Seguro defende que “boas relações” com EUA e autonomia da Europa são complementares
Nunca a política exigiu tanto dos seus protagonistas competências de representação cénica.
O exercício do poder parece ter sido substituído pela arte da performance, onde a imagem prevalece sobre a competência, a narrativa suplanta a verdade e a teatralização ocupa o espaço outrora reservado à governação.
Ao observarmos a arena política contemporânea, de ministros a vereadores, de secretários de Estado a deputados da República, dos municípios ou das freguesias, assistimos a uma verdadeira colonização do espaço público pelas estratégias de autopromoção.
As redes sociais transformaram-se no palco privilegiado de uma incessante campanha de marketing pessoal, onde muitos procuram vender-se como figuras indispensáveis, apesar de frequentemente revelarem uma alarmante escassez de mérito, visão ou profundidade.
Vivemos numa época em que a política deixou de procurar cidadãos para seduzir consumidores.
O debate de ideias cedeu lugar à fabricação de personagens.
O pensamento foi substituído pelo slogan, a convicção pelo cálculo e a competência pela visibilidade.
O valor político mede-se agora em cliques, gostos, partilhas e aparições mediáticas, numa lógica narcísica que a psicologia social identifica como uma das patologias dominantes das sociedades contemporâneas.
A questão impõe-se, quem governa realmente?
Serão os eleitos?
Ou serão os assessores de comunicação, os estrategas de imagem, os consultores de marketing político e as múltiplas estruturas invisíveis que nunca se submeteram ao sufrágio popular?
A democracia corre o risco de se transformar num sofisticado teatro de sombras, onde os rostos são conhecidos, mas os verdadeiros centros de decisão permanecem ocultos. Do ponto de vista antropológico, esta realidade revela uma inquietante regressão tribal.
A política deixa de ser um espaço racional de construção colectiva para se converter num sistema de culto da personalidade, onde líderes e seguidores reproduzem comportamentos de pertença emocional, frequentemente impermeáveis ao pensamento crítico.
Talvez esta reflexão seja descartada como o desabafo de alguém que já ultrapassou o prazo de validade imposto pela sociedade da aparência.
Contudo, há uma diferença fundamental entre envelhecer e degradar-se.
Nunca precisei de me colocar em bicos de pés para parecer maior do que sou, nem de derrubar terceiros para conquistar um lugar à mesa.
A dignidade continua a dispensar artifícios.
Por isso, persistirei politicamente (in)correto, mantendo a espinha dorsal direita e a liberdade intelectual intacta.
Porque para além do ruído mediático, da encenação permanente e do espectáculo cuidadosamente produzido, continua a existir uma realidade que importa compreender.
E, convenhamos, quando o circo se instala no centro da política, o problema não está apenas nos artistas.
Está sobretudo num público que já desaprendeu a distinguir a substância da ilusão.
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