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Árvores na Praia do Carvoeiro cortadas pela Câmara porque danificavam «infraestruturas, pisos e piscina» de casa

9 June 2026 at 14:00

Três árvores frondosas da rua do Barranco, uma das principais artérias da Praia do Carvoeiro, foram ontem decepadas pelos serviços municipais da Câmara de Lagoa, como se pode ver nas fotografias.

Luís Encarnação, presidente da Câmara de Lagoa, contactado pelo Sul Informação, garantiu que o corte das árvores foi necessário porque estas estavam «a danificar, de alguns anos para cá, as infraestruturas, os pisos e a piscina da casa adjacente».

«Na sequência de várias queixas e elevados danos, tivemos de intervir», acrescentou.

Segundo informação prestada ao autarca pelos serviços da Câmara, também tem havido «diversos alertas apresentados por residentes da zona, em virtude da existência de ramos em risco de queda, quer para o espaço público, quer para o interior de propriedade privada».

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Por isso, garantem esses serviços, «a intervenção teve, para já, o objetivo de eliminar situações de potencial perigo, assegurando a integridade física de pessoas e bens, bem como prevenir a ocorrência de acidentes resultantes da queda de ramos degradados, secos ou estruturalmente comprometidos».

«A intervenção revelou-se necessária e justificada por razões de segurança pública, prevenção de riscos e proteção de pessoas e património», acrescentam.

«Infelizmente, as árvores plantadas na Rua do Barranco não são as mais adequadas para o local, o que já obrigou, no passado, à retirada de várias árvores daquela espécie», havendo até «várias caldeiras sem arvores na referida rua», informam os mesmos Serviços Municipais.

Nas suas declarações ao Sul Informação, o presidente da Câmara acrescentou que «vamos procurar transplantar estas árvores para outro local e plantar na Rua do Barranco, em substituição, árvores de raiz aprumada e mais adequadas ao meio urbano».

Quanto ao facto de o corte das árvores – que, pelas características da operação, deverá inviabilizar o seu transplante para outro local, ao contrário do que o edil afirma – ter sido feito em dias de muito calor, quase no início do Verão, diminuindo a pouca sombra que existe naquela rua da Praia do Carvoeiro, Luís Encarnação não deu qualquer explicação.

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Como escreveu, num artigo publicado no Sul Informação em Abril de 2023, o decano arquiteto paisagista Fernando Santos Pessoa, recente doutorado honoris causa pela UAlg, «a presença da Natureza na cidade já não oferece dúvidas, exceto aos negacionistas e aos especuladores fundiários».

«Uma das medidas mais eficazes para a redução do CO2 e para garantir condições de temperatura mais amenas é a reflorestação – e então no espaço urbano a sua função é fundamental», acrescentava.

«As cidades, e particularmente no Sul, como o Algarve, exigem que cada vez mais se aposte no arvoredo. Mais do que jardins de dispendiosa manutenção e exigência em água, o que precisamos no nosso Sul é de arvoredo, de sombras, aproveitando todos os recantos e espaços mortos para instalar árvores capazes de satisfazerem as exigências climáticas e garantirem um ambiente urbano saudável e acolhedor», escrevia ainda Fernando Santos Pessoa.

Mas já então salientava: «nem todas as autarquias têm correspondido a este requisito e tem que ser a opinião pública, os munícipes, a fazerem valer a sua vontade».

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Fotos: Tânia Marques | Sul Informação

Leia mais sobre este tema aqui:

«Há muito tempo que estamos a tratar mal as árvores»: Soluções? Inventariar, formar e investir
https://www.sulinformacao.pt/2026/05/ha-muito-tempo-que-estamos-a-tratar-mal-as-arvores-solucoes-inventariar-formar-e-investir/

e aqui

La sombra que salva Sevilla: los naranjos pueden bajar hasta 12 grados la temperatura de la calle
https://www.lavanguardia.com/local/andalucia/20260523/11545362/sombra-salva-sevilla-naranjos-bajar-12-grados-temperatura-calle.html

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O céu ainda sorri para Lídia Jorge

9 June 2026 at 02:00

A 18 de Junho de 1946, em Boliqueime, «o céu sorriu». Não porque «os anjos cantaram», mas porque, «de vez em quando, nasce alguém» capaz de recordar o que muitas vezes a humanidade esquece: «a sua própria humanidade». Esse alguém tem nome próprio: Lídia Jorge, a mesma que, quase 80 anos depois, a 8 de Junho de 2026, voltou a fazer o céu sorrir. Agora com uma Medalha de Mérito Cultural ao peito.

Na vida, há quem herde «propriedades», quem herde «apelidos» e outros há que herdam «uma coisa mais rara: o conhecimento profundo da condição humana».

É aqui que se insere Lídia Jorge, escritora multipremiada, algarvia de coração e de convicção, alguém que «nunca escreveu para conquistar o mundo».

Antes, «para o compreender», nas palavras de Dino d’Santiago, também cantor multipremiado, também algarvio de coração e de convicção – e, circunstancialmente, “padrinho” da atribuição da Medalha de Mérito Cultural a Lídia Jorge.

Aconteceu ontem, 8 de Junho, em Loulé, perante uma plateia lotada – Lídia haveria de confessar, com a sua íntriseca bondade, que estava entre amigos. De tal forma que quase «podia enunciar o nome de cada um dos rostos».

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Eles eram imensos: Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto (“culpada” desta homenagem à escritora algarvia), Telmo Pinto, presidente da Câmara de Loulé, Vítor Aleixo, ex-presidente da Câmara de Loulé, Carlos Albino, companheiro de décadas de Lídia, responsáveis autárquicos, gente ligada à cultura.

E Dino d’Santiago, a quem coube um género de laudatio à escritora que lhe ensinou que o dia 18 de Junho nunca mais terá o mesmo significado.

«Deixou de ser uma data para ser um lugar: onde a literatura, a esperança e as memórias resistem. E onde uma mulher de Boliqueime continua a lembrar-nos de que escrever não é só o ato de organizar as palavras», disse.

Nas suas obras – elas são tantas, desde o inicial “Dia dos Prodígios” (e já lá vamos) -, julgamos estar a olhar para «personagens» para, de forma súbita, entender que «estamos a olhar para nós próprios».

Talvez seja essa a magia da literatura. «Compreender é um dos gestos mais revolucionários que o ser humano pode realizar. Num tempo em que tantos escolhem o ruído, ela escolheu escutar. Talvez seja por isso que a sua obra permanece. Porque não nasceu da ideologia, mas da compaixão», disse, antes do abraço final à escritora, que o escutou comovida.

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Assim se manteve também quando Margarida Balseiro Lopes lhe agradeceu – num registo mais pessoal – a «simplicidade, a simpatia, a generosidade, a humanidade e a humildade». Todas «absolutamente desconcertantes».

A escritora, considerou a ministra, já num tom mais institucional, construiu «um percurso singular, com uma obra que atravessa grandes géneros e formas de escrita». Mas que nunca se desligou da «memória, da condição humana» e da «forma como olhamos o país e o mundo que nos rodeia».

O seu percurso começou «aqui, no Algarve», que sempre se manteve «na paisagem da sua escrita». O tal “Dia dos Prodígios” [e lá voltaremos a ir] foi «uma das obras mais marcantes da literatura portuguesa no pós-25 de Abril».

«Tratou-se de uma obra que abriu novas possibilidades à narrativa portuguesa contemporânea, construindo uma leitura profundamente original do país, da transformação social e da realidade portuguesa saída da ditadura», disse.

Outras se seguiram, como “Costa dos Murmúrios” ou a mais recente “Misericórdia”, mas a própria Lídia Jorge mantém com o primeiro livro que publicou uma relação que não escondeu, no seu discurso.

Já de medalha ao peito, depois de longos agradecimentos, a escritora confessou a «surpresa» de que se revestiu a publicação da sua primeira obra.

Com «palavras típicas de um lugarejo perdido no barrocal algarvio», essa história tinha tudo para ser um «livro completamente fora de moda». Tornou-se num clássico da literatura portuguesa contemporânea.

«Escrevi-o a seguir à Revolução, convicta de que a sociedade portuguesa se ia modernizar de um momento para o outro. E eu, sem qualquer tipo de saudosismo, desejava que não fosse esquecido o Portugal primitivo que a maior parte de nós, na altura, tinha conhecido», confessou.

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Para que a memória não se perdesse – ela que é um dos elementos primordiais na escrita de Lídia, uma escritora hoje atormentada com os desafios das novas tecnologias, que foram o mote para uma reflexão durante a tarde, em Tavira, também com a ministra da Cultura.

Há a inteligência artificial, uma «incógnita à qual ainda não sabemos dar verdadeiramente os adjetivos», mas também uma certeza bem vincada pela autora algarvia.

«A literatura e a poética representam o lugar último de resistência à robotização do pensamento, à artificialidade, à despersonalização. Nenhuma máquina poderá rivalizar com a capacidade criativa que nós, os seres humanos, temos», vincou.

Tudo isto foi dito, vivido e contado, em Loulé, no Algarve, na terra dela, na «primeira pátria» de uma escritora que continua a fazer o céu sorrir.

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

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