Ontem, como professor, ganhei 10-0 à Inteligência Artificial | Por Paulo Freitas do Amaral
Ontem revi dezenas de ex-alunos meus num sarau de ginástica. Após muitas emoções e, já em casa, com alguma frieza, revi rostos, momentos e ensinamentos e percebi que o tempo também nos pode dar felicidade, por permanecermos no coração e na memória de quem partilhou conhecimento e sentimento numa sala de aula connosco.
Foi aí que o meu pensamento, antes de adormecer no sofá, me levou para mais longe… As palavras de um comentador “elétrico”, aos berros na televisão, ecoavam, dizendo que a profissão de professor iria ser dizimada pela Inteligência Artificial.
Pensei para comigo: será que este comentador diria o mesmo se tivesse ensinado o António, que agora ama a disciplina de História porque viveu as minhas aulas sobre a cultura egípcia como se tivesse sido o melhor amigo de Ramsés III? Será que este comentador tem noção de que o Manel descobriu o seu jeito para fazer os outros rir, por se sentir à vontade comigo, quando contou uma piada provocadora na sala e fez o resto da turma rir? Será que o comentador da televisão tem noção de que a Matilde disse à mãe, no dia em que me despedi da sua turma, que queria ser professora de Português quando crescesse, tal e qual como o professor Paulo era?
A Inteligência Artificial, por mais que pense sozinha, aja sozinha e até possa dar aulas, nunca ouvirá um agradecimento de um aluno por o ter mandado para a rua numa aula por ter feito uma asneira, como a Rita me disse ontem durante o sarau… E já passaram quatro anos desde que fui professor dela, em Évora.
Por mais que a Inteligência Artificial se ligue a um robô e resulte num maravilhoso humanoide, ao rever a Catarina, jamais lhe perguntará, como lhe perguntei ontem, se as razões das lágrimas que deitou no seu 5.º ano já desapareceram. Jamais conhecerá o olhar cúmplice ou o abraço sentido que ontem troquei com o Dinis, por saber das dificuldades que passou com os seus colegas… e que ele sabe que eu sei.
A exigência de um professor no futuro não pode ser a mesma que pautou o ensino quando éramos crianças. Nisso dou razão aos “profetas da desgraça” que vaticinam o desaparecimento da profissão de professor. Aos professores mais insensíveis para com os alunos, a sua hora chegará.
A profissão de professor no futuro, utilizando o recurso expressivo da comparação e recorrendo ao exemplo de uma profissão que, segundo o comentador “elétrico” da televisão, jamais desaparecerá, terá de ser como a de um canalizador: analisa (ensina), descobre o problema (cativa os alunos para gostarem da sua disciplina) e repara (encaminha os alunos para serem bons profissionais).
Os discursos monocórdicos da exigência do passado terão de ser reformulados. A alegria de ensinar e a construção de bons seres humanos não passam por uma máquina, por mais que ela se assemelhe ao ser humano.
Aquilo que faz correr um aluno para um abraço de reencontro a um professor é muito mais do que um algoritmo disfarçado de “olhar humano”.
Os avisos da Anthropic para os professores servirão apenas para aqueles que acham que uma nota reflete toda a exigência do mundo, que a alegria é sinónimo de irresponsabilidade e que uma cara mal-disposta representa autoridade.
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