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Portugal de Lés-a-Lés com ‘Colheita Vintage’ em 2026 chega ao seu destino

Encerrou em grande a edição de todas as lendas

Super divertida, tórrida, inovadora, nutrida, exigente, casamenteira, descobridora, desafiante, gulosa e atrevida. Assim foi a 28.ª edição do Portugal de Lés-a-Lés, essa aventura que, todos os anos, leva centenas a descobrir um País fabuloso para o mototurismo. Claro que muitos mais adjetivos poderiam ser utlizados, mas esses guardam-nos, na alma e no coração, todos e cada um dos participantes que percorram mais de 1100 quilómetros entre Faro e Vizela, parando em 18 Oásis e noutros tantos locais em busca de um alicate que assinalasse na tarjeta o cumprimento integral de um percurso soberbamente apresentado nas 67 páginas de um ‘road-book’ que é uma obra de arte.

Números que, no entanto, são insuficientes para espelhar a real dimensão da maior aventura mototurística da Europa, colocada na estrada por uma grande equipa, e que, nesta ‘colheita vintage’ de 2026 garantiu enorme animação do primeiro quilómetro ao último metro. Sempre com muito calor, que nem a ameaça de chuva e algumas pingas na última etapa amenizaram, ajudando a tornar cada paragem parte integrante (ainda mais!) de uma descoberta que deixou portugueses e estrangeiros de sorriso rasgado na chegada ao palanque final. Uma festa enorme para encerrar um festival de curvas e gargalhadas, de surpresas gastronómicas e até inusitadas cerimónias que não estavam no programa do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal.

No festival mototuristico entre as cidades termais de São Pedro do Sul e Vizela, foram 320 quilómetros de um trajeto abrangente, através das Terras do Demo de Aquilino Ribeiro, das paisagens únicas do Douro Vinhateiro, das explorações auríferas nas minas de Jales e da agreste ruralidade de Terras de Basto.
Segundo o horário ideal previsto, eram 11 horas e 20 minutos de absoluto envolvimento turístico num dia excelente para a prática da modalidade, que começou mais fresco do que os anteriores, para uma primeira paragem em Castro Daire que tão bem recebe os motociclistas. Não apenas no Lés-a-Lés mas ao longo de todo o ano, tornando-se uma das paragens icónicas da N2.

Enquanto muitos reforçavam o pequeno-almoço madrugador com uma fatia do famoso Bolo Podre, outros conseguiram apreciar um dos primeiros Austin Ten, modelo de 1933, que o senhor Evaristo utiliza de forma regular para mostrar aos estrangeiros toda a potencialidade turística da região, em animados passeios que se estendem para lá do Douro.

Aquilino Ribeiro e o ‘camião’ do francês

Que era exatamente o destino da caravana que, ainda algo ensonada, passou pela labiríntica aldeia de Pendilhe, onde Dominique Gaignet disse mal da sua vida para manobrar a gigantesca Harley-Davidson Electa Glide, comprida de dois metros e meio e com mais de meia tonelada sobre duas rodas. O francês do Moto-Club Luçonnais (organizador do FIM Motocamp em 2025) reconheceu “a elevada qualidade e originalidade do evento, impecável em todos os aspetos, apesar de estar longe de ter um percurso ideal para esta moto”. Um lamento que não roubou o sorriso a quem fez mais de 3600 quilómetros só para chegar a Faro, passeando com sete amigos pelo sul de Espanha. Isto porque foi incapaz de dizer que não ao desafio lançado por Eric Sperner, presidente do clube que é geminado com o Grupo Motard de Fafe, e que é casado com Rosa Armanda Silva, uma portuguesa… de Fafe. Está explicado!

Ficou triste o ‘monsieur’ Gaignet porque, preocupado que estava com a condução do ‘camião’, não reparou na dezena de espigueiros que dão um toque único a Pendilhe, mas fez questão de passar com toda a serenidade numa Vila Nova de Paiva que ainda se espreguiçava. E com calma passou também no desvio pelas ruelas de Soutosa, terra onde nasceu aquele que muitos apontam como o maior prosador português do século XX, Aquilino Ribeiro. A Fundação que protege o espólio e as memórias do autor de Terras do Demo ou Volfrâmio ainda estava fechada, mas, pouco depois, mesmo em frente à Câmara Municipal de Moimenta da Beira, era possível perceber a ligação do escritor e empenhado ativista anti ditadura às origens. Afinal, a homenagem materializada na estátua ‘Quando os Lobos Uivam’, não deixa margem para dúvidas.

Levando muito a sério os avisos do ‘road-book’ e de toda a organização quanto à exigência da terceira etapa deste Lés-a-Lés, andaram lestos os participantes que passaram em São João da Pesqueira bem dentro do horário previsto, havendo quem, com medo de atrasos, até se tenha antecipado. A entrada no concelho, atravessando o Rio Távora na robusta ponte de arco único de Riodades, fez recordar outra relevância motociclística, com as marcas deixadas pelos fogos a sublinhar a importância da campanha Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés que, ano após ano, tenta mudar mentalidades e a constituição da floresta nacional, apelando ao uso das árvores autóctones.

Reflexão que terá passado para segundo plano ao atravessar o histórico centro de São João da Pesqueira e a sua barroca Praça da República, que já serviu de restaurante num almoço de uma das primeiras edições do Lés-a-Lés. É que a aventura não para e é necessária muita atenção para guardar tantos detalhes deliciosos que o evento vai desvendando.

Histórias de naufrágios e traições no Douro

Tão deliciosos quanto as paragens, indispensáveis para hidratar e alimentar os participantes, em tempo aproveitado também para ir colocando a conversa em dia e falar sobre as maravilhas acabadas de ver. Assim foi também no Oásis montado em parceria pelos elementos dos moto clubes do Porto, um dos criadores do Lés-a-Lés no longínquo ano de 1999 que recriou importante episódio histórico, e de São João da Pesqueira, que, com o apoio da autarquia, proporcionou a tradicional bola de carne e dois porcos no espeto. Havia que comer para manter as energias que era ainda longo o caminho até Vizela, continuando pelo coração do Douro Vinhateiro, entre estradas encantadas, com passagem pela barragem da Valeira. Construção de 1975, um pouco a jusante do famoso cachão, o desfiladeiro granítico que estrangulava de tal forma o Douro que, enfurecido se lançava de uma altura de vários metros.

Local que foi palco de lendário naufrágio recriado no Oásis anterior, com ajuda dos Bombeiros Voluntários que deram maior realismo com um bem-agradecido banho de mangueira a recordar águas tempestuosas. Como aquelas que, a 12 de maio de 1861, levaram ao naufrágio do luxuoso rabelo do segundo marido de Dona Antónia Adelaide Ferreira. Diz a lenda que a ‘Ferreirinha’ se salvou graças ao balão criado pelas longas saias, enquanto o próspero empresário britânico, Joseph James Forrester, tornado Barão pelo Rei Fernando II, falecia devido à sua avareza. Conta-se que os sacos de moedas presos ao cinto e colocados nas botas o terão levado rapidamente ao fundo, mas Camilo Castelo Branco, contemporâneo do acontecimento e sempre muito bem informado das vidas mais mundanas onde ia buscar inspiração para as suas novelas, narra a verdade com outras letras.

No livro O Vinho do Porto, o escritor que viveu durante vários anos por aquelas bandas, conta que o Barão de Forrester terá sido atingido pelo mastro da embarcação, caindo atordoado às águas revoltas e esbracejado durante alguns minutos em busca da salvação. Algo que José da Silva Torres, administrador de longa data dos negócios e segundo marido da ‘Ferreirinha’, não terá tentado evitar, ficando quedo e mudo perante os pedidos de socorro do inglês. Talvez, conta Camilo, por saber do envolvimento romântico entre ele e a agora esposa ‘Ferreirinha’…

Curvas a subir e curvas a descer

Diz a experiência motociclística que depois de cada descida vem uma subida e vice-versa. Se a isso juntarmos um festival de curvas é possível fazer uma pequena ideia da diversão na descida ao Douro, na subida até Linhares e Parambos, em nova descida através de Ribalonga, a aldeia dos construtores de socalcos, com direito a passagem pela Barragem do Tua e na magnífica ascensão a São Mamede de Ribatua, com desvio ao Miradouro do Ujo para apreciar o Reino Maravilhoso exaltado pelo grande Miguel Torga. E mais uma estrada empinada até Alijó onde, claro está, houve novo Oásis, mostrando as doces laranjas do quente vale de S. Mamede de Ribatua como um dos vários produtos de excelência da região.

Que bem souberam a Matilde Jacinto, a mais jovem condutora do evento que, aos 15 anos, sofreu a bom sofrer para ultrapassar as longas e exigentes subidas durienses. “É que não bastava ter um moto de apenas 50 cc, como não estava habituada à Sherco SM que chegou poucos dias antes do Lés-a-Lés. Além de que nunca tinha feito tantos quilómetros nem conduzido durante tanto tempo”. Ainda assim, a jovem de Estremoz estava radiante porque, “apesar da dureza, vive-se um ambiente espetacular, com visita a locais que não conhecia e descobrindo coisas que nem fazia ideia que existiam”. Ao lado, de olhar enternecido e orgulhoso, os pais Andreia e Bruno assumiam a ‘culpa’ de ter estimulado a filha a participar (bem como o sobrinho Tomás Cheira numa AJP 125) e depois de sete presenças, sempre em motos mais aptas às exigências de grandes viagens, optaram por viver uma aventura diferente. A mãe Andreia trocou a enorme BMW GS pela pequeníssima Honda Monkey 125 e o pai participou com uma Suzuki TU 250 carregada de história. “Foi a primeira moto e comprada com o empréstimo de metade do dinheiro pela namorada e agora esposa. O dinheiro foi devolvido”, garante o marido Bruno recordando uma paixão comum que ajuda a reforçar a relação a cada quilómetro que passa, “até que há pouco tempo o amigo a quem a vendi aceitou voltar a vendê-la!”

Escândalo em Vila Pouca de Aguiar

E assim, com cilindradas e andamentos mais próximos, esta verdadeira aventura em família seguiu através de Favaios, capital do moscatel, apreciando os últimos vinhedos até Vilar de Maçada, e daí, atravessando as serras de Vilarelho e da Falperra, chegar ao planalto de Jales. Zona de terras auríferas exploradas desde há mais de 2000 anos, numa epopeia que começou no tempo dos romanos e se prolongou até outubro de 1992, criando numa estrutura que chegou aos 650 metros de profundidade no último dos 16 andares subterrâneos.

Mas o ‘grande escândalo’ surgiu durante visita ao Centro de Interpretação Mineiro de Jales, ao descobrir que ‘Donald Trump’ decidiu dar nova vida ao complexo anunciando a compra com o dinheiro ostentado, ali mesmo, por ‘J.D. Vance’. Um ‘good deal’ de quem garante possuir todas as cartas para jogar onde e quando lhe apetecer, acompanhado da promessa de ‘Make Vila Pouca de Aguiar Great Again’ que deixou os próprios ‘americanos’ espantados.

Um grupo de 10 emigrantes lusitanos, literalmente de todos os cantos de Portugal, de Chaves a Lisboa, de Alenquer a Faro, que se conheceram em New Jersey e ficaram unidos pela paixão motociclística. A ideia começou com Paulo ‘Montanellas’ Sousa que descobriu o Lés-a-Lés em 2022 e regressou em 2024. Para a 28.ª edição desafiou mais amigos e todos alugaram motos para a aventura da Federação de Motociclismo de Portugal. Todos não, “que há quem tenha poder financeiro para mandar vir a Gold Wing desde os Estados Unidos apesar de sair bem mais em conta alugar uma moto”.

Espantados com o nível da organização, elogiaram o controverso ‘Trump’ de Jales como um dos momentos altos deste Portugal de Lés-a-Lés, enaltecendo “a capacidade de brincar com temas bem atuais ao mesmo tempo que mostram a História de Portugal de uma forma espetacular”. E depois de uma visita à réplica dos tuneis das minas e de conhecer as ferramentas originais das muitas profissões indispensáveis numa exploração mineira, seguiram para Vila Pouca de Aguiar descobrindo pelo caminho alguns pinheiros-do-Oregon, conífera de grande porte originária da América do Norte. E descobriram também, juntamente com todos os outros participantes, uma nova forma de chegar à cidade transmontana, trocando o bom asfalto da convencional pela N212 por uma abordagem diferente através de inclinados quelhos mesmo até ao centro.

Onde, fazendo jus à fama das suas qualidades, não podia faltar a conhecida Água das Pedras, extraída ali bem perto, no Parque das Pedras Salgadas, e onde até havia a possibilidade de assistir ao Concurso de Saltos Internacional, no Centro Hípico das Romanas. Curiosamente, os equídeos voltaram a ser tema de conversa em Cabeceiras de Basto onde a caravana chegou depois de mais uma boa dose de curvas com passagem por Ribeira de Pena, subindo ao Alvão, descendo ao Tâmega, visitando Arco de Baúlhe.

A lenda d’O Basto em palco de corridas… de burros

Tudo isto antes da paragem junto ao imponente Mosteiro de São Miguel de Refojos, fundado no tempo de D. Afonso Henriques e com a particularidade de ser o único dos 29 mosteiros beneditinos que tem um zimbório. Ali mesmo ao lado, num ‘asnódromo’ onde são feitas corridas de burros e que daria uma bela pista oval para corridas de ‘speedway’, os Motogalos de Barcelos animavam as hostes recriando a Segunda Invasão Francesa de 1809, lideradas pelo Marechal Soult, e picavam as tarjetas, enquanto os Bombeiros Voluntários Cabeceirenses voltavam, tal como há dois anos, em Cavez, a proporcionar excelentes bifanas.

Recordou-se a passagem das tropas napoleónicas que, vindas de Chaves e em direção ao Porto, percorreram e saquearam vários pontos da região do Minho e de Trás-os-Montes, causando grande destruição no vale do Tâmega, nomeadamente da histórica Ponte de Basto, cuja estrutura medieval foi parcialmente destruída. Falou-se de franceses, mas também da lenda d’O Basto, o poderoso monge guerreiro lusitano, tão grande em estatura como na coragem, que defendeu o Mosteiro de São Miguel da feroz investida dos Mouros durante o período do Império Visigótico. Depois de mandar os companheiros para acudirem a outros lugares, Hermígio Romarigues fez frente às tropas de Tarik, gritando junto à ponte que dava acesso ao Mosteiro: “até ali, por São Miguel, até ali basto eu!”.

E tanto bastou que, com bravura, repeliu as três investidas, cobrindo a ponte de corpos inimigos e obrigando os Mouros invasores e com maior poder bélico, a negociar de igual para igual com o Abade D. Gelmiro. Esse ‘basto’ acabou por dar nome a toda a região e foi imortalizado através da famosa estátua erigida em sua homenagem, como reconhecimento pelos serviços prestados a El-Rei Pelágio integrado no reduto das Astúrias durante a Reconquista Cristã.

Quatro casamentos e um Mundial

Momento histórico que quase distraía os mais atrasados (ou seriam as bifanas?…) que estava na hora de debandar em direção a Vizela. Antes, porém, a passagem pelo Confurco, meca do Rali de Portugal, mesmo às portas de Fafe, com o local onde foi dada a partida para o 15.º Lés-a-Lé a servir agora de palco à cerimónia do pódio do primeiro dos dois dias da primeira jornada portuguesa que marca exatamente o meio do Campeonato Mundial de Enduro. Quem ficou com pena de não poder ver em ação os melhores enduristas do planeta, tem nova possibilidade no fim-de-semana de 20 e 21 de junho, em nova ronda pelas serras de Fafe, na única localidade que acolhe duas jornadas mundialistas em 2026.

Sem tempo a perder que os implacáveis ponteiros do relógio não param, a passagem à porta da singela e robusta Igreja Românica de Arões e a subida à Penha para tentar fugir às zonas industrializadas, fez com que começassem a aparecer com frequência crescente placas a indicar Vizela. “Está quase” pensavam todos os aventureiros a pensar com o momento de glória de subida ao palanque final.

Porém nada no Portugal de Lés-a-Lés é tão linear como parece à primeira vista, isto é, ao olhar para o ‘road-book’, e para acabar em GRANDE, nada como uma visita à Igreja de São Cristóvão, em Abação. Uma surpresa que deixou muitos embasbacados com o grande aparato, com detetores de metais e muitos seguranças de óculos escuros e auriculares, que exigiam o convite entregue no Controlo 1, na Culatra, para a entrada numa festa de casamento. Ou melhor na celebração (real) de umas Bodas de Ouro e de quatro casamentos (‘fake’) que a rapaziada dos Conquistadores não faz por menos. Uma festa gigantesca no último controlo, o 18, em que as noivas chegaram em viaturas clássicas perante os aplausos dos quase 100 convidados vestidos a rigor.

Um equívoco, terão pensado alguns face ao realismo do evento. Nada disso: apenas o Motoclube de Guimarães a ser ele próprio tal como havia sido na ilha da Culatra, onde deu imprescindível contributo para o sucesso do inovador Passeio de Abertura. Uma deslumbrante festa de casamento com que os divertidos motociclistas vimaranenses marcaram o encerramento de um dos mais animados Portugal de Lés-a-Lés de sempre, que, porém, só terminaria uns quilómetros adiante.

Foi em Vizela, perante milhares de habitantes e com grande animação num palanque que contou com engraçados Centuriões Romanos, uma bela personificação da Vizela Romana e personagens em andas a juntarem-se às já imprescindíveis dançarinas numa festa onde nem faltou o fogo de artificio. Nem faltaram as mãos dos osteopatas da Osteomotus ou o apoio dos estreantes mecânicos Filipe, David e Diniz que se juntaram à equipa da Motoval. Nem faltou, claro está, um saboroso jantar, rematado com o famoso bolinhol, criado em 1884 e aclamado como uma das Sete Maravilhas Doces de Portugal em 2019. Repasto servido no Jardim Manuel Faria, mesmo ao lado da Praça da República, de onde partirá a edição de 2027 deste feita rumo a terras algarvias. Que, sublinhe-se, terá enormes exigências de qualidade depois do sucesso de 2026, fortemente aplaudido por todos os envolvidos no 28.º Portugal de Lés-a-Lés. Uma edição lendária, para ficar na história do motociclismo nacional.

Colaboração do Gabinete de Imprensa Portugal de Lés-a-Lés

Calor intenso ampliou dificuldades na 1.ª etapa do Lés-a-Lés entre Faro e Alcochete

Etapa longa de 425 quilómetros com emoções fortes e muito entusiasmo

Prometia muito e não desiludiu a primeira etapa do 28.º Portugal de Lés-a-Lés, com muitas surpresas e emoções fortes na ligação entre Faro e Alcochete, longa de 425 quilómetros. Foram mais do que as previstas 10 horas e meia entre a capital algarvia e a Avenida D. Manuel I sobranceira ao estuário do Tejo, num dia com estradas para todos os gostos. Desde a recurvada serra algarvia às retas da lezíria, do pitoresco e pouco conhecido barrocal algarvio aos verdejantes arrozais do Sado, passando pelas praias da Costa Vicentina, numa tirada por vezes bem rebuscada para encontrar alternativas a algumas das estradas aluídas no último inverno.

Para aproveitar ao máximo toda a potencialidade da jornada inaugural da grande maratona mototurística havia que ser madrugador, com o arranque do centro de Faro a partir das 6 horas e passagem rápida pela placa que, em Portugal, assinala a maior distância entre localidades, com os 738,5 km da sempre festejada N2 que leva até Chaves. Apesar de tocar várias vezes na Estrada Património, era diferente o caminho da caravana, saindo por entre laranjais, alfarrobeiras, oliveiras e figueiras, à descoberta de um Algarve bem diferente das turísticas paisagens da orla costeira.

Uma região bem representada por Alte, conhecida como a aldeia mais típica do Algarve, distinta pela arquitetura mediterrânica, com casas caiadas de branco e chaminés rendilhadas que contrastam com o arvoredo e com o rosa e laranja das buganvílias. Aldeia de Alte, que disputou com Monsanto o título da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal em 1938 acabando por ganhar o título de Aldeia Cultural.

28.º Portugal de Lés-a-Lés

E se é certo que ninguém viu a cascata mais imponente do distrito, a famosa Queda do Vigário, e que dizem ser a mais ‘instagramável’ de Portugal, nem as 500 camisolas com que Pedro Pirralho, do café Germano BiciArte, decora a rua para a passagem das provas de ciclismo nas mesmas estradas divertidas e com belas paisagens que a caravana atravessou, outras coisas viu a longa e heterogénea caravana.

Vacas dançantes, burros casadoiros e outros animais bizarros

Viu as já famosas e divertidas ‘vaquinhas’ do Moto Clube de Albufeira mais os seus pastores e ‘pastoras’ e viu gente inquebrantável que luta contra a desertificação do interior. População bem representada pela presidente da Junta de Freguesia, Elisabete Luz, sempre entusiasmada e incansável na tentativa procurar apoios para a fixação dos mais jovens e da natalidade bem como de combater o envelhecimento dos pouco mais de 1700 residentes numa freguesia que conta com 1558 eleitores inscritos. É só fazer as contas…

Vá lá que vão surgindo alguns estrangeiros que se apaixonam perdidamente pela região, sobretudo belgas e franceses, mas também um curioso casal anglo-australiano que, além das várias propriedades que possui no concelho e entre os vários investimentos concretizados, produz várias qualidades de cerveja artesanal. Que, pasme-se!, são batizadas com o nome dos burros da casa, como Clara que dá título comercial à Blonde Ale, Baltazar, a cerveja mais potente, ou Chico Bento, o burro capado, para a cerveja sem álcool. Mais curioso é o facto de estar marcada para dia 19 de junho a ‘festa de noivado’ da Clara e do Baltazar, no preciso dia em que a burra faz anos esperando-se mais burrinhos dentro de pouco mais de ano.

Uma manhã que começou fresca e que viu os participantes arrancarem o mais cedo possível para fugir à canícula que se adivinhava. Temperaturas elevadas que os ciclistas bem conhecem da Volta ao Algarve, utilizando as mesmas estradas para subir ao Alto do Malhão. Um privilégio descobrir por onde passaram Juan Ayuso, Jonas Vingegard, Remco Evenepoel, João Almeida e outros nomes grande do pelotão mundial e pensar que pedalaram por estas encostas e pelas divertidas e paisagísticas estradas da crista da serra.

28.º Portugal de Lés-a-Lés

O que eles não fizeram, ao contrário de todos os participantes do Portugal de Lés-a-Lés, foi a travessia a vau da ribeira de Odelouca. Na verdade, um pequeno fio de água, que mal deu para molhar os pneus, ao contrário do que se verificou no início do ano onde só de barco a motor ou, na melhor das hipóteses, de moto de água se conseguiria passar. Também sem complicações foram cumpridos os 900 metros em piso de terra para que o ‘road-book’ alertava e que, afinal, estavam em melhor estado que muitas estradas asfaltadas que o pelotão encontraria um pouco mais tarde.

Mas o pó que o calor ajudava a levantar à passagem de cada moto foi ‘limpo’ no Oásis de São Marcos da Serra com um excelente sumo natural, espremido ali mesmo das laranjas de Silves era acompanhado pelos ‘Esses’, bolos caseiros de forma bem condizente com as estradas da região, e o café de panela, adocicado com casca de limão. Simplesmente delicioso!

Aliás, se algo fica na memória dos participantes deste dia de aventura mototurística, foi o autêntico festival de descobertas gastronómicas proporcionado durante toda a etapa, havendo tempo para provar o Bolo do Tacho de Monchique, também conhecido por Bolo de Milho ou Bolo de Maio. Um doce tradicional feito com café, milho, especiarias e mel, bastante denso, aromático e cheio de sabor, e que é cozido no forno. E que está inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial segundo anúncio publicado no Diário da República nº 67/2025, Série II de 4 de abril de 2025. Ah, pois é!

‘Olh’á Bola de Berlim’, grita-se na praia

Para digerir tão distinta gulodice nada como as estradas e estradinhas sinuosas rumo a Odemira, o concelho com a maior área em Portugal, entrando no Alentejo pela ribeira de Seixe, através da quietude do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, havendo quem tenha feito um pequeno desvio até ao Cabo Sardão, seguindo o conselho do ‘road-book’ para ver o farol construído ao contrário, com a torre voltada para terra e a casa do faroleiro virada para o Atlântico.

Uma raridade técnica e arquitetónica que ficou a dever-se a desentendimentos entre os engenheiros e o construtor deste farol com 15 metros de altura. que entrou em funcionamento em 1915, na ponta mais ocidental da costa alentejana. Não menos curioso foi o avistamento de zebras, Kobus Leche e avestruzes mesmo antes da descida para a praia do Carvalhal.

E ainda a pensar num dos mais bizarros faróis da nossa costa e nos animais exóticos, lá foram os mototuristas através da Zambujeira do Mar até Almograve onde se voltou a ver o Atlântico, debaixo de uma tenda que proporcionou um momento de muito apreciada frescura. Espaço montado pela Honda onde foi possível hidratar e descansar um pouco, enquanto saboreavam as melhores Bolas de Berlim do Mundo. Bem, pelo menos do Lés-a-Lés, esse evento mototurístico onde as surpresas podem estar ao virar de qualquer curva.

‘Pôrra, estás na Abela’

Às portas de Porto Covo, mas sem entrar no lugar imortalizado pela voz lânguida de Rui Veloso, a despedida do litoral encaminhou a trupe para a grande surpresa do dia. Uma autêntica romaria montada em Abela que deixou todos de ‘queixos no chão’, proporcionada pelos habitantes da aldeia do concelho de Santiago do Cacém, liderados pela Guida e Josélia, as esposas do André e Orlando que, entretanto, andavam a divertir-se com os amigos no Lés-a-Lés, pois claro.

28.º Portugal de Lés-a-Lés

Mais a sério, a festa foi tal que, sobretudo depois da fabulosa açorda à alentejana e dos doces regionais acompanhados por jovens cantadores e música de baile, muitos ponderaram seriamente não mais sair dali até à noite, quase esquecendo que ainda faltavam bastantes quilómetros até Alcochete.

Para ganhar tempo e evitar ‘voltas e revoltas’, sobretudo devido ao aluimento da estrada em S. Romão do Sado, valeu a ajuda do piloto de todo-o-terreno e Campeão Europeu de Bajas, David Megre, que permitiu a travessia do Sado pela Herdade de Benagasil. Onde não faltaram ‘As meninas da Ribeira do Sado’ e alguma areia. E se às primeiras, resultado da divertida e profícua parceria entre o Moto Clube do Porto e Motards do Ocidente, todos acharam graças, o mesmo não se pode dizer da areia fofa que valeu alguns sustos, mesmo aos mais experientes.

Mas houve estreantes que quase se aventuravam, como aconteceu com Sameiro Sá Carneiro que, depois de 20 edições à pendura do marido, Filipe Raposo, ganhou coragem para encarar a longa maratona aos comandos da Honda CB500F. Para trás, garante, “ficou a descontração e maior possibilidade de apreciar a paisagem que se usufruiu do lugar do passageiro, e aumentou o stress de condução, sempre atenta à estrada, sobretudo para quem só tem a carta de condução há um ano e com pouco mais de mil quilómetros de experiência”. Mas, chegados à areia, foi o próprio marido, preocupado com o bem-estar da esposa (e talvez para evitar possíveis custos de oficina…) que se prontificou a atravessar uma centena de metros de piso mais movediço e algo traiçoeiro.

De coração cheio na Barrosinha

Foi a última ‘exigência’ de um dia longo, mas ainda havia outra paragem, um Oásis num sítio muito especial, a Herdade da Barrosinha que os motociclistas, impulsionados pelo Grupo de Acção Motociclista, ajudaram ao equipar com eletrodomésticos as 17 casas afetadas pelos temporais de janeiro, quando o Sado galgou margens e entrou porta adentro sem pedir licença, destruindo tudo o que encontrou pelo caminho.

28.º Portugal de Lés-a-Lés

No Oásis Cam-Am, montado pelo piloto e preparador ‘dakariano’ Mário Franco, muitos ficaram a conhecer, na primeira pessoa, a história de 17 famílias que, na realidade, é apenas uma. Primas e irmãs, tias e sobrinhas, mães e filhas que tiveram direito a um carinho muito especial de todos os participantes nomeadamente Pedro Guedes, que ficou “enternecido com a história de vida destas mulheres. Uma foto e um miminho era o mínimo que podia fazer por estas pessoas” reconheceu o modelo, ator e ‘influencer’ convidado pela Multimoto para descobrir o Lés-a-Lés.

Agora sim, estava ‘ganho o dia’, e faltava apenas descobrir a estreante Alcochete, com a festa do palanque final e jantar servido pelos três motoclubes locais (Grupo Motard de Alcochete, GM do Convento e Os Flamingos Samouco) na ribeirinha Avenida D. Manuel I, rei aqui nascido em 1469. Local de onde parte a maior caravana mototurística europeia rumo a São Pedro do Sul, para uma jornada de 413 quilómetros, com saída desde as 6 horas e mais de 11 horas de viagem através do Ribatejo e charnecas passando pelos granitos do Caramulo até à famosa vila termal. Onde será complicado antecipar se os participantes ficarão mais satisfeitos por ver os rostos sorridentes da equipa de animadoras do palanque “Lynn & Co.” ou as mãos milagrosas dos osteopatas da Osteomotus. Aceitam-se apostas…

Com colaboração do Gabinete de Imprensa do Portugal de Lés-a-Lés

Centenas trocaram motos por viagem de barco à Culatra antes do arranque do Portugal de Lés-a-Lés

10 June 2026 at 20:36

O passeio de abertura do 28º Portugal de Lés-a-Lés levou esta quarta-feira centenas de motociclistas à ilha da Culatra, «descobrindo o verdadeiro pulmão marinho do sotavento algarvio» antes do arranque do evento mototurístico.

Foi «a primeira vez na história do evento que os participantes deixaram terra firme e trocaram as motos pela viagem no barco, através dos canais da Ria Formosa», refere a Federação de Motociclismo de Portugal (FMP).

Levar todos os participantes no Lés-a-Lés à descoberta de uma das ilhas barreira que delimitam a Ria Formosa a sul obrigou a uma complexa logística de viagens, de e para Faro, em que o barco Mira Sado trabalhou mais do que nos melhores dias de Verão.

A confirmação foi dada por Geraldo Carmo, o presidente da Associação de Moradores da Ilha da Culatra (AMIC), que enalteceu «a vitalização da economia local, nomeadamente da restauração, ao receber um grupo tão grande de pessoas que chegam com um espírito diferente, para divertir-se num animado convívio e numa agradável interação com a população local», lê-se, em comunicado.

À saída do barco, no porto da Culatra, os marinheiros de ocasião foram recebidos, de forma surpreendente e divertida, pelos ilhéus, no ponto alto deste primeiro dia do Portugal de Lés a Lés.

Para os participantes, a jornada começou cedo para as primeiras equipas, com verificações técnicas e documentais desde as 8h30, no Largo de São Francisco.

Na quinta-feira, dia 11, os motociclistas arrancarão a partir das 6h00 para os 425 quilómetros da 1ª etapa, ligando Faro a Alcochete.

Cerca de 10 horas e meia de condução através da serra algarvia, com passagem pelo Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, até às portas ribatejanas de Alcochete, onde os primeiros motociclistas são esperados a partir das 16h30.

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