser neutro. Passa a ser regressivo.

Há aqui uma assimetria difícil de ignorar: de um lado, sistemas desenhados para maximizar participação e receita recorrente; do outro, pessoas para quem a promessa de um ganho improvável representa, muitas vezes, a única narrativa de escape disponível.

Não é preciso caricaturar intenções para reconhecer o resultado. Pode não haver malícia individual direta. Mas há um modelo que funciona porque encontra fragilidade — e a explora de forma consistente.

E isso deve ser dito com clareza: quando a esperança se torna produto vendido sistematicamente a quem menos pode suportar a perda, não estamos apenas perante entretenimento. Estamos perante uma forma normalizada de extração de valor a partir da vulnerabilidade.

O problema não é moralizar quem joga. O problema é aceitar sem incómodo suficiente um sistema que depende, estruturalmente, de que os mais frágeis continuem a alimentar a sua promessa.

E é nesse desequilíbrio — entre promessa e fragilidade, entre estímulo e limitação — que se torna difícil evitar a conclusão essencial: quando a esperança é transformada em produto sistematicamente direcionado a quem menos margem tem para perder, o problema já não é apenas individual. É estrutural.

Leia também: A era dos comentadores de fato feito | Por Luís Ganhão

O que importa saber sobre radiações

Para muitas pessoas, a palavra “radiação” surge imediatamente associada a momentos de preocupação, exame médico ou um tratamento.

Quando se fala em radiação, surgem, frequentemente, na memória imagens marcantes e assustadoras, como os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki ou o acidente nuclear de Chernobyl.

Atualmente, o tema continua muito presente nas conversas, não só por estas memórias terem sido marcantes e com repercussões extremamente severas, mas também porque está ligado a questões atuais, como a transição para energias mais limpas, a necessidade de maior independência energética na Europa e as preocupações com a segurança internacional, especialmente no contexto da guerra na Ucrânia.

Estes episódios reforçam a perceção de um perigo invisível, quase abstrato, mas profundamente inquietante.

Mas e se a radiação fizer parte da nossa vida muito mais do que pensamos?

Na verdade, a radiação faz parte do nosso dia a dia, maioritariamente sem nos darmos conta. Está no solo que pisamos, no ar que respiramos, nos alimentos que consumimos e até no nosso próprio corpo.

Vem também do espaço, sob a forma de radiação cósmica, que atravessa a atmosfera, sendo que a quantidade a que estamos expostos pode até variar: por exemplo, quanto mais elevada for a altitude, maior tende a ser essa exposição.

Ou seja, a radiação não é algo raro ou excecional, faz parte do ambiente que nos rodeia. Talvez por isso, a verdadeira questão não seja se ela existe, mas sim como é utilizada e em que condições.

E apesar de falarmos muitas vezes de “radiação” como se fosse uma única coisa, na realidade nem toda a radiação é igual.

No dia a dia, convivemos sobretudo com a chamada radiação não ionizante, de baixa energia, presente na luz visível, nas ondas de rádio ou no micro-ondas, ao qual somos expostos diariamente.

A radiação ionizante, por ser mais energética, é aquela que encontramos sobretudo em áreas como a medicina. É também a que costuma gerar mais dúvidas e, de forma compreensível, mais receios.

Falar de radiação implica, naturalmente, falar de riscos. Quando utilizada em doses elevadas ou de forma inadequada, pode provocar danos nas células e aumentar o risco de doença.

Mas também é verdade que o seu uso, especialmente na medicina, é altamente controlado. Existe um princípio internacional, conhecido como ALARA, que orienta a prática para garantir que a exposição é sempre a mínima necessária para obter benefício terapêutico.

No caso das baixas doses, como aquelas associadas à maioria dos exames médicos ou à exposição natural do dia a dia, o risco é considerado reduzido.

E talvez seja importante lembrar que esta não é a única fonte de risco à nossa volta. O tabaco, a poluição ou os alimentos processados têm impactos muito mais evidentes na saúde da população.

É na saúde que a radiação mostra, talvez, o seu lado mais invisível e ao mesmo tempo mais transformador.

A radiação X é das mais utilizadas para o diagnóstico de diversas patologias, nomeadamente traumáticas, degenerativas, infeciosas ou malignas. Uma radiografia é muitas vezes o primeiro passo para um diagnóstico.

Existem, no entanto, tecnologias mais avançadas que utilizam baixas doses de radiação X que permitem a deteção de doença em fases precoces, como é o caso do cancro de mama através da mamografia e da osteoporose, através da Densitometria Óssea, que avalia a densidade mineral óssea, contribuindo para o aumento da sobrevida e da qualidade de vida das populações.

 A medicina personalizada e de precisão não dispensa diagnósticos completos e de elevada fiabilidade para os quais em muito contribuem, por exemplo, os exames de Tomografia Computorizada (TC) e Angiografia, que permitem uma avaliação anatómica tridimensional e funcional, baseada na aplicação de doses mais elevadas de radiação X.

Atualmente estas técnicas de imagem até possibilitam o tratamento de algumas patologias através de imagem guiada sem existir necessidade de procedimentos cirúrgicos mais invasivos.

 A radioterapia — uma palavra que, à partida, pode assustar, mas que, todos os dias, ajuda a tratar pessoas com cancro, pela aplicação terapêutica de radiação X. Com uma precisão cada vez maior, permite destruir células tumorais ao mesmo tempo que preserva, tanto quanto possível, os tecidos saudáveis.

Para quem passa por este processo, ou acompanha de perto, a radiação deixa de ser um conceito distante ou abstrato. Torna-se algo concreto, uma ferramenta essencial e, muitas vezes, uma verdadeira aliada no tratamento e na melhoria da qualidade de vida.

Mas a presença da radiação não se limita à medicina. Está nas tecnologias que executam tratamento de águas, monitorizam o ambiente ou ajudam a desenvolver culturas agrícolas mais resistentes. Na indústria, permite analisar estruturas sem as danificar. Na ciência, abre caminho à inovação.

Mas compreender a radiação o que é, como funciona, quando e onde é utilizada, ajuda a transformá-la de ameaça difusa em realidade concreta. E, muitas vezes, menos assustadora.

Em suma, a radiação faz parte do nosso quotidiano e, quando utilizada de forma segura, constitui uma ferramenta essencial ao serviço da saúde, da ciência e da sociedade. Mais do que alimentar receios, importa promover literacia científica que permita compreender os seus riscos reais, mas também os seus benefícios

Porque, no fim, aquilo que não se compreende tende a assustar. Mas aquilo que se conhece… pode ajudar-nos a viver melhor.

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Planetas, Lua Nova e Via Láctea fazem de junho um mês especial | Por Fernando J.G. Pinheiro

8 June 2026 at 12:15

O primeiro evento astronómico significativo deste mês tem lugar no dia oito, altura em que a Lua atinge a sua fase de quarto minguante junto à constelação do Aquário.

Na noite de dia nove os planetas Vénus e Júpiter apresentar-se-ão a pouco mais de um grau e meio (três vezes o diâmetro da Lua) um do outro. Vénus será o mais brilhante destes dos planetas situando-seentre Júpiter e Pólux, uma estrela situada numa das cabeças da constelação do Gémeos, até junto do planeta Júpiter. Vénus continuará a sua deslocação para leste ao longo do mês, chegando aos limites da constelação do caranguejo no dia doze.

Ao final da madrugada de dia dez a Lua irá nascer junto ao planeta Saturno e, dois dias depois, junto ao planeta Marte.

O planeta Mercúrio atingirá a sua maior elongação (afastamento relativamente à posição do Sol) no dia quinze, coincidindo com a Lua Nova. A presença da Lua na direção do Sol dar-nos-á a oportunidade de observarmos melhor a Via Láctea e alguns objetos do céu profundo como a Nebulosa da Lagoa (ou Messier 8), uma nebulosa interestelar situada na constelação do sagitário, ou os aglomerados estelares Messier 10 e o da Borboleta (Messier 6) situados, respetivamente, na constelação do Ofiúco e do Escorpição. Como o nome “objetos de céu profundo” sugere, a observação destes astros requer a ausência de fontes de poluição luminosa tais como as luzes das cidades.

FERNANDO J.G. PINHEIRO
Astrónomo e investigador do CITEUC – Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra

Ao final do dia dezasseis a Lua passará ao lado de Mercúrio e, na madrugada seguinte, junto ao planeta Júpiter. De notar que a distância entre estes dois planetas irá diminuindo aos poucos até chegarmos ao dia vinte e cinco, altura em que distarão em cerca de quatro graus, i.e., pouco menos do que três dedos vistos com o braço estendido.

Por sua vez, ao final de dia dezassete, a Lua passará tão perto da direção do planeta Vénus que será possível ver este planeta a ser ocultado pela lua ao longo de uma faixa que vai do Canadá até ao nordeste brasileiro, passando pelo norte do méxico, e incluindo países como a Venezuela ou Cuba

Na noite de dia dezoito não só iremos observar o alinhamento dos planetas Mercúrio, Júpiter e Vénus, mais a estrela Régulo, como também o crescente da Lua.

De todas as efemérides deste mês, a mais importante irá ocorrer as nove horas e vinte e cinco minutos da manhã de dia vinte e um. Neste dia a Terra atingirá o ponto da sua órbita no qual o hemisfério norte se encontra mais inclinado na direção do Sol: é o que neste hemisfério é conhecido por solstício de verão por marcar o início desta estação.

Ceu a oeste pelas 22:00 de dia 21. Igualmente é indicada a posição da Lua na noite de dia 16

Ao final deste mesmo dia vinte e um a Lua atinge a sua fase de quarto minguante, enquanto que a Lua Cheia chegará ao início da última madrugada do mês. No entanto por esta última fase lunar ocorrer pouco depois da Lua ter atingido o seu apogeu (ponto da órbita mais alto) ela apresentar-se-á ligeiramente mais pequena do que é habitual: é o que se chama de micro Lua cheia.

Leia também: Super Lua Cheia e chuva de estrelas Leónidas iluminam o céu nas noites de novembro | Por Fernando J.G. Pinheiro

A política europeia de reindustrialização: soberania, segurança e competitividade | Por António Covas

8 June 2026 at 09:47

Nas últimas décadas a política industrial europeia foi concebida em termos de soft policy com base numa política de abertura comercial, concorrência e eficiência das cadeias de valor globais. Os factos da geoeconomia e da geopolítica fizeram, entretanto, evoluir este paradigma de soft policy. Hoje somos testemunhas de um regresso às políticas de potência e relações de força, que delimitam áreas de influência e novos alinhamentos geoestratégicos. A pandemia, a guerra na Ucrânia, a guerra no Médio Oriente, a crise energética, a rivalidade tecnológica entre grandes potências e a crescente utilização do comércio, da tecnologia e do investimento como instrumentos de poder revelaram uma vulnerabilidade estrutural, qual seja, a dependência excessiva pode converter-se em risco estratégico e geopolítico. A chamada reindustrialização europeia nasce, precisamente, desta tomada de consciência. A política industrial, a soberania digital e a segurança económica não podem, mais, ser conduzidas separadamente pois fazem, doravante, parte de um conceito geoestratégico de autonomia e segurança europeias. Este pensamento está presente no alinhamento mais recente dos instrumentos de política industrial europeia: o Regulamento das Subvenções Estrangeiras (2023), a Estratégia de Segurança Económica (2023), o Regulamento dos chips (2023), o Regulamento dos Serviços Digitais (2024), o Regulamento do impacto-zero (2024), o Regulamento das matérias-primas críticas (2024), a Bússola para a Competitividade (2025), o Pacto da Indústria Limpa (2025), a Bússola da Cultura (2025), o Regulamento da IA (em vigor no dia 2 de agosto de 2026), o Ato do Acelerador Industrial (proposta da Comissão de março de 2026).

Estamos na primavera de 2026, podemos dizer que a política industrial europeia e os principais setores industriais se inscrevem em quatro grandes cadeias de valor: a cadeia de valor da soberania digital, mais ou menos diferenciada, que se estende dos minérios raros aos materiais críticos e dos semicondutores à computação avançada (1), a cadeia de valor da descarbonização e eletrificação, com uma sustentabilidade mais ou menos diferenciada, que vai da matriz energética até à interoperabilidade do sistema elétrico (2), a cadeia de valor da gestão multirrisco, que se estende da prevenção do risco até à gestão de vulnerabilidade e segurança das infraestruturas críticas (3), finalmente, a cadeia de valor da segurança económica, mais ou menos globalizada, e que se estende das cadeias globais de abastecimento à produção local e do comércio de mercadorias ao investimento direto estrangeiro (4). Vejamos algumas dimensões desta nova política industrial europeia.

Uma primeira dimensão diz respeito à Estratégia de Segurança Económica de 2023. A União identificou quatro riscos prioritários: a resiliência das cadeias de abastecimento, incluindo a segurança energética (1), a segurança física e cibernética das infraestruturas críticas (2), a segurança tecnológica e a fuga de informação valiosa (3), e ainda a instrumentalização de dependências económicas por países terceiros (4). Neste sentido, a Comissão propôs organizar a sua ação em torno de três objetivos: promover a competitividade, proteger a segurança económica e estabelecer parcerias de reciprocidade. Mais recentemente, a Bússola para a Competitividade e o Pacto da Indústria Limpa consolidaram esta viragem. A primeira, apresentada em janeiro de 2025, parte do diagnóstico de que a Europa precisa de recuperar competitividade, reduzir encargos regulatórios e reforçar a integração do mercado interno, e, entre outros, identifica formas de reforçar e diversificar cadeias de abastecimento. O segundo, lançado em fevereiro de 2025, procura transformar a descarbonização num motor de crescimento industrial, incentivando investimento em tecnologias limpas e respondendo simultaneamente aos elevados preços da energia e à intensificação da concorrência internacional em setores estratégicos. Ambas visam reforçar a base industrial, acelerar a transição energética e reduzir dependências num contexto cada vez mais competitivo.

Uma segunda dimensão da nova política industrial europeia diz respeito à revisão dos instrumentos de análise do investimento estrangeiro. O atual mecanismo europeu de escrutínio de 2019 está em revisão. O texto, que já mereceu o acordo do Parlamento Europeu e do Conselho, visa tornar o sistema mais coerente e eficaz em toda a União, introduzindo requisitos mínimos para os regimes nacionais de controlo em setores críticos e reforçando a cooperação entre Estados-Membros e Comissão. Num contexto em que investimento, tecnologia e segurança se tornaram dimensões cada vez mais interligadas, este reforço do quadro europeu de controlo do investimento estrangeiro assume uma importância crescente para a proteção da segurança económica da União. A este instrumento soma-se o Regulamento das Subvenções Estrangeiras, aprovado em 2022 e atualmente em processo de revisão, que permite à Comissão investigar apoios financeiros concedidos por países terceiros a empresas ativas no mercado interno sempre que esses apoios sejam suscetíveis de falsear a concorrência. O regulamento incide sobre operações de concentração e procedimentos de contratação pública onde o impacto económico e estratégico pode ser significativo. Isto é, a União Europeia já não se limita a escrutinar quem investe ou adquire ativos estratégicos, passa, também, a olhar para a fonte de financiamento que não está sujeita às mesmas restrições dos auxílios de Estado dentro da União. O regulamento procura impedir que dependências estratégicas se aprofundem por via de formas indiretas de projeção de poder económico por países terceiros.

Uma terceira dimensão diz respeito a uma proposta legislativa da Comissão de 4 de março de 2026 denominada Industrial Accelerator Act (IAA), cujo objetivo é impulsionar a indústria transformadora e apoiar a adoção de tecnologias mais limpas. Esta iniciativa, em linha com o relatório Draghi, foi lançada no âmbito do Clean Industrial Deal e introduz índices de baixo carbono para os contratos públicos e os regimes de apoio público, em especial em setores estratégicos selecionados como o aço, o cimento, o alumínio, os automóveis. Atualmente, a indústria transformadora representa 14,3% do PIB da União Europeia e a proposta estabelece como meta aumentar este valor para 20% até 2035. A proposta incentiva uma maior reciprocidade nos contratos públicos, introduz condições específicas para investimentos estrangeiros e medidas para simplificar os processos de licenciamento, incluindo a criação de um balcão único digital. Outra novidade é a criação de Áreas de Aceleração Industrial, isto é, zonas destinadas a facilitar a cooperação entre empresas e a criação de clusters de produção limpa tendo em vista os investimentos em infraestruturas energéticas e projetos de produção sustentável. 

Uma quarta dimensão na política industrial europeia para o século XXI diz respeito a uma nova geração de indústrias culturais e criativas (ICC) que nasce precisamente do cruzamento entre ciência, tecnologia, dados, propriedade intelectual, inteligência artificial, design e comunicação. Doravante, a tecnologia, a economia e a cultura, deixarão de ser mundos compartimentados e dessa nova matriz de recursos e ativos surgirá uma competitividade europeia muito mais imaginativa e sustentável. Num mundo em que a IA redefine criação, distribuição e valor acrescentado o património europeu não pode ficar restringido à gestão da conservação e restauro, precisa de ser reinterpretado, digitalizado e valorizado para gerar novas formas de conhecimento, experiência e inovação. As múltiplas interfaces entre economia produtiva e economia criativa serão o grande trunfo da sociedade e do projeto europeu para o século XXI. O alargamento dos modelos de linguagem, a produção de conteúdos e aplicações proporcionados pela inteligência artificial terá um impacto muito abrangente, ou seja, vamos assistir, por um lado, a uma padronização crescente da economia produtiva e, por outro, ao crescimento da economia criativa em sentido amplo em toda a cadeia de valor que se estende da educação à ciência e tecnologia e das artes à cultura.

Em síntese, a escala proporcionada pela tecnologia e suas hiperligações – digitalização, automação, inteligência artificial, computação avançada – exige o alargamento dos mercados globais que tornam lucrativos os investimentos realizados e, acima de tudo, se traduzem na capacidade de definir standards tecnológicos globais, capacidade industrial e controlo de cadeias globais de abastecimento de recursos críticos. No plano europeu a política pública tem assentado em regulação, investimento e normalização técnica. No plano regulatório com legislação sobre gestão de dados, serviços digitais e inteligência artificial, procurando assegurar as condições de funcionamento do mercado que tenham em conta controlo, segurança e previsibilidade, o que influencia também a forma como as tecnologias são desenvolvidas e utilizadas fora da Europa. Ao nível do investimento há um esforço importante para desenvolver capacidade própria, em áreas como cloud, computação avançada, semicondutores e cibersegurança e na vertente da normalização técnica é relevante a definição de standards em áreas como interoperabilidade, segurança e IA que permitem à União Europeia influenciar mercados e cadeias de valor a uma escala mais ampla.

Dito isto, a transformação estrutural da indústria europeia projeta-se para o século XXI através de uma matriz energética mais renovável (1), infraestruturas de rede, capacidade computacional e inteligência artificial de suporte a ecossistemas tecnológicos (2), novas fileiras e consórcios empresariais e industriais inseridos em cadeias críticas de abastecimento e circularidade (3), uma nova geração de atividades científicas e culturais, com mais conteúdos criativos (4) e a rematar este complexo, uma rede de infraestruturas críticas de proteção, vigilância e cibersegurança (5), Neste contexto, a dúvida que permanece é dupla. Por um lado, se esta reindustrialização salvaguarda a competitividade da Europa nos mercados globais, pois a Europa continua, por agora, a debater a soberania sem ter resolvido ainda as dependências estruturais que a limitam, das indústrias mais críticas à autonomia tecno-digital. Por outro, se salvaguardamos as nossas liberdades e direitos fundamentais no interior de um crescente universo tecno-digital.

Artigo publicado no Observador.

Leia também: União Europeia, a reforma da governação, do governing ao governance | Por António Covas

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A não necessidade dos porquês | Por Andrea Moura e Joaquim Caeiro

8 June 2026 at 08:28

Durante muitos anos senti uma necessidade constante de compreender tudo.

“Porque me acontece isto?”

“Porque me acontece sempre o mesmo?”

“Porque não consigo sair desta situação?”

Procurava respostas, causas e justificações para aquilo que me fazia sofrer. E, muitas vezes, essa procura é importante. Compreender a origem de uma dor pode ajudar-nos a curá-la.

Mas existe uma diferença entre procurar compreensão e ficar preso numa busca interminável por explicações.

Quando vivemos agarrados aos porquês, corremos o risco de permanecer ligados ao passado, aos acontecimentos e ao papel de vítima. Sem nos apercebermos, colocamos fora de nós a responsabilidade pelo que sentimos e perdemos contacto com o nosso verdadeiro poder: a capacidade de escolher como lidamos com aquilo que nos aconteceu.

O passado ajudou a construir quem somos hoje. As experiências, as escolhas, os erros e os acertos fazem parte da nossa história. Contudo, a nossa história não precisa de determinar o nosso futuro.

Se existem memórias, situações ou emoções que continuam a gerar sofrimento, é importante olhar para elas, integrá-las e, se necessário, procurar ajuda para as transformar.
Não para ficarmos presos ao que aconteceu, mas para nos libertarmos disso.

Talvez a questão mais importante não seja:

“Porquê?”
Mas sim:
“Como?”

Como quero viver a minha vida? Como quero sentir-me? Como quero relacionar-me comigo e com os outros? Como quero utilizar a minha energia? Como posso transformar aquilo que vivi numa força para avançar?

O “como” convida à ação. Implica escolha, responsabilidade e movimento.

Não podemos mudar o passado, mas podemos mudar a forma como nos relacionamos com ele.
Acredito que muitas pessoas continuam em sofrimento porque procuram incessantemente justificações para aquilo que viveram. No entanto, a verdadeira liberdade surge quando deixamos de procurar respostas para tudo e começamos a construir conscientemente o caminho que queremos percorrer.

A necessidade de saber porquê pode tornar-se uma prisão.
A não necessidade de saber porquê pode ser profundamente libertadora.

Chega um momento em que precisamos de deixar de olhar constantemente para trás e começar a olhar para a frente. Honrar a nossa história, sem viver presos a ela.

E talvez a vida nos continue a perguntar:
“Como queres viver daqui para a frente?”
Cabe a nós escolher.

Gratidão.

  • Artigo da autoria de Andrea Moura e Joaquim Caeiro

Leia também: Auto-conhecimento e liberdade | Por Andrea Moura

O meu vizinho e amigo “Sr. Manuel Papo Seco”

7 June 2026 at 18:06

Tinha como Manuel Miguel o seu nome oficial, como pude constatar, vezes múltiplas através da leitura de documentos oficiais – Certidão de nascimento, bilhete de identificação, etc. emitidos pelos serviços próprios. Nasceu em Loulé, sendo arreigadamente bairrista, deslocando-se várias vezes à sua terra natal, em algumas das quais o acompanhei – Batalha de Flores, Mãe Soberana e outras festividades louletanas e sendo um dedicado fã da Banda Artistas de Minerva, que ora completa os 150 anos de existência, assinalada efeméride que justifica as nossas mais efusivas felicitações. Nunca soubemos das razões que trouxeram este arreigado louletano até Faro, nem das motivações da alcunha «Papo Seco», porque era conhecido cidade em fora.

Seria pela forma clássica como sempre se apresentava? Ainda o vi a usar «polainites»…

Durante longas décadas fomos vizinhos e amigos. O sr. «Manuel Papo Seco» morou sempre no nº15 da Rua Infante D. Henrique e eu nos n.ºs 13 e 11 daquela artéria também conhecida por Rua Direita ou Rua da Carreira. Éramos «fronteiriços» do Grande Hotel, imponente imóvel construído ainda no século XVIII, a quando da «Era dos Cumanos» para unidade de saúde (tratamento da sífilis) e vindo posteriormente a ser unidade hoteleira de luxo (nela se instalou o malogrado presidente Sidónio Pais – «o presidente rei» e foi também centro de alojamento liceal. Nos tempos a que este escrito remonta (anos 40, 50 e 60 do século passado era o «Grande Hotel», hoje uma residência de apartamentos de luxo e que ocupa uma vasta área nas Ruas Infante D. Henrique, Dr. Teófilo Braga e da Viola, de armazéns de mercearia e frutos secos, bem como a sede dos Serviços de Abono de Família (hoje Segurança Social) e residência de ilustres famílias farenses – os Inglês O Ramos, os Tavares Belo (com destaque para o Maestro) e os Matos Parreiras (cujo líder além de Chefe da Delegação Aduaneira era um dos mais influente líderes do então partido único, a União Nacional. O vizinho e amigo Manuel Papo Seco era uma espécie de mordomo do Grande Hotel, ocupando um pequeno espaço com oficina de sapateiro. Era casado com a «vizinha Joana», benévola senhora que exercia o mister de «pespontadeira», uma actividade com reduzida ou quase nula expressão na cidade. Como não tiveram filhos adoptaram uma menina, a «Manelinha», que quando chegou a idade devida casou e foi morar para a Grande Lisboa, onde hoje, avó embevecida vive. Um trio de bons vizinhos, grandes amigos e gente que marcou a Faro dos tempos idos…

De Leão XIII a Leão XIV – a Encíclica Magnifica Humanitas

7 June 2026 at 16:34

Mesmo quem não é católico praticante, mas se interessa pelos problemas sociais e políticos dos tempos em que se vive, facilmente toma conhecimento da sábia consciência com que a Igreja Católica, velha de muitos séculos, lida com as gerações em cada época. 

E se deu azo a períodos de grande asfixia das populações, isso ocorre sempre que os padres, seja de que religião for, acedem ao Poder.

Fora desses períodos, a figura dos Papas escolhidos teve sempre a ver com a realidade de cada tempo.

No conturbado século XIX   – nós achamos que este nosso século é especialmente conflituoso, mas também o século XIX o foi – ganhou relevância o Papa Leão XIII, quando publicou, em 1891, a sua Rerum Novarum. É forçoso ler aquele documento para quem quiser entender o que se passou daí em diante em termos politico-ideológicos. 

Naquela Carta Aberta, Leão XIII condena, no mesmo grau, o marxismo-leninismo simplesmente chamado socialismo, uma utopia que, na prática, conduzia à perda da individualidade dos trabalhadores, e o capitalismo liberal, que, com a revolução industrial, era avassalador e, por outros meios, conduzia os trabalhadores a idêntica submissão.

Escreveu então: “recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria e especular com a inteligência são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas”; mas também: “…os socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida...”

Ninguém se convença que foi por acaso que, a seguir a um Papa como foi Francisco, a Igreja escolheu um outro Papa que retoma o nome de Leão  talvez as contradições e acções lesivas da dignidade humana e de uns povos contra outros exija este Papa.

E a encíclica Magnifica Humanitas, que saiu no dia 15 de Maio, merece ser lida por quem se interessa pelos problemas que afectam o nosso mundo, o caos que campeia em muitas regiões assoladas pela guerra e a falta de consciência que a maioria dos governantes revela face aos problemas da biodiversidade ameaçada pelas alterações climáticas.

!35 anos após a Rerum Novarum, publicada quando se assumia que uma profunda mudança iria ocorrer no mundo com o comunismo e o liberalismo capitalista, uma nova e profunda transformação já iniciada deixa antever que vai afectar todos os povos do planeta de forma desigual.

Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais evidente o quão rápida e profundamente a digitalização, a inteligência artificial e a robótica estão a transformar o nosso mundo” – diz-se na abertura da Enciclica.

Outrora, eram os Estados quem assumia a orientação da vida dos povos, agora, como denuncia Leão XIV, são actores privados, transnacionais, dotados de capacidades superiores às de muitos Governos, pelo mundo fora.

A ideia de um desenvolvimento sustentável pelo qual muitos de nós lutam e sem êxito, também é sinalizado nesta encíclica: “A ideia de um desenvolvimento humano integral, encontra hoje um decisivo critério de avaliação na ecologia integral…”.

Não se pode atribuir ao algoritmo e à IA a definição das nossas vidas, e o documento papal aborda de forma contundente para muitos poderes instituídos, questões como a democracia, a busca pela liberdade, o desemprego como mal muito grave, a dignificação do trabalho, e a guerra que impõe a obrigatoriedade de lutar pela paz.

É um documento não demasiado extenso que merece ser lido por todos, com a certeza de que certos energúmenos, como Putin ou Trump ou Netanyahu, para citar apenas alguns dos mais icónicos. Não vão gostar.  E só isso já é uma consolação.

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Associativismo Estudantil: quando os estudantes constroem a universidade

7 June 2026 at 16:04

No setembro passado, ao ingressar no Mestrado em História da Arte e Património, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, deparei-me com uma ausência que já me parecia evidente desde a licenciatura: a inexistência de um núcleo estudantil dedicado aos alunos de História da Arte. Faltava um espaço de representação e dinamização, capaz de aproximar estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento, mas também docentes, investigadores e profissionais da área. Depois de ouvir vários professores, que reconheceram a importância desta criação, decidi avançar, apesar do receio inicial de que a ideia pudesse ficar apenas no entusiasmo de uma pessoa.

Foi assim que nasceu o NEHAP (Núcleo de Estudantes de História da Arte e Património). Concebi o nome, os primeiros objetivos e a identidade do projeto, divulgando-o depois junto dos estudantes através dos grupos de turma e de um processo de entrevistas que permitiu reunir uma equipa motivada e diversa. Aquilo que começou como uma inquietação individual tornou-se uma construção coletiva, assente numa convicção simples: a universidade não se esgota nas aulas, nos exames ou nos trabalhos escritos; deve ser também um espaço de comunidade, debate, produção científica, contacto profissional e crescimento pessoal.

Agora, quando o primeiro ano da minha presidência se aproxima do fim, sinto a necessidade de deixar uma reflexão dirigida aos meus colegas do ensino superior: estas estruturas são vitais. Ao longo deste mandato, o NEHAP procurou demonstrar que um núcleo estudantil pode ter um impacto concreto na vida dos estudantes. Organizamos formações dedicadas à escrita científica e à produção investigativa, promovemos conversas com profissionais das respetivas áreas, criamos momentos de esclarecimento sobre percursos académicos e profissionais, e realizámos várias visitas de estudo, desde a Assembleia da República ao Museu de Arte Contemporânea.

Estas atividades não foram apenas eventos isolados. Foram oportunidades de contacto, descoberta e crescimento. Permitiram abrir portas a espaços que muitos estudantes talvez nunca tivessem pensado visitar, aproximaram os alunos de realidades profissionais diversas e criaram experiências de trabalho real, capazes de enriquecer o currículo, desenvolver competências e preparar melhor o futuro.

Foi também neste processo que compreendi uma das grandes lições do associativismo estudantil: um núcleo não serve apenas para organizar atividades. Serve para criar possibilidades. Pode ajudar um estudante a descobrir uma área que desconhecia, a ganhar confiança para participar, a contactar com profissionais, a construir currículo ou simplesmente a sentir que pertence a uma comunidade.

Os núcleos estudantis têm uma importância que, por vezes, é subestimada. No entanto, são estruturas capazes de influenciar percursos, aproximar pessoas, criar pontes entre estudantes e professores, e complementar aquilo que a instituição nem sempre consegue oferecer de forma imediata. Não substituem a universidade, mas tornam-na mais viva, mais participada e mais próxima dos seus estudantes.

Por isso, deixo um apelo: participem nos núcleos estudantis das vossas faculdades. E, se eles não existirem, criem-nos. Criem-nos em nome dos estudantes do vosso curso, da vossa área e da vossa comunidade académica. Porque, no fim, quando alguém se aproxima depois de uma atividade para agradecer, quando um estudante diz que aquele evento lhe abriu uma nova perspetiva, ou quando percebemos que uma iniciativa teve impacto real na vida de alguém, todo o trabalho invisível passa a fazer sentido.

No meu caso, são precisamente esses agradecimentos simples, mas profundamente significativos, que me fazem continuar. O associativismo estudantil exige tempo, responsabilidade, paciência e resiliência.

Mas também ensina algo que nenhuma unidade curricular consegue ensinar da mesma forma: que a universidade não é apenas um lugar onde se aprende. É também um lugar que podemos ajudar a construir.

Jogador do ano na Premier League, do talento à excelência…

7 June 2026 at 14:04

…De seu nome completo Bruno Miguel Borges Fernandes, hoje com 31 anos, destro de pé preferencial, a atuar no Manchester United como médio centro e segundo avançado, desde que chegou em janeiro de 2020 por 55M€+ 25M€ em objetivos. A atuar com o número 8, sendo capitão de equipa há 3 épocas e com contrato até 30 de Junho de 2027, com opção por mais um ano.

Depois de ter sido considerado o jogador do ano na Premier League, estabeleceu novo recorde de passes para golo (assistências) numa só época na competição e nos 3068 minutos de utilização, em 35 jogos realizados. Foram 21 os últimos passes para golo, a ‘explicar’ a arte que lhe é tão característica e que lhe permitiu ultrapassar o recorde que estava na posse do francês Thierry Henry (Arsenal, época 2002/03) e do holandês Kevin de Bruyne (M.City, 2019/2020).

É realmente impressionante o trajeto deste formidável jogador, talvez que a justificar, de todo, a designação de se constituir num manual de ‘fazer, estar e ser’. Recordar que saíu de Portugal com 17 anos para Itália, sem saber falar italiano e sem qualquer rede a ampará-lo. Jogou no Novara, tinha 18 anos. Mais tarde, na Udinesse, onde aprendeu tática, marcação, sacrifício, começa a emergir como talento bruto, a justificar ser lapidado, na medida em que talento sem disciplina ‘só’ dará… promessa.

A atuar no Sporting – 2027/2020 -, começa a assumir a responsabilidade de marcar livres, penáltis, a ser capitão. Condição para juntar a arte e o exemplo de deixar de jogar só para si e passar a jogar mais para o coletivo.

Depois, a sua ‘casa’ atual, onde ao talento juntou (outra) mentalidade e (nova) presença, ‘explicando’ que excelência, significa ser consistente, aliada à atitude e ao impacto nos outros. De sublinhar que, enquanto miúdo e no Novara, marcou 4 golos, e agora, no firmamento do estrelato, enquanto capitão de uma equipa – sita em Old Trafford – já regista na sua conta pessoal 107 golos.

Far-se-á justiça, se e enquanto com: ”rosto, voz e coração”, considerarmos que Bruno Fernandes nunca terá sido ‘menino prodígio’, do jeito de Figo ou Ronaldo, foi-se construíndo jogo a jogo, época após época, a dar provas de que o ‘palco’, dos egocêntricos, não tem sido o seu ADN, antes ‘no terreno’ e com ‘chão’ e ‘voz’ autorizada de verdadeiro ídolo, porque ensina… sendo!

Mérito que se enaltece, a fornecer um extraordinário exemplo de como sabendo fazer, estar e ser se consegue sulcar os ‘mares’, nem sempre bonançosos, com o compromisso de uma ‘rota’, enquanto navegadores com bússola, que nos leve a ‘porto seguro’, porque: “Do talento à excelência”!
Uma vez mais, as tais ‘coisas’ da ‘coisa desportiva’… e não só!

*Embaixador para a Ética no Desporto, uma vez, Embaixador para sempre

Duas guerras

7 June 2026 at 12:04

Sou suspeito, já que é – quase – sempre um assunto que me interessa, a nova série do canal História, “A Segunda Guerra Mundial com Tom Hanks”, com o grande planos da voz do actor, que acumula funções com a de co-produtor, e que trata como já devem ter percebido da Segunda Guerra Mundial.

Dito isto, desta singela forma, assim como quem não quer a coisa, podemos perguntar: precisa, o Mundo, de mais uma série documental sobre a Segunda Guerra Mundial? Eu responderia que talvez não, tantas são as séries que já nos foram oferecidas olhando o conflito sobre variados ângulos, geralmente na perspectiva dos vencedores. Com imagens a preto e branco, coloridas a posteriori, entrevistas a personalidades, antigos militares, pessoas comuns (populares para a imprensa tuga), são horas e horas de opiniões e factos, sobre o maior conflito da história da humanidade. De todo o material que tenho visto, o grosso da coluna navega, de uma forma geral no mar dos factos que já são conhecidos, e uma vez por outra traz à lidação imagens ainda não editadas e, nalguns casos, uma por outra com mais sangue e violência, que é o resultado do pé ante pé, que procura tactear o que é aceitável passar-se para o grande público. “A Segunda Guerra Mundial com Tom Hanks”, não foge à regra, não embarcando em versões revisionistas da História. Tenho a ideia que, desde o contributo dos historiadores mais consagrados, tudo o que lá se vê, já se aceitava nos idos de setenta, oitenta. O que tem vindo de novo são mais pormenores que outra coisa, mesmo depois da abertura de muitos ficheiros do mundo de leste, depois da queda do muro. Sem dúvida que o trunfo aqui me parece a voz de Hanks, que faz a diferença, nas narrações. Nada que me lembre mais as versões dos filmes para a criançada em versão portuguesa – que me perdoe o sindicato dos actores de teatro e cinema português nada ultrapassa o original. O restante é muito linear, mas está bem defendido pelo tratamento das imagens (muitas delas já conhecidas) e pelas declarações dos estudiosos que me parecem inatacáveis, simples e sem grandes leituras políticas. Claro que, para quem está interessado em discussões e segundas intenções (qualidades como quaisquer outras), não precisa de esforçar a vista: não está no sítio certo.

O jornalismo tuga anda pela hora da morte: perguntas chatas a políticos só em meses bissextos e no dia trinta de Fevereiro. Passos Coelho, um dos políticos que joga todos os trunfos na cegueira que lhes relatei na linha anterior, farta-se de fazer de S. Sebastião (acompanhado por aquele que não ousamos dizer o nome), sempre a ditar frases obscuras que, de certeza o divertem, quando olha para as caras de parvo da malta que o acompanha, por amor ou interesse. Uma coisa é uma coisa, outras, outra, mas o denominador comum das suas declarações é: “quero chamara a atenção para as reformas que os políticos não querem fazer”. E nem um empecilho daqueles jornalistas lhe pergunta: “Ora diga-me lá, só para nos dar um exemplo, quais são essas reformas de que fala?”. Talvez que se os tugas soubessem, lhe deixassem de perguntar, que hão-de ser tão boas, que podia ser que nunca mais lhe olhassem para a cara.

Doença Hepática Esteatótica: o “fígado gordo” que não deve ser ignorado | Por Sofia Carvalhana

7 June 2026 at 07:30

Assinalado a 11 de junho, o Global Fatty Liver Day pretende sensibilizar a população para uma condição silenciosa, mas cada vez mais frequente: a doença hepática esteatótica.

A designação “Doença Hepática Esteatótica” engloba diferentes formas de doença hepática associadas à gordura acumulada no fígado. Entre elas, a doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica (MASLD), previamente conhecida como fígado gordo não alcoólico, que reflete melhor a forte ligação entre esta condição e alterações metabólicas como obesidade, diabetes tipo 2, síndroma metabólica e hipertensão arterial.

A MASLD é a doença hepática crónica mais comum no mundo. Estima-se que cerca de um em cada quatro adultos no mundo tenha algum grau de fígado gordo (esteatose), sendo que muitos desconhecem totalmente o problema. Em Portugal, tal como noutros países europeus, o aumento do sedentarismo, da obesidade, da diabetes e dos hábitos alimentares desequilibrados tem contribuído para o crescimento do número de casos.

Os fatores de risco mais comuns para MASLD incluem excesso de peso, obesidade abdominal, diabetes tipo 2, resistência à insulina, colesterol e triglicéridos elevados, hipertensão arterial e sedentarismo. A predisposição genética e alguns hábitos alimentares, como uma dieta rica em açúcares, gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados também contribuem para o desenvolvimento da doença.

Apesar de na maioria das vezes não provocar sintomas nas fases iniciais, esta doença pode evoluir para situações graves, como inflamação hepática, fibrose, cirrose e até cancro do fígado. O diagnóstico precoce, através de exames de imagem e análises específicas, bem como o acompanhamento médico, são fundamentais, sobretudo na presença de fatores de risco, permitindo intervir antes que os danos hepáticos se tornem irreversíveis.

A adoção de um estilo de vida saudável continua a ser a estratégia mais eficaz para travar a progressão da doença e, em muitos casos, reverter os danos iniciais. A perda de peso, a prática regular de exercício físico e uma alimentação equilibrada têm demonstrado benefícios significativos.

O Global Fatty Liver Day surge, assim, como uma oportunidade para reforçar a literacia em saúde e alertar para a importância do diagnóstico precoce. Apesar de frequentemente negligenciada, a Doença Hepática Esteatótica é hoje um importante problema de saúde pública, com impacto crescente a nível mundial.

Leia também: Aos 102 anos, algarvia Gracinda Andrade continua a encantar gerações

Uma buganvília no caminho: contornos de um mapa esquivo

6 June 2026 at 18:06

Do meu grande sentido de desorientação já dei conta em diversas crónicas – é verdade que esta e outras características menos abonatórias, as pessoas normalmente escondem, disfarçam. Afinal, como constatei com as reacções a algumas dessas crónicas, não estou sozinha no reino dos desorientados.

Há muitos e muitas mais, discretos. Afinal, a desorientação é algo do foro privado e ninguém tem de a conhecer, excepto quando afecta terceiros. Mas adiante, pois não é esse o tema destas breves linhas.

Elas referem-se sobretudo à minha primeira ida ao Festival Literário Fólio, em Óbidos. Tinha visitado a vila apenas uma vez, quando, numa espécie de viagem de finalistas, terminado o 11.º ano, fiz com alguns colegas e professores, uma volta ao país, que durou uma semana e nos levou de São Brás de Alportel a Viana do Castelo, com acampamento em diversos parques de campismo do país. Da paragem em Óbidos, ficou-me uma enorme náusea e um banco onde me sentei, sem forças, enquanto todos os outros foram visitar a vila.

Desta vez, estreei-me também num alojamento local. Uma aventura de códigos, passwords, palavras mágicas que deviam abrir portais, uma espécie de abre-te sésamo, só que o sésamo nem sempre abria. Senti que era uma mistura de peddy paper com caça ao tesouro. Sim, o primeiro passo era descobrir a rua onde ficava o alojamento. Tinha arranjado o mapa no posto de turismo e pedi à jovem que me entregou o tal código que a localizasse no mapa. Só que ela insistia em QR codes, apps… Sou sincera, apps ainda vá. QR codes é algo que me faz alergia, desperta-me certos instintos desconhecidos, selvagens, “viscerais» -para usar uma palavra moderna, sonante, daquelas que aparecem em todo o lado, pois tudo é «visceral», até a alma, fazendo parecer que andamos com fígados, intestinos, presos ao pescoço. Essencialmente, porque para tudo é preciso o amaldiçoado QR code. Lá está o quadrado cheio de pontos manhosos, constantemente a rir-se de quem não nasceu na tal «era digital»… O facto é que o meu mapa em papel provocou na jovem o mesmo efeito que em mim os QR codes. Segundo ela, o mapa estava todo mal feito. Não batia nada certo. Tudo fora do sítio, desde a Câmara à farmácia. Imaginei um imenso «mapa esquivo» (título de um belíssimo livro de poesia de Fernanda Dias, escritora e pintora que viveu em Macau muitos anos, vive em Faro e que ainda poucos por aqui, infelizmente conhecem), com edifícios e monumentos em trânsito, a mudarem de lugar para ficarem mais perto ou longe uns dos outros e assim constarem no «retrato», ou melhor, no mapa. No fim, ficou cada uma na sua, ela com o seu precioso QR e eu com o mapa em papel, disposta a descobrir para onde tinham «abalado» os edifícios, nomeadamente aquele onde eu ficaria alojada. Das atribulações da aventura não vale a pena dar conta, mas foram vários códigos marcados em sítios inadequados, que não funcionaram. No entanto, não notei nada esquivo, o mapa pareceu-me bastante fiel. E o melhor: encontrei um belo e fixo ponto de referência. Sim, fixo, porque uma vez considerei como referência um pastor-alemão deitado, que quando me fez mais falta, decidiu dormir noutro sítio… Desta vez foi uma buganvília esplendorosa, a derramar cor sobre um muro caiado.

Orientou-me os passos e os regressos após as sessões. Ao ver as suas flores acenarem-me, desejei que ali permanecesse sempre, a deleitar, a apontar caminhos (a gente orientada, desorientada, humana…), que nunca nenhum malfadado código lhe ofuscasse a beleza, a poesia, a vida.

Alcantarilha: património, arte contemporânea e futuro cultural

6 June 2026 at 16:30

Mais do que a recuperação de um edifício, a reabilitação das ruínas do Castelo de Alcantarilha representou uma oportunidade para devolver à vila um papel cultural ativo, ligando património, arte e participação pública.

O Castelo de Alcantarilha foi edificado durante o período de ocupação muçulmana com o objetivo principal de defesa das povoações costeiras.

A partir do século XVII, entrou numa fase de declínio e degradação estrutural. No século XX, teve múltiplas funções e ocupações, e, nos últimos 25 anos, esteve fechado, sem utilização pública ou privada.

Promovido e executado pelo executivo camarário de Silves, as ruínas do Castelo de Alcantarilha sofreram um processo de reabilitação profunda para se transformar no atual Centro de Exposições de Alcantarilha (CEA).

Foi inaugurado no dia 3 de setembro de 2023, pela então presidente da Câmara Municipal de Silves, Dra. Rosa Palma.

É um equipamento cultural de média dimensão, destinado à promoção e divulgação de arte contemporânea nas suas diferentes expressões e manifestações: pintura, escultura, fotografia, desenho, etc.

Alcantarilha é uma vila milenar que, após a Revolução do 25 de Abril e com as transformações económicas associadas ao crescimento do turismo, foi perdendo progressivamente a importância económica e o protagonismo cultural de outros tempos.

Hoje, tenta recuperar esse dinamismo humano, social, cultural e económico.

Várias associações culturais privadas laicas, como  a Aldepa (Associação de Defesa do Património Cultural e Natural de Alcantarilha), e outras de cariz religioso, como a Irmandade do Nosso Senhor Jesus dos Passos de Alcantarilha, têm promovido, nos últimos anos, várias iniciativas  e eventos que visam promover e divulgar Alcantarilha, com base no seu património e passado cultural, religioso, artístico, arqueológico e arquitetónico.

A inauguração e a atividade do CEA vêm integrar-se neste processo de renovação de Alcantarilha, assumindo a Câmara Municipal de Silves uma maior responsabilidade para dar à vila uma nova vida.

Sul Informação

Coleção de Arte Contemporânea Privada Luís Negrão e Família

A Coleção de Arte Contemporânea Privada Luís Negrão e Família (CLNF) é uma coleção dedicada à arte contemporânea portuguesa, reunindo obras de arte de vários artistas de reconhecido percurso, que refletem diferentes tendências e movimentos artísticos e percorre várias décadas de criação artística.

A coleção tem sido apresentada ao público em vários espaços expositivos do país, particularmente em Alcantarilha, no Centro de Exposições de Alcantarilha.

A programação da sua atividade costuma explorar temas variados, promovendo o diálogo entre obras, estilos e contextos, o que enriquece a experiência do público e estimula a reflexão sobre a arte contemporânea.

À semelhança de outras coleções privadas de arte, a CLNF tem, na sua matriz de origem, o compromisso cívico e o dever ético de partilha pública da coleção.

Independente da posse, pública ou privada, as obras de arte fazem parte do património cultural de um povo e o usufruto e apreciação por todos deve ser estimulado e apoiado.

A CLNF apresentou, no ano de 2023, e pela primeira vez, um conjunto de obras de arte em duas exposições distintas, no Centro de Arte e Espetáculos da Figueira da Foz e no Edifício Chiado de Coimbra.

Ainda no ano de 2023, a convite da Sra. Presidente da Câmara Municipal de Silves, Dra. Rosa Palma, organiza uma exposição de arte para a inauguração do CEA, no dia 3 de setembro, dia do município. Foi apresentada a exposição “Quebra-Costas”, com curadoria de Hugo Dinis. Recordando um espaço público célebre de Coimbra, o quebra-costas, a mostra reuniu 29 obras de arte, numa viagem visual eclética percorrendo várias décadas de arte contemporânea portuguesa.

A colaboração entre a CLNF e a Câmara Municipal de Silves desenvolveu-se nos anos seguintes.

Em 2024 e integrada nas comemorações municipais da celebração dos 50 anos da Revolução do 25 de Abril, apresentou a exposição “Eduardo Gageiro”, organizada por Hugo Dinis, e que reuniu um conjunto de 14 fotografias históricas sobre a Revolução do 25 de Abril, da autoria de Eduardo Gageiro.

No ano de 2025, e iniciando a colaboração com o curador Hugo Santos Silva, inaugurou a exposição “Vínculo, encontro para um jardim”. Integrando 18 obras de arte, é pensada como experiência ambiental e sensorial, explorando a relação entre formas e sentidos, sugerindo novos modos de ver e experienciar a arte contemporânea.

Ainda em 2025, é apresentada a exposição “Homenagem”, com 16 obras do artista autodidata alcantarilhense Inácio José de Oliveira Mendonça, reforçando o sentimento da arte local e memória cultural.

Em Silves, é inaugurada, no Teatro Municipal Mascarenhas Gregório, a exposição “Lugar, Lugares” com 25 obras de cerâmica do artista plástico António Vasconcelos Lapa.

Outras iniciativas baseadas estão programadas para os anos de 2026 e 2027, com a ambição de consolidar uma programação cultural regular e qualificada.

As coleções privadas de arte contemporânea desempenham hoje um papel cultural relevante e cada vez mais importante no país e têm colaborado ativamente com instituições culturais públicas (museus regionais, municipais e nacionais) e privadas (Fundação Gulbenkian e Fundação de Serralves, por ex.) para apresentar as obras de arte que têm sob a sua responsabilidade.

Estes três anos, 2023-2026, de colaboração entre a Câmara Municipal de Silves e a Coleção de Arte Contemporânea Privada Luís Negrão e Família, são um bom exemplo como entidades públicas e o colecionismo privado podem colaborar para a afirmação cultural de uma região, e neste caso, do concelho de Silves.

Sul Informação

O Futuro

O Algarve, ainda enfrentando desafios comuns às regiões periféricas – como público reduzido e financiamento limitado -, tem apresentado, nos últimos anos, uma experiência cultural cada vez mais inovadora e diversificada, com múltiplas iniciativas que promovem diálogo, experimentação e produção artística.

Através de novos equipamentos culturais (como o CEA, por ex.), e programações culturais dinâmicas e atualizadas, o Algarve tem procurado ganhar o seu lugar no movimento cultural mais geral do país e da arte contemporânea em particular.

Mas, apesar do esforço das entidades públicas e privadas, e de movimentos culturais recentes e importantes, o Algarve ainda carece de instituições de grande escala, como museus ou centros de arte contemporânea com programação contínua e com acervo próprio (ou em situação de comodato).

O CEA tem vindo a afirmar-se como polo importante de difusão de arte contemporânea regional, promovendo exposições com programas educativos, e projetando num futuro próximo, residências artísticas e colaboração com artistas nacionais. O seu impacto e relevância baseia-se na diversificação da programação, no acesso aberto ao público com entrada livre (ampliando a circulação cultural), e promovendo artistas locais ou ligados à região, criando vínculos entre identidade cultural e práticas contemporâneas.

O futuro cultural do Algarve não se construirá apenas nos grandes centros urbanos, mas também em lugares como Alcantarilha, onde património, iniciativa pública, colecionismo privado e participação comunitária podem definir uma nova forma de centralidade.

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Professores e Educadores de novo nas ruas

6 June 2026 at 16:04

Depois das manifestações de 2023, onde exigiam a recuperação do tempo de serviço congelado, os professores e educadores voltam a ocupar as ruas. No passado dia 16 de maio fomos perto de 25 mil professores e educadores, que do Caís do Sodré aos Restauradores reivindicámos, entre outras coisas, uma justa negociação do Estatuto da Carreira Docente (ECD).

Esta negociação está a decorrer, apesar de já durar há nove meses, ainda vai nos primeiros pontos da discussão, mas há indícios de onde o governo e o ministério querem chegar.

Até agora o que se tem visto por parte do ministério é o não acolhimento das principais propostas da FENPROF, a falta de envio de documentos de apoio à negociação com a devida antecedência e a insistência em discutir variações de semântica que no fundo ocultam a diferença entre, por exemplo, o que é o concurso nacional de professores atualmente e um procedimento concursal ou o que é um corpo especial e uma carreira especial nos meandros da Administração Pública.

Os professores e educadores sabem bem que os jogos de palavras não lhes trazem estabilidade, respeito, condições dignas de trabalho e valorização salarial.

Nesta fase, o governo tem a oportunidade de, com a revisão do ECD, valorizar a carreira para atrair novos professores e resolver o grave problema de alunos sem aulas, no entanto faz exatamente o contrário, criando a ilusão de que está a resolver o problema.

No final da manifestação de dia 16, foram definidas linhas de orientação das próximas ações de luta e foi ainda aprovada uma moção, aqui os professores e educadores afirmaram com determinação a sua disponibilidade para defender a carreira e exigir a valorização da profissão e para defender a Escola Pública.

No dia 3 de junho tivemos a GREVE GERAL onde a maioria dos trabalhadores, mais uma vez, demonstrou a sua rejeição ao pacote laboral, que representa um retrocesso de direitos.

Os professores e educadores não saem à rua por capricho. Fazem-no porque sentem diariamente o desgaste de uma carreira marcada pela desvalorização, pela sobrecarga burocrática e pela falta de condições.

Tucidides

6 June 2026 at 14:04

Quem diria que tanto séculos depois o seu pensamento voltaria a dar volta ao mundo.

A visita de Trump à China pode não ter consequências significativas imediatas mas, como o mundo já entendeu, serviu para finalmente acabar com o perigo para a humanidade do domínio de um único sistema e poder dono e senhor de tudo.

Claro que Trump em si é uma figura menor e triste de toda esta história. O capitalismo neo liberal conduziria a isto mais cedo ou mais tarde. A concentração do capital inexorável em meia dúzia de potentados, como não poucos previram, não impediu a competição pelos lucros como a I.A. demonstrou claramente.

Porém, ao contrário de outros que ainda acreditam num ressurgimento do neo-liberalismo anglo-saxónico em que uma ilusória liberdade serviu como bandeira para intoxicar o mundo a partir de Hollywood p.ex. como valor ocidental e em que as armas sempre serviram como sustentáculo, o capitalismo chinês tem um cariz ditatorial única e última etapa possível para o seu processo evolucionista. E, por outro lado, poder ganhar com os mesmos trunfos jogando melhor.

E assim, graças a uma simples frase de TUCIDIDES, o mundo mudou mais uma vez como sempre é imperioso que aconteça.

E hoje passamos a ter dois donos do mundo… e não um só!

Um passo histórico sem dúvida para quem ainda não percebeu!

E amanhã há mais…!!!

Equívocos

6 June 2026 at 12:03

“O Hospital de Faro recusou admitir nas Urgências uma grávida em trabalho de parto porque esta não tinha ligado antes para a linha SNS 24. O INEM que assistiu a grávida à porta da urgência, insistiu que a mulher fosse admitida mas o hospital ordenou o transporte para Portimão, a 70 quilómetros” noticia a Comunicação Social, escrita e televisiva, que acrescenta “A Unidade Local de Saúde do Algarve garante ter sido uma decisão acertada: a grávida era saudável, a gravidez de termo e acompanhada“ e também é noticiado que a Ministra da Saúde, quando questionada, respondeu que serão pedidas explicações ao Hospital.

O habitual sururu do costume como se o facto verificado seja alheio à metodologia que o Ministério instituiu.

Não dispensam estas notícias algumas reflexões, começando pela matéria exposta, passando pela sua congruência e a importância muito mais relevante da causa deste estado de coisas.

Quanto à matéria exposta não fica claro se a utente não é admitida por ter cometido “o pecado“ de não ter telefonado para a linha SNS 24, embora o seja na notícia afirmado, ou se por não haver mais do que um obstetra de serviço e em prevenção, como afirma a ULS, logo se o Bloco de Partos estaria funcional, e também a ULS explicitar condições clinicas constantes no processo clínico a que só teria tido acesso depois de a parturiente ser admitida, o que na mesma noticia é afirmado não ter acontecido.

Poder-se-á concluir de certeza, é ser um episódio que em primeiro lugar atinge uma mãe quase a dar à luz e em segundo lugar a regulamentação que origina estes equívocos.

Reflitamos no que seria determinado a uma gestante de termo que morasse na Rua Leão Penedo, a mesma do Hospital de Faro, e telefonasse para a linha Saúde 24 ou para o INEM. Se o Bloco de Partos, de Faro, estivesse encerrado, seria igualmente encaminhada para o Hospital de Portimão.

Nenhuma diferença na resposta do sistema organizado ao telefonar para o INEM á porta da urgência ou do outro lado da rua, salvo a componente emoção.

Daqui a a questão que não se pode perder de vista:

Serviços insuficientes para a população que lhes está consignada.

Se se pode e tender que a falta de recursos humanos disponíveis para assegurarem o funcionamento das maternidades necessárias (programadas pelos ratios populacionais abrangidos e não pelos recursos humanos disponíveis), possam obrigar a metodologias transitórias de regionalização da prestação ou o recurso a contactos telefónicos prévios, apesar de indesejados, já não se entenderá porque surge esta dificuldade especialmente na especialidade de Obstetrícia.

Pelo menos é a especialidade cuja falta de recursos tem determinado o encerramento pontual ou definitivo dos respetivos serviços de urgência, as maternidades.

Ratios excelentes de médicos obstetras e pediatras nas equipas médicas, mas desligados da realidade do País? Ausência de equipas funcionais e multidisciplinares? Não sabemos.

Será assim indispensável identificar o que leva a este estado de coisas até porque se no ano passado os privados conseguiram aumentar para 16.317 os partos realizados num acréscimo de mais de 8% em relação ao ano anterior, com certeza não tiveram falta de obstetras.

Dualidade de critérios quanto à exigência numérica de médicos nas equipas funcionais, no público e no privado? Também não sabemos.

Só sabemos ser indispensável identificar as causas profundas desta situação tão dificil da assistência materno-infantil, que irá muito para além das vindas a público com soluções só aparentes, maternidades regionais, telefonemas prévios, ou incentivos pecuniários ilegais(!).

Ilegais como explicitamente expressa o comunicado do Conselho de Ministros de 7 de Maio, que reza que um dos diplomas aprovados ”prevê a atribuição de um incentivo remuneratório progressivo para o trabalho prestado além dos limites legais anuais

Reduzir a solução da carência de médicos obstetras, ou outros, exclusivamente à atribuição de incentivos pecuniários remunerando trabalho extraordinário além do considerado conveniente ao eficiente desempenho, não será o caminho para a normalização do SNS, pelo menos do SNS universal e tendencialmente gratuito ainda estabelecido, já que não foi qualquer outro eleitoralmente sufragado.

Urge serem encaradas soluções competentes que, na sua abrangência, realmente modifiquem este estado de coisas.

Os Millennials: das disquetes à Cloud | Por Anna Kosmider Leal

6 June 2026 at 07:30

A geração dos millennials, aqueles que nasceram entre o principio dos anos 80 e a chegada aos anos 2000, encontra-se numa posição única e, muitas vezes, desafiadora. Eles são os intermediários entre dois mundos: o tradicional, marcado por valores e realidades pré-digitais, e o digital, onde a informação flui a uma velocidade vertiginosa. Este fenómeno, acrescido ao facto de ser a “geração sandwich” atual, carrega consigo uma série de responsabilidades e pressões que podem impactar profundamente o seu bem-estar psicológico.

Dupla Exposição: O Conflito de Gerações

Na Antropologia, o conceito de “transição cultural” é fundamental para entender como as sociedades evoluem e se adaptam. Os millennials são, de certa forma, os arautos desta transição, vivendo num espaço onde as expectativas dos pais em relação ao sucesso e à estabilidade financeira se confrontam com a realidade incerta do mundo digital. Enquanto os seus pais, maioritariamente da geração X ou Baby Boomers, valorizam a segurança no emprego e a vida familiar convencional, os millennials são frequentemente empurrados para o empreendedorismo, a flexibilidade e a inovação. Esta discrepância gera um dilema: como equilibrar as expectativas familiares com as novas oportunidades e desafios que a era digital proporciona?

ANNA KOSMIDER LEAL
Antropóloga

A sobrecarga de informações é outra pressão significativa. Com acesso a um mundo de dados e opiniões a um clique de distância, os millennials enfrentam uma avalanche de perspectivas que podem ser confusas e contraditórias. Isso gera um estado de paralisia decisional, onde a dificuldade em escolher um caminho se torna um fardo emocional. A constante comparação com os outros, amplificada pelas redes sociais, pode levar a sentimentos de inadequação e ansiedade, criando um ciclo vicioso que afeta a saúde mental.

Sabedoria de Duas Realidades

Apesar dos desafios, a geração millennials também possui um rico capital cultural. Crescendo em dois mundos, eles desenvolvem uma perspetiva única que combina a sabedoria das tradições com a inovação da era digital. Esta habilidade de transitar entre diferentes realidades permite que os millennials sejam mais adaptáveis e resilientes, características valiosas num mundo em constante mudança. Eles aprendem a navegar em ambientes complexos, conciliando o que aprenderam com os seus pais, com as novas práticas e tecnologias que emergem.

Além disso, a experiência de ser a “geração sanduíche” pode também fortalecer laços familiares. Os millennials encontram-se, frequentemente, a cuidar não apenas dos seus filhos, mas também dos seus pais, criando uma dinâmica de apoio mútuo que pode ser enriquecedora. Este papel de mediador entre gerações pode fomentar um diálogo intergeracional que enriquece ambos os lados, promovendo uma compreensão mais profunda das necessidades e desafios de cada grupo.

Consequências Psicológicas e a Necessidade de Apoio

Entretanto, a pressão persistente pode levar a consequências psicológicas significativas. O burnout, a ansiedade e a depressão são problemas que afetam muitos millennials, resultantes da tensão constante entre as expectativas familiares e as realidades do mundo moderno. É crucial que haja uma maior compreensão e apoio, tanto a nível familiar como comunitário, para que esta geração possa encontrar um equilíbrio saudável.

Os millennials têm uma oportunidade única de moldar o futuro, aproveitando a riqueza das suas experiências. Ao aprenderem a integrar as lições do passado com as inovações do presente, podem construir um caminho que não só honra as tradições, mas também acolhe a mudança. A chave está em reconhecer que, mesmo sob pressão, a sabedoria de duas realidades pode ser uma força poderosa para a criação de um futuro mais inclusivo e sustentável.

Em última análise, os millennials devem ser vistos não apenas como a “geração sanduíche” e intermediaria do analógico para o digital, mas também como os arquitetos de uma nova era, onde a convergência de mundos pode gerar um inimaginável potencial.

Nota: A propósito, esta imagem foi gerada por IA.

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9 de maio de 1940, um adolescente suspira pela guerra, ela chegou | Por Mário Beja Santos

5 June 2026 at 18:20

O que há verdadeiramente singular nesta novela? Temos um adolescente à janela, o pensamento desliza à solta, atropelam-se desejos, a par de uma grande sensação de tédio, depois vemo-lo inserido no ambiente familiar, há uma atmosfera de tensão que percorre o país, a Alemanha fizera capitular a Polónia numa guerra-relâmpago, partilhara os despojos do país com a URSS, iria inevitavelmente virar-se para oeste, a França e a Grã-Bretanha tinham declarado guerra. A cabeça do adolescente gira em todas as direções, reflete sobre a guerra e a distribuição que a acompanha: “Tenho mil pensamentos. Talvez eu não seja normal. Imagine-se que havia um bombardeamento, que neste momento apareciam aviões alemães a sobrevoar a cidade. Uma bomba, nesta enfadonha rua de merda, seria mesmo fantástica. Prédios a arder, uma boa dúzia deles todos em renque. Imagine-se que esta rua estava em chamas, incluindo a nossa casa, que perdíamos tudo.”

E continua radical, a falar em abrigos subterâneos, em valas comuns, em profundação de cadáveres, que as bombas caiam por toda a parte. Assim se começa a desenhar uma potente água-forte, uma notável peça literária sobre a arrogância da juventude, o desejo de aventura, a perda da inocência, o chocante a assustador encontro com os bombardeamentos, a tal guerra chegara àquele país de bonomia e do gosto do bom viver, naquele exato momento ia mudar, por vezes de modo radical, a sociedade, a civilização e a cultura, mas nada se sabia ainda naquele início da invasão alemã. Cai, Bomba! por Gerrit Kouwenaar, Publicações Dom Quixote 2026.

Regressamos à novela quando Karel chega das compras que fizera a pedido da mãe, instala-se no quarto. O adolescente está dominado por pensamentos fulminantes, um tanto caóticos, sabe, entretanto, que os tios vêm jantar, chamam-se Robert e Lies, os pais chamam-se Cora e Philip, parece estarmos numa atmosfera de bonomia, o tio Robert só fala em felicidade, no fim do jantar o tio pede-lhe para ir no dia seguinte transmitir uma mensagem a alguém, o tio deu-lhe um papelinho enrolado e uma nota de dez florins.

Gerrit Kouwenaar (1923-2014). Foto DR

Karel sente que há problemas graves entre o pai e a mãe, um conflito que ele não entende, mas que o constrange. É neste ambiente que o irmão lhe vem anunciar que começou a guerra, o ataque alemão. Cá fora ainda tudo parece normal. Aquele rapaz de 17 anos questiona-se como vai ser a guerra, há pessoas que estão descansadas, acreditam que daqui a pouco vão aparecer os ingleses. O pai de Karel dá a saber que os alemães estão a cem quilómetros da cidade, há que contê-los; nas ruas, os automóveis continuam a circular como sempre, as lojas estão abertas, correm notícias que tanques e tropas motorizadas francesas e inglesas atravessaram a fronteira belga. Karel sai de casa e vai olhar a água da ponte, sempre com o seu espírito renitente e contraditório pensa que devia chover, que o tempo devia estar frio e sombrio. Nisto, dois aviões voavam por cima da cidade, Karel viu dois pontinhos a cair. Seguir-se-ão estrondos, casas esventradas, a guerra dava sinal de vida.

Então Karel foi cumprir o pedido do tio Robert, levou uma mensagem à amante dele, é recebido pela filha, acolhimento amistoso, elas perguntam-lhe se os ingleses já chegaram, ele não sabe, mas decerto hão de vir. Karel é confrontado com uma atmosfera de uma inquestionável normalidade, elas revelam serem judias, põem a hipótese de terem de fugir, ainda confiam com a chegada das tropas britânicas para suster as alemãs. A filha sentou-se ao piano e tocou uma melodia lenta e sincopada. A mãe não tem resposta para a carta do tio Robert.

No dia seguinte Karel sai de bicicleta, pedala a uma velocidade moderada pelas ruas sem automóveis, onde as pessoas passeavam em família, entediadas, aquele ataque alemão trouxera um contratempo nos lazeres habituais. Volta a bater à porta da casa onde estivera na véspera, a filha, de nome Ria, convida Karel a passear, pede-lhe um beijo, a serenidade continua a reinar naquela casa, mas a mãe comunica que vão apanhar o barco das quatro horas. Ria mostra-se apaixonada por ele. Karel parte confuso, é o despertar sensual.

O ambiente da cidade modificou-se, os cinemas estavam todos fechados. Nisto aparece o pai, vem assustado por nada saber do filho, regressam a casa. Chegou a hora da roda do destino inserir a tragédia, houve bombardeamento, morreu o tio Robert, a tia está hospitalizada, Karel vai visitá-la. Assalta-o uma grande vontade de partir. Lança-se à estrada, há áreas inundadas, faz parte do plano holandês de travar os alemães. Alguém informa Karel que a Holanda se rendeu e dá-lhe boleia na bicicleta. E dá-se um encontro com os alemães. Ria e a mãe tinham fugido, ele está transido por ter desejado que caíssem bombas, tem 17 anos, não sabe para onde ir, a vida parece ter perdido sentido, é este estado de espírito, com as lágrimas a rebentarem-lhe dos olhos que um dos soldados alemães lhe pergunta: “Meu caro, então o que é que aconteceu?”

No posfácio, o escritor Wiel Kusters comenta a novela de Kouwenaar, encontra características comuns entre Kouwenaar e Karel, apesar da guerra não ter sido completamente inesperada significou uma rutura total, toda aquela atmosfera que vemos antes da invasão alemã ficará completamente alterada, aquele jovem de 17 anos é submetido a um quadro afetivo com Ria que o desperta para uma vida sentimental que ele desconhecia. Houve base histórica para os acontecimentos que ele descreve na novela, em 11 de maio as bombas alemãs arrasaram catorze prédios num ponto de Amesterdão, um bombardeiro alemão que fora atingido por artilharia antiaérea continua a voar e largou mais duas bombas. Cai, Bomba! Contém reminescências nítidas deste episódio fatal. O que há de devastador nesta descrição de um destino impiedoso é vermos um adolescente a sentir que tomou o comboio da História e que nos conquistou o coração.

Saudemos uma obra-prima, veio tarde, mas ainda bem que veio.

Leia também: Os demónios da interioridade, as assimetrias que matam os sonhos dos homens | Por Mário Beja Santos

Arrumadores versus parquímetros: entre a informalidade e o Estado de direito | Por Nélia Alfarrobinha

5 June 2026 at 11:40

O debate entre arrumadores de automóveis e sistemas de parquímetros não se limita a uma escolha entre conveniência e organização urbana. 

Ele envolve também um ponto essencial que muitas vezes é ignorado, o enquadramento legal da atividade, a forma como o Estado define o uso do espaço público e as respostas que a sociedade encontra, formal ou informalmente, para lidar com as pressões da vida urbana.

Os arrumadores surgem frequentemente como uma solução informal para um problema real, a escassez de estacionamento e a crescente pressão sobre o espaço urbano. 

Em muitos casos, esta atividade reflete igualmente fenómenos de exclusão social, precariedade económica e dificuldades de integração no mercado de trabalho formal. 

Em troca de ajuda na orientação de viaturas, solicitam contribuições monetárias. 

Para alguns condutores, esta prática é tolerada e até valorizada, para outros, representa uma presença incómoda, associada a um sentimento de pressão difícil de ignorar.

Do ponto de vista sociológico, a persistência deste fenómeno revela a coexistência de duas formas distintas de regulação do espaço urbano, uma formal, exercida pelo Estado e pelas autarquias, e outra informal, construída através de práticas sociais que se consolidam pela repetição e pela tolerância coletiva. 

A existência de arrumadores não resulta apenas de uma necessidade de estacionamento, mas também das fragilidades sociais e económicas que levam determinados grupos a procurar formas alternativas de subsistência.

Do ponto de vista legal, contudo, a situação não é neutra. 

Em Portugal, não existe uma lei que autorize a atividade de “arrumador” como profissão regulada. 

Pelo contrário, o enquadramento jurídico resulta da aplicação de normas gerais. 

Quando a atuação ultrapassa a simples ajuda voluntária e entra no domínio da intimidação ou da exigência implícita de pagamento, pode configurar coação (artigo 154.º do Código Penal), sobretudo se houver pressão psicológica ou condicionamento do estacionamento.

Além disso, em muitos casos, a atuação dos arrumadores entra em conflito com regulamentos municipais sobre ocupação do espaço público. 

As câmaras municipais podem proibir ou restringir comportamentos que interfiram com a circulação, o estacionamento ou a utilização livre da via pública. 

Nestas situações, a intervenção pode ser tratada como contraordenação, aplicada por polícia municipal, PSP ou GNR, dependendo da jurisdição.

Existe ainda uma dimensão frequentemente referida pelos automobilistas, a sensação de terem de pagar duas vezes pelo mesmo ato de estacionar. 

Depois de efetuarem o pagamento obrigatório no parquímetro, muitos condutores sentem-se pressionados a entregar uma quantia adicional ao arrumador presente no local. 

Embora essa contribuição seja, em teoria, voluntária, a realidade é que uma parte significativa dos cidadãos receia que a recusa possa originar conflitos, danos na viatura ou outras formas de retaliação. 

Independentemente de tais receios corresponderem ou não a situações concretas, a sua existência produz um sentimento de insegurança que afeta a perceção de liberdade e tranquilidade no uso do espaço público.

Ou seja, ainda que não exista uma “lei dos arrumadores” no sentido clássico, existe um conjunto de instrumentos legais que permite às autoridades agir quando a atividade deixa de ser espontânea e passa a interferir com a liberdade dos condutores ou com a ordem urbana.

Em contraste, os parquímetros representam a formalização completa da gestão do estacionamento. 

São um instrumento do Estado ou das autarquias para regular o uso de um bem escasso, o espaço público, através de regras claras, tarifas definidas e fiscalização institucional. 

Ao contrário da informalidade dos arrumadores, o sistema de parquímetros baseia-se na transparência, previsibilidade e aplicação uniforme da regra.

Contudo, também aqui a realidade não é isenta de críticas. 

Para muitos cidadãos, o estacionamento pago é visto como uma forma de exclusão económica dos centros urbanos. 

Pequenos comerciantes argumentam que a cobrança afeta a dinâmica local. 

Ainda assim, do ponto de vista jurídico, trata-se de um modelo legitimado pelo poder local, enquadrado em regulamentos municipais e políticas de ordenamento do território.

A comparação entre os dois sistemas revela uma tensão central das sociedades contemporâneas, de um lado, práticas informais que emergem das necessidades económicas e sociais de determinados grupos, mas que permanecem juridicamente frágeis, do outro, mecanismos formais, legalmente estruturados, que procuram garantir igualdade de tratamento e previsibilidade, embora nem sempre obtenham plena aceitação social.

O problema não é apenas de mobilidade ou de gestão do estacionamento. 

É também uma questão de confiança nas instituições, de perceção de segurança e de legitimidade na utilização do espaço público. 

Quando um cidadão cumpre a obrigação legal de pagar um parquímetro, espera que esse ato seja suficiente para exercer o seu direito de estacionar. 

Sempre que surge a perceção de que existe um pagamento informal adicional ou um risco associado à sua recusa, instala-se uma tensão entre a autoridade formal do Estado e mecanismos paralelos de regulação do espaço urbano.

No fundo, a questão “arrumadores versus parquímetros” acaba por ser uma questão de Estado de direito. 

A sociedade pode e deve procurar respostas para os problemas de exclusão social que estão na origem de muitos fenómenos de informalidade. 

Contudo, a gestão do espaço público não pode assentar na ambiguidade nem na dependência de regras implícitas. 

Num Estado de direito, os cidadãos devem saber quem regula o espaço urbano, com que regras e sob que garantias.

A verdadeira discussão não é, por isso, entre arrumadores e parquímetros. 

É entre a prevalência de mecanismos informais assentes na tolerância e na pressão social, e a afirmação de um modelo de organização urbana baseado na legalidade, na transparência e na igualdade de direitos. 

Quando o espaço público deixa de ser regulado exclusivamente pelas instituições legítimas, não está apenas em causa o estacionamento, está em causa a própria autoridade da lei e a confiança dos cidadãos no funcionamento do Estado.

Leia também: Olhão e o direito à tranquilidade: A insegurança que já não pode ser ignorada | Por Nélia Alfarrobinha

Espiritualidade em Crónica: Conheça os 3 signos do Zodíaco com maior sucesso para junho | Por João Correia Tarólogo

5 June 2026 at 09:54

Começo por desejar a todos vós, estimados/as leitores/as, um mês repleto de paz, saúde, luz e bênçãos divinas.

Que os nossos caminhos sejam eles sempre iluminados pela Fé, pela Esperança e pelo Amor, mesmo diante dos maiores desafios da vida.

Cada novo mês, assim como cada novo dia representa um novo ciclo, uma nova oportunidade de crescimento e evolução espiritual, transformação interior e renovação da alma.

JOÃO CORREIA
Médium, tarólogo, orientador mediúnico, popularmente conhecido pelo “Santo do Algarve”
Cada novo mês, assim como cada novo dia representa um novo ciclo, uma nova oportunidade de crescimento e evolução espiritual, transformação interior e renovação da alma

Assim como as estações mudam e o tempo segue o seu curso, como as marés sobem e descem, assim como o Sol e a Lua nos brindam com a sua energia todos os dias, também os astros desenham para cada mês mensagens diferentes, energias próprias e sinais importantes para a nossa caminhada terrena/espiritual.

Nada acontece por acaso.

Os movimentos do Universo, os signos, os números e as vibrações espirituais ajudam-nos a compreender melhor os caminhos da vida, as emoções do espírito e os desafios que Deus Pai coloca diante de nós para a evolução do nosso espírito.

Há meses de colheita, meses de aprendizagem, meses de silêncio e meses de renascimento. E é precisamente através dessa dança invisível dos Céus que poderemos encontrar respostas, orientação e esperança.

Este mês de junho é regido pelo número 6, o número 6 tem por  simbologia espiritual a Responsabilidade e a Justiça.

Neste mês de junho, os 3 signos que apresentam maior sucesso para os seus nativos, segundo o meu método, são:

Em 1.º lugar: Escorpião 

Escorpião é o signo do zodíaco que apresenta maior sucesso para o mês de Junho, tendo sobre si as duas cartas com maior força do tarot, o Às de Ouros e o Às de Copas, representando estas cartas a Alergia, a Riqueza e o Sucesso, assim tem estes Nativos sobre si todos os caminhos abertos, tanto a nível financeiro como no plano sentimental, poderá sem dúvida ser um mês de êxitos extraordinários para estes nativos de Escorpião.

Em 2.º lugar: Caranguejo 

Caranguejo bastante privilegiado neste mês de Junho, tendo sobre si a carta do Progresso em todas as áreas da vida, acompanhando ainda estes nativos as cartas que representam o Crescimento e a Benção na área financeira, no plano sentimental a Carta que representa a Recompensa, podendo esta “Recompensa” representar a porta ao Amor que se abre em vossas vidas, em suma é um mês de progressos em todas as áreas da vossa existência.

Em 3.º lugar: Gémeos 

É o terceiro signo do zodíaco que apresenta maior sucesso, tendo no seu caminho as seguintes cartas: o Contrato e o Laço no plano financeiro e a carta que representa a Vitória no plano sentimental, o que a conjugação de tais cartas faz com que estes Nativos possam vir a ter um mês de recomeços com Vitórias em todas as áreas da Vida.

Um Santo e Abençoado mês de junho são os meus votos, desejando que todos os nossos pensamentos e ações sejam sempre pautados pela responsabilidade de escolhas justas e misericordiosas, pois é a vibração do Amor que nos faz evoluir.

Sem nunca esquecer que é o Amor o que nos Salva.

Do Algarve para o Mundo, um Irmão na Fé.

Que os Céus vos Abençoem.

Foto DR

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